Eu, mais conhecido pelo azar, tive a sorte de, com apenas uma resposta, conseguir assistir a primeira exibição no Brasil de “Kick-Ass – Quebrando Tudo”, numa promoção do site Omelete. Nunca acreditei muito em promoções. Pra falar verdade, não acredito na minha rasa criatividade. É só cogitar pensar em uma frase e colocar a mão sobre o teclado, pra me sentir um personagem de “Ensaio Sobre a Cegueira”. Então, a sorte minha não foi mandar bem na resposta para “O que você quebraria para ir a uma pré-estreia de ‘Kick-Ass – Quebrando Tudo’?”, mas, sim, o fato de ter não um ou dois vencedores, mas 40 – acrescentaria aí a possibilidade de o site não ter conseguido 40 respostas, mas como se trata do maior do Brasil no assunto, pode ser que a sorte tenha sido em ter crianças de três anos como meus concorrentes.

A minha surpresa de ser informado da possibilidade de levar um acompanhante só não foi maior com a de não encontrar, de jeito nenhum, alguém interessado em ser este – mesmo sendo, em minha opinião, uma oportunidade interessante, levando em consideração que o longa tem estreia marcada para daqui a 15 dias – fora o fato de ser grátis, com direito a uma xícara de Coca-Cola e um pires de pipoca. Liguei para alguns amigos, tentei no MSN, GTalk, ICQ, colega de trabalho, telegrama, mensageiro e nada.

Num rasgo de… desespero, pensei em alguns que, apesar de não conhecer pessoalmente, interajo via, acredite!, Twitter. O primeiro nome que me veio à mente se encontra em Paris e o segundo, o qual cheguei a convidar, por ser quinta, estava em pleno fechamento. No caminho para o Pátio Paulista, local onde se realizaria a sessão, me lembrei de um amigo que já havia passado pela minha cabeça, mas, por estar a duas semanas de se casar, imaginei que estaria muito ocupado. Porém o GG não só não tinha programado nada, como estava a caminho da Av. Paulista antes mesmo de eu falar com ele.

Desci do ônibus após o túnel da 9 de Julho, subi para a Paulista e andei até a estação Trianon, me esquecendo de que desceria na próxima. Mas achei lucro, porque o calo do calcanhar já tinha criado alguns filhos, os quais cresciam muito rápido, inclusive, curiosamente, no outro pé. Cheguei ao shopping e GG já estava lá há algum tempo. Algumas horas depois, encontramos o cinema, por sinal, muito bem escondido. Não havendo ninguém, “vamos comer?”, “vamos”, “ali na Jig’s tem uma coxinha legal”, “opa!”. Depois de deixar nossos rins para pagar a “melhor coxinha de São Paulo”, voltamos para a fila, antes vazia, e agora com cara de Lotérica em dia de Mega Sena acumulada. O Michel, também ganhador da promoção, não tinha chegado – bom lembrar, foi graças a ele e seu acompanhante, seu irmão com muletas, que conseguimos um bom lugar.

Depois de alguns minutos de espera e uma loira extremamente… simpática confirmar os nomes, foi liberada a entrada. Peguei as duas pipocas, as duas cocas, coloquei a mão que sobrou no bolso, fui para a sala e, após algumas palavras bem humoradas dos omeleteiros Forlani e Érico Borgo, a sessão começou.

Antes de falar do filme, um pequeno comentário: apenas três títulos me chamavam a atenção neste verão americano – época mais conhecida pela bilheteria que pela qualidade dos filmes – a ponto de criar uma certa expectativa: “Homem de Ferro 2”, que já estreou por aqui, “A Origem”, de Christopher Nolan, e esta adaptação da HQ de Mark Millar. Por isto, mesmo sendo tarde e longe, me esforcei para comparecer e, pra minha felicidade, não me decepcionei. Mais do que isso, com a expectativa lá em cima, tive o raro prazer de ver esta ser superada, com um sentimento de satisfação semelhante ao que senti a saída da cabine de “Batman – O Cavaleiro das Trevas”.

Dave Lizewski (Aaron Johnson) é um garoto comum, “que apenas existe”, com tara na professora (motivo do excessivo gasto com lenços de papel), viciado em TV, filmes, HQs, Internet e que, como qualquer nerd, vive apanhando dos garotos maiores. Seu vício nos quadrinhos o fez chegar a uma questão inocente, mas cheia de boas intenções: “Por que não existem super-heróis? Pessoas querem ser a Paris Hilton, mas ninguém nunca pensou em ser Homem-Aranha. Se os bandidos são de verdade, por que não existem super-heróis de verdade?”

