Arquivo mensal: julho 2011

Nós

Lembro muito bem da primeira vez que te vi.
Num belo pôr-do-sol de um dia quente e ensolarado.
O cansaço do dia consumia a todos.
Então, apareceu você.
Tão bela.
As pessoas à sua volta, te desejando.
Enfeitiçados por você.
Você os dominava. Um vício gostoso.
Uma submissão voluntária.
De longe, ouvi sua voz, um cochicho, um estalo.
O suor escorria num corpo rígido, límpido.
Você em sintonia com aquelas curvas perfeitas.
Tão pequena, prestes a explodir.
Era apenas o primeiro de tantos infindáveis e insaciáveis encontros.
Me aproximei. Com medo.
Era de longe mais experiente, madura, completa.
Os gelos disputando espaço, numa perfeita sinfonia.
Despreparado, te bebi.
Chorei.
Você descendo pela garganta.
Te senti bater no estômago. Como um alívio.
Um arrepio.
Meus olhos brilharam.
– Aaah!
Minha morena.
Um pequeno pedaço de felicidade e vida plena
Dentro de uma garrafa de 290.
Era ela, sublime.
Coca-Cola.

Foto: Marcel Freire

Anos Incríveis – Parte II: O Retorno

O meu primeiro semestre no internato não foi de todo fácil, como pareceu no início da história. Cheguei ao colégio com 14 anos e nessa fase você até acha interessante ficar um pouco longe dos pais, mas eu os havia deixado em fevereiro, para revê-los apenas em junho. E o pior: como eu sabia disso desde a minha chegada, o tempo passava muito mais devagar.

Claro que a correria, as amizades e os demais eventos costumeiros de colégio interno amenizavam a situação. Mesmo assim, à noite, quando todos dormiam, que a coisa ficava feia. As luzes do quarto se apagavam, entrava um silêncio absoluto, aí batia aquele aperto no coração de saudade. Em 99, o celular não era tão difundido e a ligação interurbana era muito cara, então, havia ainda aquele desespero de não poder ouvir a voz da minha mãe toda noite.

Por isso, saí para as férias, no meio do ano, decidido a não voltar, mesmo estando bem entrosado com o meu quarto, com a minha sala e com o internato. Arrumei minhas malas, não deixando nada para trás, e rumei para Ituiutaba, no triângulo mineiro, onde meus pais moravam. E passei minhas férias naquela insípida, incolor e inodora cidade.

Lá, conversando com os amigos que fiz, falava daqueles meses e do quanto havia sido divertido. Não demorou muito para perceber que havia tomado a decisão errada. Agosto já havia começado e, junto com ele, as aulas no internato. Pedi aos meus pais para voltar ao colégio. Pela rapidez da resposta, imagino que eles já sabiam que isso iria acontecer. E assim, voltava para mais um semestre no IAENE.

A primeira etapa do ano no internato serve basicamente para uma única coisa: mapear as pessoas que pensam como você e as pessoas que não pensam como você. Feito este mapeamento, naturalmente, as amizades se formam sem muito esforço, bem como as inimizades. Então, você chega para o segundo semestre com seu círculo de amigos quase definido.

Outro detalhe importante é que, com o tempo, você vai atingindo a maturidade e começa a entender mais aquele ambiente e descobrir o que tem de melhor. É como assistir a um filme muito bom pela segunda vez e saber exatamente quais cenas – e pessoas – você deverá relevar, quais você deverá prestar mais atenção e, mais importante, quais você levará para o resto da vida.

E foi dentro do quarto 12, onde passei boa parte dessa fase no internato, que encontrei pessoas que são meus melhores amigos até hoje. A minha aproximação com este quarto se deu ainda no primeiro semestre, através do Thiago Rocha (amigo dos melhores), que morava ali. Éramos da mesma sala e quando havia exercício a ser feito, ficava fácil fazermos juntos por sermos quase vizinhos – eu era do 14.

Naquele dormitório masculino era bem difícil não estudar. Monitores passavam pelos quartos se certificando de que o aluno havia dedicado ao menos uma hora e meia para os estudos. Você até poderia ficar sem estudar, mas também ficaria sem esporte (que vinha depois dos estudos) e, o pior, sem poder sair do prédio sábado à noite, castigo aplicado àqueles que não cumpriam os horários do dormitório.

