Arquivo mensal: abril 2012

Abrahan Lincoln – Caçador de Vampiros

Abrahan Lincoln

Muitos já passaram pela experiência de ler livros que se tornaram – ou iriam se tornar – filmes. Algumas vezes, fazem isso propositadamente. Comigo, apreciador de uma boa leitura e de um bom cinema, não é diferente. Vira e mexe, aparece um longa-metragem que já tenha visto sua origem impressa ou adaptações de HQs lidas – estas, diferentemente dos livros, são quase sempre um mix de várias histórias antes publicadas. Li aqueles que tempos depois se transformariam em película e eu teria o privilégio de saber o cerne da trama ou personagens, cenários e detalhes importantes. Com “Abraham Lincoln – Caçador de Vampiros”, de Seth Grahame-Smith, lançado em janeiro de 2011 pela Editora Intrínseca, foi assim.

Há uns dois anos, andando pela Saraiva do Shopping Morumbi, vi de relance, numa capa, uma típica donzela do século XVIII com o título “Orgulho e Preconceito e Zumbis”. Só quando li a última palavra, reparei que a moça estava em decomposição; era, na verdade, uma morta-viva. O título autoexplicativo me fez comprar de imediato a obra de Grahame-Smith, que insere canibalismo, entranhas e lutas de espada no famoso romance de Jane Austen. Pouco depois, descobri que o mesmo autor havia escrito a vida do ex-presidente americano misturada com os famigerados sanguessugas. Decidi, então, que deveria ler este livro.

O tempo passou e eu sofri calado, não deu pra tirar o livro do pensamento (OK, parei!). Passei um bom tempo sem ter a oportunidade (ou dinheiro) para comprar, até descobrir que, mesmo escrita depois do terror de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy contra os mortos-vivos, a saga de Lincoln sairia antes nas telonas, com produção de Tim Burton e direção de Timur Bekmambetov. Logo, resolvi adiantar a leitura. Mas filha cresce, filho vem e, apesar de já possuir o livro (não me lembro de quando exatamente adquiri), só pude lê-lo no mês passado, poucos meses antes do lançamento da adaptação – que será no dia 3 de agosto próximo.

Ao descobrir que sua mãe morrera envenenada por um vampiro, e não uma doença rara sem explicação, como lhe explicaram, o ainda pequeno Abrahan Lincoln decide se transformar em um exímio caçador desta criatura demoníaca – como ele mesmo, um cristão, gosta de dizer. Sua origem humilde fez com que trabalhasse desde muito cedo na lavoura, o que o deixou alto e forte suficientemente para a empreitada. Assim, o futuro presidente dedicaria toda sua vida para expulsar do seu país a raça que matara sua mãe – entre outros queridos durante sua existência.

Mas esta luta não seria fácil. Aproveitando da escravidão, ainda muito presente em meados do século XVIII, os sanguessugas haviam encontrado no novo continente um ambiente perfeito para sobreviverem. A facilidade de compra de escravos, sem nenhum acompanhamento das autoridades, por exemplo, fazia com que o “alimento” fosse comprado – inclusive em leilões onde eram vendidos os mais fracos e velhos, com baixo custo – sem nenhuma dificuldade. O ceticismo dos americanos também era um fator que ajudava a deixá-los às escuras. A maioria acreditava ser apenas um mito. Para enfrentá-los, então, Lincoln, um ávido leitor, precisaria, além da informação adquirida nas literaturas e de suas habilidades com machado, conhecer cada ponto fraco do seu inimigo. Mesmo que a única maneira fosse se tornar amigo de Henry, um ser da espécie que desejava destruir.

Grahame-Smith conta a vida de Abe dos 9 anos de idade até seu assassinato em 1865, passando pela infância humilde e a trágica morte de sua mãe, seus tempos de balconista longe de casa, o início da vida política, tempos de advogado, todas as suas perdas (incluindo alguns de seus filhos) até seu envolvimento decisivo na abolição da escravatura e com a Guerra Civil Americana. O curioso é que, exceto os elementos sobrenaturais, tudo faz parte da verdadeira história de um dos mais importantes presidentes dos Estados Unidos. O novelista, que deve ter pesquisado muito a respeito, tamanha riqueza de detalhes, utiliza até mesmo o nome dos personagens reais, dos familiares aos generais, dos amigos até o próprio assassino – um conhecido ator de teatro daqueles dias.

