Arquivo mensal: novembro 2010

Memória de Elefante, de Caeto

As HQs autobiográficas sempre me chamaram mais a atenção do que, por exemplo, as de super-heróis. Antes que me crucifiquem, não menosprezo de forma alguma os (quase sempre) uniformizados heróis ou os outros quadrinhos que não se encaixam em alguma categoria. Muitos deles, inclusive, aparecem na lista de melhores HQs que já li, como “Watchmen”, “A Piada Mortal”, entre outros. Gosto de tudo, contanto que o autor respeite o leitor. No entanto, é notável o quanto admiro aqueles que resolvem contar sua vida em forma de quadrinhos. “MAUS”, “Epiléptico”, “Fun Home”… e este “Memória de Elefante”, romance gráfico recentemente lançado pela Quadrinhos na Cia.

Artista plástico, ilustrador, quadrinista, vocalista de uma banda punk rock, duro, beberrão, irresponsável, cara-de-pau e meio atrapalhado com as mulheres. Arriscou morar sozinho em São Paulo, pulando de casa em casa, vivendo, quando não de favor, de “trampinhos ingratos” que vão de pintar vasos até ajudar a limpar livros em um sebo. Este é Caeto – na superfície. De perto, a cada página, a cada encontro com sua família e seus amigos, a cada porre, se descobre o verdadeiro personagem. A bebida, na verdade, é a maneira que ele encontra para se esconder das incertezas e fraquezas.

Entre as utilidades do álcool, talvez uma das principais, está a tentativa de esconder a depressão oriunda da ausência de uma figura paterna. Filho de um homossexual assumido, soropositivo e depravado, seu difícil relacionamento com o velho o persegue ao ponto de não conseguir sentir um verdadeiro amor pelo pai, apenas eventuais admirações, mas que sempre são sobrescritas pelos traumas e grosserias, mesmo quando está debilitado pela doença. Sua “memória de elefante” torna tudo muito vivo em sua mente, o que piora o relacionamento, até em seus melhores momentos.

Tal qual Spiegelman em “MAUS”, claramente uma de suas inspirações, Caeto começa a contar sua história antes mesmo de saber onde ela vai dar (“quem sabe você não vira um personagem do livro”, diz em determinado momento a uma importante personagem). Falando em influência, outro detalhe que chama a atenção é a metáfora, recurso muito utilizado pelo autor, lembrando em diversos momentos o francês David B. (pseudônimo de Pierre-François Beauchard) em “Epiléptico”. Aqui, de forma menos surreal, mas nem por isso menos interessante. Assim como estes citados acima, “Memória de Elefante” não é leve, mas profundo e triste em vários momentos – tristeza muitas vezes minimizada pelo bom humor do autor. Aliás, não fosse a simpatia do personagem principal, a leitura seria ainda mais difícil.

A fácil identificação com lugares e situações (principalmente, para quem mora em São Paulo), a sinceridade de Caeto e os diálogos realistas (uma discussão, mais ao fim do livro, dele com sua irmã é absurdamente real e emociona) tornam a leitura muito gostosa, graças ao bom ritmo do quadrinista, que faz as mais de 200 páginas passarem voando. A arte, em preto e branco, é também um destaque, graças a criatividade do autor.

“Memória de Elefante” mostra a importância da família, quando funciona como tal ou quando não, e o que isso impacta na nossa vida. É também sobre aquela outra família, a que escolhemos fazer parte ou que nos acolhe: os nossos amigos. Soando muitas vezes como homenagem a estes. Sobre responsabilidades e a difícil arte de crescer. “Preciso arrumar um trabalho”, “será que um dia vou pagar minhas contas?”, “queria ter com quem dividir meus pensamentos”. Todos, em algum momento, passaram por estas incertezas. E é por ter me identificado com diversas situações, que admiro ainda mais esta história.

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