O Pr. Ary, preceptor da manhã, propositadamente, acrescentou um teologando (um aspirante a pastor) no meu quarto, me incentivando a passar cada vez mais tempo com o pessoal do 12. Sempre que podia, levava meu colchão para lá, onde eu ficava até um monitor passar e reclamar. De tão significante que esta fase da minha vida foi, ainda hoje, 12 anos depois, continuo a amizade como se ainda estivesse lá com o Thiago e com o Gleyson (também do 12, e amigo dos melhores que alguém pode ter), apesar dos 5 estados nos separando.

Junto com Gleyson e Thiago moravam Hermano, um paraense muito gente boa de língua presa que o impossibilitava de pronunciar o nome de seu próprio estado; Carioca, com quem morei o ano seguinte inteiro e vivia passando feriados e fins de semana na sua casa em Salvador; Leo, namorador nato que vivia contando suas aventuras amorosas por quais passava em pleno trecho da BR 101, onde pegávamos ônibus para as cidades vizinhas; e Lucas, um pagodeiro com quem troquei meia dúzia de palavras.

Numa dessas noites, no quarto 12, Hermano (uma figura) foi ao banheiro. Assim que saiu, trancamos a porta imediatamente. Já passava das 23h, então, as lâmpadas dos quartos já haviam sido desligadas. Só havia energia nas tomadas, e por haver uma gambiarra (proibida) que iluminava o quarto, sempre que alguém saía era imprescindível trancar a porta para não nos flagrarem com a luz acesa.

Alguns minutos depois, alguém bateu a porta.

– Quem é? – perguntamos.

– Abre a porta!

– Quem é? – segui perguntando sozinho.

– Jurandir.

– Jurandir?

– Isso, abre a porta, por favor!

– Jurandir? Ahan. Se for o Jurandir, VAI SE F*D*R! – gritei.

Nessa hora, ouvimos o barulho de algumas chaves. No susto, apaguei a gambiarra. Preceptores e monitores carregavam, ao passar pelos corredores, um molho de chaves de todos os quartos, para o caso de alguém se recusar a abrir a porta. E aí, entrou o Jurandir, preceptor responsável pelo turno da noite, que estava passando no quarto e viu justamente por causa da fresta de luz que saía por debaixo da porta. Mirou sua lanterna diretamente na gambiarra, pegou a lâmpada e saiu. Não sem antes agradecer:

– Obrigado por terem mandado eu me f*d*r.

De fato, um agradecimento bem curioso. Infelizmente, por estarmos no escuro, era impossível saber a feição de todos. Sei apenas da minha: de boca aberta e com uma suave vontade de rir, fiquei sem me pronunciar por alguns minutos. Principalmente por estar em um quarto que não era o meu. Na verdade, estava pensando no que deveria fazer, já que a culpa era exclusividade minha. Decidi ir atrás do preceptor, que gentilmente me aplicou algumas horas de castigo, as quais paguei limpando pelos pubianos no banheiro do dormitório.

Aos poucos, este quarto e eu descobríamos, entre uma partida de dominó e outra, que além da falta de sono, tínhamos mais uma coisa em comum: a imensa vontade de sacanear a vida de um gordinho que não íamos muito com a cara. Faltava, no entanto, a sacanagem em si. O que faríamos? Eles haviam gostado da peripécia “The Wall”, mas precisávamos de algo mais direto, algo mais marcante, ou até tocante para a pessoa. Então, alguém genialmente sugeriu.

– Por que não damos um banho nele?

– Como assim?

– Jogando um balde de água nele, pô!

– Sério? Assim, do nada?

– Eu soube que o quarto dele não costuma trancar as portas durante a noite, então, pensei em encher um balde com água e jogar no cara enquanto estiver dormindo.

Percebendo que aquilo ali estava caminhando para uma maldade sem tamanho, achei bom fazer uma sugestão.

– Pessoal, é o seguinte… e se fosse água gelada do bebedouro, não seria melhor?

– Isso. A gente joga, bate a porta e sai correndo. Ou melhor, um joga o balde, o outro joga o segundo balde e o terceiro bate a porta. – outro acrescentou.

– E se o cara acordar e abrir direto a porta? Pode acabar encontrando a gente.

– A gente coloca shampoo na maçaneta.

– Perfeito.

