Diversos, Opinião

Sobrepesos e Medidas

[Texto originalmente escrito em agosto de 2014. Perdi boa parte dos textos do blog – este é um dos recuperados]

Quase toda criança tem uma característica física marcante, daquelas pelas quais serão eternamente lembradas. Algumas destas, inclusive, responsáveis por pequenos traumas. Comigo não foi diferente.

Quando pequeno, e até chegar aos vinte e poucos anos, eu era conhecido nos lugares onde morava por ter total ausência de gordura e músculo no corpo. Basicamente, eu tinha pele, ossos e, a julgar pelo peso e aparência, meia dúzia de órgãos que me mantinham razoavelmente vivo. Eu era assustadoramente magro. Era difícil até me enxergar (sabe quando você cerra os olhos pra ver uma linha que não está vendo direito?).

Pra piorar, havia um pequeno detalhe: as orelhas. Eu nasci com as orelhas de um senhor de 160 anos. Sim, isso me dava uma aerodinâmica meio ruim e esteticamente lamentável.

A única coisa que tornava minha infância menos dolorosa é que todos em casa me aceitavam do jeito que eu era. Meu irmão, carinhosamente, me chamava de Topo Gigio. Meus pais sempre o repreendiam – preferiam Dumbo (não por causa do peso, claro).

Minha avó era uma das que mais reclamava de minha magreza. Vivia cochichando pra minha mãe, lavando roupa, enquanto eu brincava de bola na rua, lá em Anápolis: “fique mais atenta, querida, pois seu filho mais velho está roubando comida do Dumbinho”. Da rua eu escutava.

A parte curiosa é que sempre comi muito. Meu metabolismo, ainda hoje, é do tipo que se eu ficar mais meia hora sentado à mesa após o almoço, a fome volta e começo a comer de novo. No entanto, antes, esse apetite todo não resultava em aumento de peso.

Eu disse antes. Precisamente antes de 2008.

No dia 14 de agosto daquele ano, estava me casando e, comprovando a máxima de que quem casa, engorda, aos poucos vi a balança se manifestando positivamente. A barriga que era negativa criava um pequeno volume, como se órgãos novos estivessem surgindo. Meu pâncreas deve ter só uns 5, 6 anos de idade.

Esses gramas a mais me alegraram bastante. E com o tempo, passou a ser perceptível aos olhos alheios, pois logo surgiram os primeiros elogios“ah, agora consigo te ver melhor”“nossa, a AIDS tem cura”“cadê o Fagner?”“caramba, tá dando pra te ver de lado”.

Até o relacionamento melhorou, já era possível abraçar a esposa sem machucá-la. Sofia não chorava quando a pegava no colo (Artur ainda não tinha chegado). Comecei a vestir 36. Parei de ter medo de varandas mais altas. Arriscava até um passeio na praia sozinho.

Passaram-se mais alguns meses e a balança danadinha, que aumentava grama por grama, percebeu que poderia arriscar mais, pulando de quilo em quilo. A calça 36 virou 38. A camiseta PP virou P. Claro, nunca fui sinônimo de masculinidade, então, minhas roupas são um pouco mais justas do que um homem normal usaria.

Bom, a verdade é que as coisas fugiram um pouco do controle.

Reparei, por exemplo, que sempre que usava uma determinada calça, que antes usava sem dificuldades, meu dia era terrível. Qualquer coisa que acontecia no trabalho, eu ficava vermelho de raiva. Ou roxo, se fosse mais ao fim do dia. Só quando chegava em casa que as coisas melhoravam. Até pensei que era a presença dos filhos, o abraço da esposa. Mas não era isso. Eu respirava(!) melhor à noite. A calça, percebi, dificultava a circulação nas pernas e ao usá-la, parecia que tudo ia explodir. A calça e eu.

Muitos amigos tentaram me avisar, dizendo que eu havia engordado, que não era mais o magrelo de antes, que nem Deus era mais justo que as calças que eu usava, que eu poderia ficar infértil, mas eu não acreditava.

Finalmente, parei de mentir pra mim mesmo.

Agora, vejo que as roupas, cada dia mais, estão diminuindo. Quando estou em pé, só vejo a ponta do tênis. O cós da calça vive dobrado, mostrando a etiqueta. Meu cofrinho, que agora tem nome, Clayton, todos já viram. Quando estou de camiseta, dá pra ver um tufinho de cabelo cobrindo uma pança esbranquiçada. E se tento sentar de camisa social, consigo ouvir o gemido dos botões.

