Arquivo mensal: março 2009

Watchmen

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Como adaptar a melhor HQ de super-heróis de todos os tempos? Como transformar em celulóide um mundo complexo criado pelo roteirista Alan Moore e imagens repletas de detalhes de Dave Gibbons? Como atrair o público, se a história, no lugar de heróis bonzinhos e politicamente corretos, traz humanos falhos e um “super-homem” que não liga a mínima para o planeta Terra? A discussão é quase tão velha quanto o lançamento de “Watchmen”, “O Poderoso Chefão” das graphic novels, em 1986.

Depois do projeto passar por alguns diretores, como Terry Gilliam (amigo de Moore, desistiu, tamanha complexidade da fonte), Darren Aronofsky (largou para rodar “Fonte da Vida”) e Paul Greengrass (da trilogia “Bourne”), a difícil tarefa caiu nas mãos de Zack Snyder. E o sucesso de seu “300”, adaptação da HQ homônima de Frank Miller, rendeu ao diretor uma relativa carta branca (cortaram uma hora do produto final, por questões comerciais) para contar uma história muito próxima daquela de 1986. Nas mãos de Snyder, os fãs da HQ obtiveram respostas satisfatórias àquelas perguntas. Qual foi a solução: alterar o mínimo possível de uma história já completa.

Estamos no ano de 1985, o mundo está um caos, como o próprio Rorschach (Jackie Earle Haley) não cansa de dizer, seja ao seu inseparável diário seja ao Coruja II, o único que poderia chamar de amigo. A lei Keene obrigou o registro de todos os mascarados, o que fez a maioria deles pendurar as máscaras. Pra piorar, no relógio para o fim do mundo restam apenas 5 minutos, por conta da iminente terceira guerra mundial (EUA x URSS). Nixon está em seu terceiro mandato. Edward Blake (Jeffrey Dean Morgan, muito bom), o polêmico Comediante, é brutalmente assassinado, levando Rorschach a acreditar numa conspiração contra os heróis mascarados e sai em busca dos ex-colegas para alertá-los. Resumir a história rica em detalhes de Moore em tão poucas linhas é uma injustiça, mas dizer mais (aos que não leram) poderia, por outro lado, estragar muitas surpresas.

Como era de se esperar, Jackie Earle Haley é o grande destaque do elenco, deixando claro que não haveria escolha melhor. Ele é Rorschach como os fãs imaginavam. Surpreendentemente, um pouco mais violento que na obra impressa – verdade seja dita, a violência, aqui, é ainda maior que a dos quadros de Gibbons. Morgan também emociona, dando uma certa (e devida) empatia ao Comediante, contrastada a seu caráter mais que duvidoso de um homem capaz de matar uma grávida de seu próprio filho. Adrian Veidt (ou Ozymandias) ficou bem nas mãos de Matthew Goode (e pensar que o papel quase cai nas mãos do chatinho Tom Cruise). E o resto do elenco não surpreende, mas faz o dever de casa.

Tecnicamente perfeito, “Watchmen” traz, se não todos, boa parte dos elementos visuais da HQ. Dos guetos às pomposas arquiteturas de Ozymandias ou o figurino (excetuando-se uma das roupas de Laurie), tudo muito bem recriado e condizente com o tom realista dos quadrinhos. Os efeitos, apesar de um par de cenas do azulão Dr. Manhattan não convencer muito, e a maquiagem (ponto positivo para a do Comediante e negativo para a Espectral de Carla Gugino) completam o ótimo visual da fita.

De fato, converter toda a complexidade da trama do guru das HQs Alan Moore é uma tarefa impossível. Afinal, são 12 edições, todas repletas de discussões sobre a existência de Deus, sobre a maldade do homem, o sonho americano, o abuso do poder e tantos outras polêmicas que só caberiam em obra escrita. Snyder faz o que pode e apresenta uma parte satisfatória desses assuntos – certamente, a versão do diretor que sairá em DVD aumentará ainda mais o leque de discussões apresentado nos papéis da DC Comics.

Snyder sabia do perigo que estava correndo. De um lado, os fanáticos que, ao menor sinal de mudança, poderiam boicotar o filme. Com a velocidade das notícias neste mundo virtual, isso poderia causar um grande prejuízo. Do outro, os não conhecedores da graphic novel, acostumados a filmes de super-heróis bonzinhos (o Batman não é bonzinho, mas perto de Rorschach, ele é um anjo). Sem falar no criador que amaldiçoa qualquer adaptação de suas obras, podendo, com isso, arrastar alguns xiitas para fora dos cinemas. Inteligente, o diretor de “Madrugada dos Mortos” escolheu a fidelidade – curiosamente, onde muitos apontaram como falha.

Minimizando a exclusão dos não leitores, o cineasta, acertando novamente, insere nos créditos iniciais (após o assassinato de Blake) uma breve introdução àquele mundo. Vemos a criação dos Minutemen, algumas mortes, a popularidade de Nixon entre outros importantes momentos da trama. Além disso, alterou (outro ponto positivo) o final um tanto quanto cabeludo do original (fãs, perdoem-me). De resto, “Watchmen” é para os tantos apreciadores da história original. E é quase palpável o carinho que o cineasta mostra pela obra tamanha a riqueza de detalhs. Diferente do que muitos críticos disseram, isso não é falta de personalidade ou coração, é respeito a uma das melhores histórias já contadas nos quadrinhos. Um legítimo filme de fã para fã.