Arquivo mensal: agosto 2010

Educação Musical


Como todo pai, tenho inúmeras preocupações com minha filha. Todo dia aparece uma nova. A parte curiosa é que penso também, e acho que não sou o único, em algumas questões relativamente triviais quanto ao seu futuro. Esta semana, por exemplo, assistindo ao “Prêmio Multishow”, me veio uma delas, em dose cavalar e bem visual, que atrapalhou o meu sono e não me saiu da cabeça até agora – e não deverá sair tão cedo: como “educar” os ouvidos da minha filha?

É raro no país alguma programação como esta ser minimamente interessante, ainda assim, não sei por que, me vejo assistindo, na esperança de encontrar uma banda legal tocando ou, quem sabe, conhecer uma nova. Mas em meio àquele show de vergonha alheia que foi a premiação, com erros grotescos e textos piores que os roteiros dos filmes do Michael Bay, me assustei (e acredito que todos os outros masoquistas que estavam assistindo ao programa também) com a quantidade de bandas horrendas indicadas, tocando e recebendo prêmios.

Aí vem o pior: eles, assim como em outros programas similares, foram escolhidos, em sua maioria absoluta, pelos adolescentes de hoje. Não sei se culpo os pais, que não deram a devida atenção a este elemento tão importante na vida, que é a música, ou se é 2012 chegando. Prometo que tentei enxergar alguma coisa boa naqueles “músicos”, mas se até cantando as velhas músicas dos Titãs, eles conseguiram causar náusea, imagine as de autoria própria. Aproveitei para pensar em outros grupos da atualidade que atraem a maioria dos adolescentes. E muitos deles faltam muito pra alcançar o ridículo.

Eu sei que é esta geração. Essa mudança assusta a todos. Meus pais devem ter chorado rios com a chegada de, por exemplo, É o Tchan há mais de uma década, quando era eu o juvenil. Mas o nível está muito mais baixo. As músicas deste grupo baiano, por exemplo, perto do ruído horripilante que chamam de funk no Brasil, é canção de ninar. Se já era assustador ouvir “agora pare, pegue no compasso”, imagine essas letras do funk carioca, que não tenho coragem de reproduzir aqui. Esta ofensa em forma de música, aliás, aparece pouco na TV (amém?), mas elas estão do nosso lado, no trânsito, na praia, na periferia, no centro, quando um imbecil ouve isto no volume máximo. É uma praga que cria nas crianças de 4, 5 anos um vocabulário que deixariam Dercy Gonçalves corada de vergonha – vejo isso nas crianças da ONG onde sou voluntário. Junto comigo, citando outro exemplo, trabalha um menor aprendiz que, ao ser perguntado do que gosta, respondeu feliz da vida “funk e pagode”. Chorei.

Para entender meu desespero, cheguei à conclusão de que seria um sortudo se minha filha, se adolescente nos dias de hoje, preferisse Luan Santana ou Justin Bieber, pra citar alguém “de fora” – onde as opções também não andam interessantes – a NXZero, Cine e derivados. Quem é pai e leva a música um pouco mais a sério, deve imaginar o quanto seria pavoroso imaginar seu filho entrando na Fnac e saindo com um CD do Restart na sacola. É tão triste quanto chegar em casa e ver a criança lendo “Crepúsculo” ou “Gossip Girl” ou ouvi-la cantando “é que às vezes acho que não sou o melhor pra você… só quero que saibâ”.

Meu pai me educou ouvindo Raul Seixas, Queen, Neil Diamond, Flávio Venturini, o velho sertanejo (aquele de verdade, como o do Tião Carreiro e Pardinho, que contavam bonitas histórias em suas letras) etc. Vejo isso como um fator importante na minha educação musical. Sem falar que, por ser caçula, peguei muita carona no som que meu irmão, quando já mais velho, ouvia. Lembro, sim, de encontrar muito lixo, como o pagode, que já infectava nossos ouvidos. Mas assim, filtrando a música que tocava nas rádios mais o que minha família e alguns amigos me apresentavam e outros que descobria sozinho, fui construindo o que gosto de ouvir hoje.

Não sou saudosista. Gosto de Pink Floyd a Björk. Não acho que só as músicas dos anos 60 e 70 prestam. Década de 80 teve coisa excelente (alguém gritou desesperadamente Metallica?), a música do início dos anos 90 também. E algumas das minhas bandas prediletas, Franz Ferdinand, Radiohead, o irlandês Damien Rice e a maravilhosa Regina Spektor, citando poucos exemplos, lançaram álbuns nos últimos anos. Este ano mesmo já descobri grupos sensacionais (já ouviu Mumford and Sons?). E no Brasil, é claro, tem muita gente boa. O que posso dizer de mais nostálgico é que, antigamente, era mais fácil encontrar música boa – ou, então, apenas estas sobreviveram ao tempo e passaram de geração em geração.

O que me intriga é que, mesmo com tantas ótimas opções, velhas ou novas, a maioria da juventude prefere aquilo que agride aos ouvidos. Vivo me perguntando o quanto a educação familiar (ou qualquer outra influência que tenha bom senso), auricular ou não, interfere no gosto imposto pela massa, pela TV, pelas rádios que estão cada vez piores? E nem entro na discussão de quanto o que ouvimos interfere em nossas atitudes, pra não engrossar o caldo.

E, Sofia, que estará lendo isso daqui a alguns anos, não importa o que gostar, não tenha medo, peça qualquer CD (tirando este funk nojento). Claro, papai e mamãe chorarão em posição fetal a noite inteira se for Fiuk (olha esse nome, minha filha!) ou qualquer banda emo, mas o que importa, dizem por aí, é ter saúde. De maneira alguma vou impor aquilo que gosto, até porque todos têm seu lado trash. Papai não é diferente.

Só quero que consiga perceber e, mais importante, sentir o que é uma boa canção – a essa altura já devo ter te mostrado as letras de Bob Dylan e elas não são sensacionais? Descubra, independente de nós, pais e amigos, belas músicas, e assim, aos poucos, crie um vocabulário musical saudável. Não precisa gostar só de Chico Buarque (esse nem conseguirá cantar mais quando você ler isto aqui), mas também não vá dizer que Fresno (essa você nem vai ouvir falar) faz música.

E, não se esqueça, compartilhe o que encontrar de bom. Afinal, hoje, mesmo novinha, já influencia. Ou você acha que só ouço Palavra Cantada e Cocoricó quando está por perto?

Atualização: A foto acima, que encontrei em casa e resolvi adicionar no post, não é recente.

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