Arquivo mensal: maio 2012

Anos Incríveis – Parte III: B.Y.O.B.

(Talvez seja minimamente interessante ler primeira e segunda partes)

 

9h30, sentado à porta do banheiro masculino, alguém lamenta:

– Isso passou dos limites! Como alguém tem a capacidade de fazer isso? Como uma coisa dessas chega aqui dentro?

Se no mundo aqui fora, mente vazia é oficina do diabo, no internato, o conjunto de mentes vazias seria como um Senac do Capeta. Diversos “cursos”, divididos por quartos, alguns com especialidade em fugir sem ser notado para Capoeiruçu (vila ao lado do IAENE), outros em bolar maneiras e locais de beijar sua namorada – para quem não se lembra, naqueles tempos de internato nem sequer era permitido andar de mãos dadas – e outros mais avançados que, de tantas asneiras já feitas, apelavam para algo absurdo. Como nós, quando éramos do quarto 6, fizemos.

23h do dia anterior, quarto 6…

– Aí! Se liga no que a gente conseguiu.

João Eduardo, carioca com quem morei nos meus dois primeiros anos de internato, entrou no quarto junto com o Tonga – aquele rapaz gente boa, uma mistura de Elo Perdido com Fernando Scherer, de quem falei alguns meses atrás – carregando uma sacola com o que haviam conseguido com um amigo de Capoeiruçu.

À época, morávamos no quarto 6, o maior do dormitório. “Maior” não por uma questão de luxo, mas de capacidade mesmo; cabiam 8 pessoas. Pedimos, dois semestres antes, para unir a galera que, segundo nós, prestava dos quartos 14 e 12. Só conseguimos depois de um tempo, porque era um quarto muito disputado. Junto comigo moravam Lucas, Léo, Hermano, Thiago, Totó (Gleyson), Carioca (João Eduardo) e Elmano (Elmano).

[Este último, por sinal, ficou aproximadamente dois dias no quarto, por conta de uma atípica briga: era o dia de limpar o quarto e ele (que era desafinado batendo palma), por algum motivo obscuro, insistia em cantar junto a música que Totó (o único que sabia cantar de todos nós) escutava enquanto varria o quarto. Depois de muito pedir para ele parar de tentar acompanhar a canção, Totó, usando a única coisa que tinha na mão, expulsou Elmano do quarto à vassouradas distribuídas repetidas vezes entre a canela e o pescoço. Essa história eu ouvi depois, já que voltei atrasado, após um semestre em outro internato aqui em São Paulo. “Falei pra você parar de cantar, filho da puta!”, me disseram, foram as últimas palavras que ele ouviu enquanto morador do quarto 6.]

Trancamos o quarto e fomos ver o que Carioca tinha trazido. Era uma bomba caseira. Não me lembro exatamente de sua composição, aliás, nem sei se sabíamos do que era feito aquilo. Só sabíamos onde acender e da necessidade de utilizar um cigarro para atrasar a explosão. Sempre falávamos do assunto “bomba” – um ato terrorista de muito perigo, que só alguém com total ausência de maturidade é capaz de realizar – mas nunca tivemos oportunidade, nem sabíamos como encontrar uma. Convenhamos, mesmo antes do 11 de setembro e do massacre em Columbine, não era muito interessante sair perguntando “sabe onde eu posso encontrar uma bomba para eu fazer um barulhinho lá na minha escola?”.

Aguardamos um pouco. Em vez de primarmos pela discrição, curiosamente, nesta noite, aquela que planejávamos soltar a bomba, fizemos barulho o tempo inteiro. Jogamos partidas de dominó, truco, folheamos algumas revistas pela milésima vez. Lucas e Hermano, inclusive, tiveram a coragem de fugir para piscina que ficava do outro lado da praça, ao lado do prédio feminino. Para isso, utilizaram a chave que conseguimos, sabe se lá como (provavelmente amizade com algum monitor ponta firme), da porta do corredor que dava para a praça. Penso que inconscientemente utilizamos aquela teoria de quanto mais na cara ficasse que poderia ter sido nós, maior seria a chance de deduzirem que não havia sido.