Na verdade, não pensamos muito bem no que significava alguém acordar com um banho gelado. Aliás, até hoje, não consigo mensurar o ódio de quem acorda desta maneira e depois precisa continuar dormindo num colchão molhado, após ter tido o trabalho de trocar os lençóis. Além disso, é improvável essa pessoa acordar e entender de imediato o que acabou de acontecer. É mais fácil pensar que está em um sonho dentro de outro sonho dentro de um pesadelo, ou algo assim. De todo modo, eliminando qualquer risco, executamos o serviço com extrema perfeição.

O que não sabíamos é que a vítima, um mauricinho muito chato do quarto 8, seria apenas a primeira de muitas outras. Após a bem sucedida tarefa, nos tornamos um tipo de máfia. Os mais amigos (e os amigos dos mais amigos) chegavam até nós, após saberem do resultado nas vítimas – uma tristeza profunda, causadora de uma catarse que mudava o rumo daquela vida até então sem sentido – pedindo para realizarmos o trabalho em alguém que não gostavam ou apenas queriam sacanear. E assim, atuamos por algumas semanas.

Mas não demorou muito para a informação chegar à direção. Com o tempo, foi ficando cada vez mais difícil realizar o nosso trabalho. A monitoria estava mais atenta a pedidos dos preceptores, tentando encontrar o(s) culpado(s). Os quartos já não ficavam mais abertos – obrigando os moradores contratantes a tirarem cópia de suas chaves para nos entregar. No entanto, havia uma tarefa a ser realizada que não poderíamos deixar para trás. Seria a última antes de largar o crime.

Deixamos para a hora mais escura da noite (também vista como “a parte mais gostosa do sono”). Enchemos o primeiro balde. O segundo. Pegamos a chave. Abrimos o quarto com cautela. Passamos o Shampoo Seda Melanina – com certo excesso, por sinal, e jogamos os baldes. Sincronizados perfeitamente. Batemos a porta, trancamos o quarto e corremos. Entramos no 12, nos deitamos, cada um em sua cama e eu no meu colchão.

Tudo parecia ter corrido bem.

Porém, após poucos minutos, ouvimos um barulho do lado de fora.

– Ah, deve ser a vítima saindo do quarto. – alguém cochichou, tentando acalmar.

Em seguida, veio novamente o barulho, agora mais de perto. Era o Jurandir e seu molho de chaves abrindo a nossa porta. Não desistimos. Fechamos nossos olhos e fingimos estar dormindo. Como fazem em um presídio, o preceptor jogou a luz da lanterna sobre os olhos do Carioca, um dos caras mais cínicos que conheci na vida.

– Quê isso, prepa? O que está acontecendo?

O preceptor tentou outro rosto. Que também soube esconder a verdade. E outro, e mais outro. Ainda bem que não passou por mim, que por estar me mijando de rir, já deitei de bruço com o rosto praticamente coberto.

Jurandir havia desistido e já estava saindo, quando a luz de sua lanterna passou por algo suspeito. Ele parou, voltou a iluminar o objeto. Era a maldita Seda Melanina. Voltou ao local do crime para comprovar. Não teve jeito. Por causa da Seda Melanina fomos descobertos. Não foi possível castigar alguém, tampouco distribuir horas a todos os sete que estavam no quarto, afinal, nenhum de nós assumiu a culpa. Mas a máfia acabou ali mesmo, quase como um acordo entre preceptoria e nós.

Pra falar a verdade, mesmo se tivéssemos recebido 100 horas de castigo cada um, aquele último serviço teria valido a pena. A vítima, um gago do quarto 9, de acordo com testemunhas oculares, acordou aos gritos tentando, sem sucesso, soltar ao menos um palavrão de revolta.

– Aaaaahhhhh! P-P-P-Pu-Pu…

No ano seguinte ainda tentamos morar juntos, o que rendeu outros momentos clássicos, mas isso fica para a próxima.

Até lá.

Teaser Poster de “The Dark Knight Rises”

Teaser Post

Como aconteceu no longa anterior, a campanha do novo Batman, “The Dark Knight Rises” lança aos poucos (bem aos poucos) pistas, novidades e imagens na Web. Dessa vez, algo mais concreto, o primeiro teaser poster.

Lembrando mais o limbo do personagem Cobb (Leonardo DiCaprio) em “A Origem” a imagem pouco diz sobre o terceiro filme, mas já dá pra dar um frio na barriga.

Fonte: /Film