Com essa premissa, ele parte pra ação – ou algo bem parecido. Não há um treinamento, apenas um ensaio em frente ao espelho. Nem mestre ou uma experiência que deu errado, pra lhe dar poder. Lizewski se transforma em “Kick-Ass” sem qualquer mudança, se não o colante verde (que basicamente serve para algumas piadas dos inimigos) e a coragem de enfrentar o perigo para defender os mais fracos. Na sua primeira tentativa, no entanto, as coisas não saem como imaginava (dizer mais do que isso, seria de uma maldade terrível) e vai parar no hospital, onde consegue uma pequena mudança no seu corpo, numa clara referência a “X-Men”, que pode ajudar nas futuras aventuras.

Não demora muito pra notícia rodar o mundo da Internet, com vídeos e fotos do garoto espancando (ou, ao menos, tentando) seus adversários. Kick-Ass tem até uma página no MySpace, onde interage com seus fãs – e que pode até aproximar seu alter ego da bela Katie, mesmo que não seja, novamente, da maneira como imaginava. Para o azar do pequeno herói, essa super exposição acaba atraindo a atenção do mais importante criminoso da cidade, que vê alguns de seus negócios afundarem, graças a um, segundo algumas testemunhas, “tipo de Batman”.

Aí, então, aparecem Big Daddy (Nicolas Cage) e Hit Girl (Chloe Moretz), donos dos melhores momentos do longa, para ajudar o novo colega de trabalho. A dupla passa a vida sem máscaras apenas para treinar a melhor maneira de serem super-heróis. Investem, pesquisam, compram armamentos pela Internet e estudam os oponentes friamente. E olha que estamos falando de um pai e sua filha de uns oito anos. A menina, falando nisso, protagoniza algumas das cenas de ação mais legais dos últimos tempos.

Como não leitor da HQ – apesar da Panini ter prometido lançá-la antes de o filme entrar em cartaz no Brasil, só é possível encontrar a versão importada por aqui – posso estar errado, mas acertaram em cheio a escolha do elenco. Sim, Cage está ótimo como o pai nada convencional da guria Moretz, que é uma graça e em muitas cenas, talvez mais do que deveria, rouba a cena do protagonista. Este, por sua vez, transmite bem alguns momentos de tensão (quase todos, quando inventa de sair sozinho contra os bandidos). E, claro, o eterno McLovin, Christopher Mintz-Plasse continua impagável. Dos principais aos secundários, incluindo o vilão de Mark Strong (ótimo) e seus capangas, todos funcionam muito bem, em cenas e diálogos muito engraçados, recheados de homenagem a “Homem-Aranha” (Lizewski, aliás, lembra a história de Peter Parker), “Superman”, “Batman”, “Star Wars” e até “Lost”, entre outros. O roteiro, do próprio Vaughn e Jane Goldman (mesma dupla de “Stardust”), também acerta nos diálogos pop.

Outro grande mérito de Vaughn é o distanciamento – se prendendo apenas as referências – dos outros filmes de super-heróis, no que diz respeito ao politicamente correto. O filme está mais para “Kill Bill” ou para as primeiras produções de Guy Ritchie do que, por exemplo, para os longas do aracnídeo, principalmente, nas cenas de ação (com direito a membros decepados, cabeças explodindo, muito, muito sangue) e no humor negro. Aliás, o pouco que há de correto na fita soa mais como um tributo ao universo dos heróis do que algo piegas – talvez isso seja mérito também da fonte, mas se sim, não tira o valor do diretor que manteve o clima.

“Kick-Ass – Quebrando Tudo” (título escolhido por um dos leitores do site Omelete) já teve uma boa estreia nos EUA em abril e chega aos cinemas brasileiros no próximo dia 11.

Se eu teria coragem de quebrar o outro mindinho do presidente Lula apenas para assistir uma pré-estreia, eu não sei, mas saí do cinema com um baita sorriso no rosto, e querendo mais. Falando nisso, no longa há a famosa ponta para um segundo filme que, por sinal, já tem nome e promete ser ainda mais violento.

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5 comentários sobre ““Kick-Ass – Quebrando Tudo”, pré-estreia do Omelete

  1. Puxa, fui o primeiro nome a ser lembrado (tenho certeza que a sua Tati ou não curte ou estava ocupada) e eu fujo para Paris, como assim? Valeu pela lembrança, fica para a próxima! abs

    1. As duas coisas: ocupada, em aula (que não podia faltar) e não se interessava a ponto de arriscar ficar mais um semestre na faculdade por conta disso…haha…infelizmente. Mas vou convencê-la de que, apesar do sangue, vale a pena ver. E você, cace o jeito de ver por aí 🙂

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