Já passava da 1h da manhã e todos já tinham ido para suas camas, exceto nós. Tonga já havia deixado o quarto. Depois de alguns instantes, era chegada a hora.

– Mas onde a gente vai colocar isso?

– Sei lá, no meio do pátio?

– Não, lá não vai fazer muito barulho. Banheiro?

Qualquer criança com mais de 5 anos de idade saberia que isto não seria uma boa ideia. Mas nós? Não. Claro, não dá pra esperar muito de quem já acordou um gago com dois baldes de água gelada, mas a possibilidade de deixar alguém surdo era muito mais grave.

– Demorou. Cadê o cigarro?

No par ou ímpar decidimos quem iria colocar o objeto no local, debaixo da pia à esquerda do banheiro. Léo e Carioca ganharam – ou perderam, não me lembro. Pensamos num lugar onde não machucaria ninguém, mas também que não quebrasse nada para não dar muito prejuízo, caso fôssemos pegos. Fiquei de fora, à porta do quarto, vendo se alguém apareceria. Alguns minutos depois, bomba no seu devido lugar, e estávamos todos no quarto.

– Agora é só esperar.

Apagamos a gambiarra (luz que era ligada direto na tomada) e deitamos, já tapando os ouvidos. Passaram-se alguns minutos.

– Ué!? – estranhei.

Carioca, que sabia mais do assunto, respondeu:

– Calma, demora um pouco mesmo.

Continuamos com os ouvidos tapados, esperando o que prevíamos ser um pequeno estouro. Passaram-se mais alguns instantes.

– Acho que não deu.

– Que merda de bomba, hein, Carioca?

– Calma, pô. Deve ser o cigarro.

– Isso se ele não se molhou, né?

– Acho que a gente poderia ter escolhi…

KABUM

 

 

 

 

 

 

 

 

 

– Fudeu!

– Caraca, mané!

– Meu Jesus!

A bomba que cogitávamos ser incapaz de acordar mesmo os quartos mais próximos do banheiro – por pura inocência, já que ela era do tamanho de um mamão papaia – era muito mais forte. Foi um estouro capaz de acordar as meninas que ficavam do outro lado da praça, seguido de um tremor nas paredes do prédio masculino.

Sabiamente esperamos que outra porta se abrisse primeiro, para sairmos do quarto, não sem antes caprichar na feição “o que foi isso?”. Todos saíram dos seus quartos e todas as luzes do prédio se acenderam. Obviamente, o monitor que estava de plantão acordou e vendo a seriedade do assunto, logo chamou o preceptor Ary, que chegaria 10 minutos depois. Achamos mais apropriado acompanhar de longe. Ainda sentados na mureta que ficava à frente do nosso quarto, vimos monitor e preceptor analisarem o banheiro. Sem muito o que fazer, trancaram o banheiro e colocaram todos os alunos para dentro de seus quartos. Depois de algumas risadas guardadas (e muitas escapulidas), fomos dormir.

Às 9h30 da manhã, Carioca e eu estávamos à porta do banheiro, onde outro preceptor juntamente com Ary conjecturavam sobre o que poderia ter acontecido. A bomba derrubou uma pia de aproximadamente 2 metros, inteira. Espalhando pedaços de mármore pelo banheiro, pelo teto, quebrando, inclusive, janelas. A porta de um dos chuveiros, que ficava do lado oposto à pia, estava toda amassada por conta dos estilhaços. Um antigo colega de quarto (o banheiro era ao lado do 14) nos confessou, sem saber que éramos nós os culpados, que caiu pó do teto e das camas, que eram de cimento.

Sentamos na mureta ao lado do Pr. Ary. Desiludido dizia:

– Isso passou dos limites! Como alguém tem a capacidade de fazer isso? Como uma coisa dessas chega aqui dentro?

– Não faço ideia, pastor. – era o máximo que conseguia responder.

– Se a gente souber de algo, avisaremos. Alguém poderia ter se machucado muito nessa brincadeira. – completou meu amigo, o mais cínico que já conheci.