Arquivo mensal: agosto 2012

Ela é demais

Não poderia ser coisa só da minha cabeça. Apesar de muito coruja, algumas coisas na Sofia não pareciam ser normais nem muito comuns às outras pessoas. E neste último domingo, na programação do dia dos pais na sua Escolinha, eu tive mais uma das muitas provas de que ela é, sim, um absurdo.

Voltando um pouco a fita… A ida para a escola antes dos sete anos de idade nunca me pareceu uma boa ideia. Não sei se estou exagerando, mas é um dos momentos-chave da vida do ser humano, pois dali só se sairá depois de, no mínimo, 15 anos. É ali onde vai aprender a se relacionar com o mundo, com professores, com o outro, com a adversidade, na prática – e nada de fazer piadinhas sobre outras coisas que ela vai aprender, ok? Mas tão, ou mais relevante que estas coisas, é o fato de que uma parte da educação agora se encontra em outras mãos. Nas mãos da professora, da instituição e (por que não?) dos pais das outras crianças. Sem falar naquele nó na garganta (ou “naganta”, como Sofia prefere falar) em forma de frase: minha filha está crescendo.

Porém, com a chegada de Artur, que divide o posto de criatura mais linda do mundo com sua irmã, foi inevitável matricular a pequena na Escola Modelo do UNASP, campus I. Então, o motivo de chorar ao vê-la entrando na escolinha no dia 31 de julho, era justamente por causa deste emaranhado de sentimentos e pensamentos que me passavam pela cabeça naquele instante. Mas, como racionalmente já sabia, mesmo neste pouco tempo, aquele novo mundo já fez bem à minha princesa que, mais do que antes, está se desenvolvendo a olho nu. Sem perder, no entanto, sua essência.

Na sexta-feira antes do dia dos pais, a escola já começou jogando baixo, fazendo a Sofia me entregar um coraçãozinho com gravata e uma arte by Sofia na parte de dentro. Já tive falência múltipla dos órgãos. Descobri, logo depois, que a programação seria no domingo seguinte ao dia dos pais. E já comecei um tratamento para não passar mal e estragar a festa, afinal, até um total desconhecido poderia olhar para mim e dizer “esse aí é chorão, hein?”. Sem fugir do assunto, mas para mostrar o quanto isto é possível, já chorei de soluçar num ônibus, depois de ler um trecho de “Um Dia”, no ano passado.

Sofia, inclusive, enquanto o dia não chegava, deixava escapulir uma ou outra parte da música que iria cantar. Isso já me fazia brilhar os olhos. Eu mesmo pedia para parar, porque era surpresa.

Até que chegou o dia.

Como é comum na família Aleluia, chegamos um pouco atrasados e os pais já estavam no meio da quadra do ginásio, sentados, enquanto alguém falava alguma coisa que jamais seria compreendida naquela acústica típica de ginásio. Sentamos e, depois de pouco tempo, chegou a hora da música de homenagem aos pais, “O Meu Pai é Meu Herói”. Mais um jogo baixo.

As crianças, em fila indiana, foram para frente fazendo um grande coral. Sofia ficou na frente, à esquerda, ao lado da fofíssima Maria Lara, sua amiga desde que nasceu. A Mamãe Tati logo se prontificou a registrar o momento e foi ficar mais perto do coral. De longe, vi Sofia falar alguma coisa para Mamãe, parecia procurar alguma coisa. Olhei para Tati, que mexeu os lábios, “Sofia te quer aqui mais perto”.

Aí comecei a parar de enxergar, as lágrimas doidinhas para cair embaçaram meus olhos, mas fui forte, “não seja tão previsível, Fagner”, dizia para mim mesmo. Não caíram. Não ainda. Fui mais para frente, onde ela conseguisse me enxergar, perto da Mamãe que, esperta, já me avisou “não chora, ela pode pensar que não está gostando”. “Vou tentar”.

Mal sabia eu que o motivo da Sofia me querer por perto era para justamente me olhar. Não em alguns momentos específicos, mas durante a música inteira. Um olhar diferente. Conversamos, sem dizer uma só palavra, até a canção acabar. Posso estar enganado em achar que ela foi a única a olhar para o pai o tempo inteiro. Com 3 segundos de música, eu já não via mais ninguém, só ela – e ela, somente a mim.

– Ei, pai, eu estou bem.

– Certeza, mocinha? Mas e essa professora, ela te trata bem? Você tem comido bem, quando está na escolinha? Alguém te tratou mal longe de casa? E essas amiguinhas, Gabi, Ana Júlia, são legais? Quem é este tal de Victor, de quem você fala de vez em quando?

– Pai, eu estou bem.

– Tenho sido presente o suficiente? Desculpa ser bravo de vez em quando? Desculpa não saber o que fazer, às vezes. Desculpa se fui impaciente.

– Pai, eu te amo.

– Também te amo, pentelha. Muito.

Não dissemos. Sentimos.

No fim da música e com as crianças saindo, Sofia deixou a fila e correu para me abraçar. E dessa vez, falando.

– Te amo, papai!

– Te amo também, guria!

E inspirada pelo filme “Enrolados”, ela respondeu:

– Te amo muito mais!

Duvido, mocinha.

Anúncios