Arquivo mensal: fevereiro 2013

Ouve essa: Amok – Atoms for peace

Novamente, mostrando não ver nenhum problema em ver suas músicas baixadas ou ouvidas de graça por aí, Thom Yorke e sua superbanda paralela Atoms for Peace divulgaram ontem o álbum de estreia, Amok, completo na Internet, para ouvir. Detalhe é que o disco só será lançado dia 25 próximo. E não é só isso: na página do CD, fica disponível a opção de “embedar” todas as canções em seu site, como eu mesmo fiz.

Além de Yorke, o grupo é composto também pelo baixista do Red Hot Chilli Peppers Flea e o produtor Nigel Godrich, parceiro do Radiohead desde os tempos de The Bends.

Gostei bastante dessa primeira ouvida. Ouça, logo abaixo.

http://widgets.xlrecordings.com/amok/widget.php

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Hereditariedade zero, amém!

– Papai, deixa eu falar?

O pneu do carro havia furado na Av. 9 de julho, perto do Itaim, logo depois de eu ter deixado a esposa no trabalho. Isso não seria complicado, não estivessem meus dois filhos no banco de trás; Sofia com 4 anos comemorados há duas semanas, e Artur, prestes a completar seu primeiro aniversário.

Para piorar, Sofia queria ir ao banheiro (“número 1, sem picles”) e Artur, também (“número 2, capricha no molho”). Mas como ele usa fraldas, o seu tempo entre querer e fazer gira em torno de 2 a 3 segundos, logo ali mesmo o fez. A sorte voltou, depois de me abandonar às traças, e o objeto não identificado no pneu tinha um tipo de “cabeça” que não deixava o ar escapulir tão rapidamente. Percebi que poderia ir para casa, onde seria mais fácil colocar o estepe.

É a quarta vez que eu tenho problema com carro. A primeira com Artur e a segunda com a Sofia – a primeira foi em plena Cidade Jardim, com a bateria morta sem chances de ressurreição, num dia em que choviam oceanos em São Paulo. Não sei quem já passou por isso, mas é terrível. É uma situação comum, claro, nada demais, mas que causa um desconforto incomum quando se está sozinho com os filhos. Você se sente culpado por ter deixado aquilo acontecer, fica pensando onde errou, como irá fazer, quem irá chamar, se há alguém para ajudar, se as crianças estarão com fome, sede. No fim, bem verdade, quando tudo se resolve, nota que nem sequer perceberam o que aconteceu, mas até lá…

Cheguei em casa apartamento, fiz o que tinha que fazer com as crianças, peguei alguns brinquedos de morder, uns papéis e lápis de cor para a Sofia colorir nas escadas perto do carro, desci com eles e coloquei o Artur no bebê-conforto num lugar onde pudesse me ver (deixá-lo engatinhando na garagem do condomínio não me parecia a melhor das ideias).

Era 1h da tarde, sol bombando, cabeça quente e doendo (dói todo fim de semana, quando não tomo café) e com o aniversário do Guga (meu sobrinho) começando às 14h. Sem falar que, antes de ir para a festa, eu precisaria ainda dar um banho no Artur e alimentá-lo. Por estar trocando pneu, eu também teria que tomar banho.

Bom, depois de bagunçar tudo o que estava no porta-malas, buscando o estepe, vi que este fica embaixo do porta-malas, do lado de fora. Ainda assim, anos se passaram até eu conseguir tirar a roda dali. Sou um asno neste assunto, já devem ter notado, mas eu teria cerca de 50 ideias de lugares e formas mais simples para prender a roda reserva sem ter que sujar até o sovaco. Tinha jogado duas horas de futebol pela manhã, suficientes para deixar qualquer sedentário nato como eu com coordenação motora e força muscular debilitadas. E assim, desprovido de qualquer energia, fui tentar desparafusar a roda.

Acredito que em partos normais de crianças acima de 5 kg, a mulher faça força similar a que eu fazia – ou imaginava estar fazendo. Tive a impressão de que se fizesse um pouco mais de força, eu teria mais um filho ali mesmo. Cansei e me sentei no chão, com os braços sobre as pernas, suando sangue. Sofia, que estava perto, pedindo para me ajudar o tempo inteiro, e eu negando (preocupado em mantê-la numa distância segura do carro), chegou mais perto, olhou para mim e disse:

– Papai, deixa eu falar?

– Fala, Sofia.

– Tenta com o pé.

Olhei para ela, sorrindo e com os olhos brilhando (um pouco por querer chorar, um pouco pela força que estava fazendo, um pouco de felicidade por ela ser muito mais inteligente que eu), e só consegui responder.

– Obrigado, linda. Seu pai é muito lento e você é uma linda.

Foi único eufemismo leve para o mais correto “seu pai é uma anta!”. Consegui desparafusar a roda, é claro.

Menina esperta.