Aqui, os vampiros – como o próprio criador disse na Comic-Con do ano passado – não brilham tais quais os de Stephenie Meyer. Não apenas sugam, mas decepam, decapitam e matam, se for necessário (ou não), até a família das vítimas, com suas presas e unhas capazes de atravessar o peito. São extremamente inteligentes, frios e, apesar de mais enfraquecidos com o sol, podem atacar à luz do dia. Mas a obra, como o próprio país à época, mostra que de todos os lados, sul e norte (vampiros e humanos), há quem se salve – “alguns humanos são especiais demais para morrer”, “nem todo vampiro é assassino”. O próprio protagonista encontra em um vampiro a parceria que mais te ajudaria na destruição – ou, ao menos, diminuição – de sua própria raça nas terras ianques.

O escritor coloca, de maneira orgânica, este elemento surreal na vida de Lincoln, mudando muito pouco, senão nada, da ambientação do século XVIII que conhecemos das aulas de História. Utiliza, bem humoradamente, truques com Photoshop para caracterizar famosas imagens do tempo de escravidão e gravuras do próprio presidente. Smith não perde o ritmo em momento nenhum, seja no primeiro encontro do ainda jovem Thomas, pai de Abrahan, com as criaturas (um dos grandes momentos do livro), seja ao tratar do primeiro (e inesquecível) amor do protagonista.

Até quando interrompe a biografia de Lincoln, para mostrar como Henry se tornou vampiro, em vez de esfriar, acrescenta sensibilidade ao ser mórbido, aproximando o leitor daquele que se tornaria parte essencial da trama. O suspense, essencial a qualquer obra que abrange este tema, também é um ponto forte na leitura – impossível piscar, lá pelo final do livro, quando Abe vive uma de suas últimas aventuras, ao invadir a casa de um importante nome da Confederação. Ainda que mais moderadamente comparado ao seu livro dos mortos-vivos, Smith encontra momentos para brincadeiras divertidas e piadas de humor negro.

Por conhecer o ator que fará o papel principal nos cinemas, pude imaginar meu Lincoln já com um rosto – Benjamin Walker. Outros personagens, visualizava de outra maneira, como a esposa de Lincoln (não sei se Mary Elizabeth Winstead combina com a sofrida Mary Todd). Acredito que isto acontece muito com qualquer um que leia livros que tem adaptações prontas ou em andamento (li “Um Dia”, de David Nicholls, inteiro com os rostos de Anne Hathaway e Jim Sturgess nos papéis principais pouco antes do filme ser lançado).

Não sou do tipo que cria muita expectativa em cima de um longa, comparando-o com a obra escrita à risca. Inclusive, acho injusto quando não conseguem separar uma coisa da outra; sempre criticando a obra filmada, sem muito critério, esquecendo que nem tudo é “filmável”. Porém é importante manter a essência da história, importantes personagens, lugares e cenas. É inevitável desejar que, se não todos, muitos detalhes sejam migrados para as telonas.

Finalmente, torço para que Burton e Bekmambetov acertem o tom e realizem, ao menos, um ótimo entretenimento. O roteiro ser escrito pelo próprio Seth Grahame-Smith (que roteirizou o próximo filme de Tim Burton, também sobre vampiros, “Sombras da Noite”) é algo positivo, porque aumenta a probabilidade de elementos primordiais não ficarem de fora.

Clicando no link abaixo, você pode ler o primeiro capítulo do livro e, mais abaixo, o trailer (legendado) da versão filmada mais um dos cartazes do longa-metragem.

http://www.intrinseca.com.br/upload/livros/1CapCacadorVampiros.pdf

http://www.youtube.com/watch?v=FGDF8yj4808

Vampire Hunter

 

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