Hoje mesmo, pra colocar uma calça que antigamente sambava na minha cintura, precisei ficar na ponta dos pés, fazer peito de pombo e uma oração bem fervorosa pra conseguir fechar o zíper. Ainda estou respirando com certa dificuldade.

Alguns que me conhecem de uns anos pra cá, com certeza, podem estar pensando que sou exagerado. Mas quem me viu antes de 2008, sabe que estou falando é de um milagre, de alguém que era “couro e osso”, e que, Aleluia!, agora vive em pleno vigor físico.

Com um pequeno toque de obesidade, mas em pleno vigor físico.

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Conversa de pai, Opinião

Uma babá quase perfeita

[Texto originalmente escrito em junho de 2014 – Perdi boa parte dos meus textos. Este é um dos recuperados]

– Tia, pode vir aqui, por favor?
– Sim, claro.

São 6h da manhã e está um baita frio. As janelas de casa são grandes e, mesmo fechadas, não seguram muito bem a temperatura de fora. Tia Abigail termina de lavar o copo, seca as mãos e me acompanha até a sala.

– Aqui… Olha esse sofá.
– Quê que tem?
– Senta nele pra senhora ver. É impressão minha ou tem alguma coisa errada com ele?

A babá que cuida dos nossos filhos, desde que a Sofia tinha 2 anos de idade, ainda não conhece o pai maduro que as crianças têm e senta calmamente, desconfiada. “Droga, sabia que esse moço era psicopata!”, deve ter pensado.

– Se encoste! Se encoste mesmo, se aconchegue… Percebeu?

Ela se encosta e percebe um cobertor dobrado do seu lado. Abre um sorriso, afofa o sofá e diz:

– Macio, né? – responde com uma gargalhada maravilhosa.
– Exatamente. Descansa um pouco hoje, vai.
– Engraçadinho.

Saio, ainda escutando a risada dela. Como sempre, ela se levanta e volta para cozinha.

Minha esposa e eu temos o costume de deixar a casa um pouco arrumada na noite anterior. E meus filhos acordam sempre entre 9h e 10h. Ainda assim, a sra. Abigail chega e põe a mão na massa, mesmo tendo a oportunidade de deitar uma horinha e descansar.

São mais de três anos. Sempre assim.

Depois de algumas desventuras procurando a pessoa ideal para cuidar da então filha única Sofia, passando por uma babá que dormia o dia inteiro (estava sempre com cara de sono e com cabelo tão bagunçado que parecia ter saído de um furação), que deixava a menina vendo TV o dia inteiro, e também por uma amiga que nos ajudava com a filhota (com muito carinho), quando minha esposa ainda estudava… encontramos a tia Abigail. Minha sogra, sabendo do nosso desespero, se lembrou de sua tia, que podia encarar a tarefa.

Encontrar alguém para cuidar dos filhos é seguramente uma das maiores preocupações dos pais. Principalmente se for aqui em São Paulo, onde há uma chance razoável da criança conviver mais com esta pessoa do que com você, pai ou mãe. (Faça as contas, subtraindo o tempo que você passa dormindo. Entendeu?).

Um erro nessa escolha e seu filho pode ter em casa um péssimo exemplo, alguém preguiçoso, uma pessoa que não cozinha bem, que deixa a educação com a TV, que não dá atenção, impaciente etc. Sem falar nos outros absurdos, de maltratar, xingar, deseducar, espancar sem deixar marcas, jogar pela janela e tal. Bom, tem muito onde errar.

Essa segunda mãe de nossos filhos, ainda bem, está longe de qualquer dessas características acima. Transmite amor e carinho só no jeito de falar, de carregá-los no colo, conversar com eles. Curiosamente, sobra até pra nós, tratando muitas vezes como se fôssemos seus filhos.

O reflexo disso é facilmente percebido em muitas atitudes do Tutu e da Sofia. Não à toa, o menino (de 2 anos) corre pra cumprimentar senhores e, principalmente, senhoras, mesmo que sejam totalmente desconhecidos, só pela associação que faz com a tia – a quem chama de “vovó”. Por ser pentelho, o guri pode até enganar os mais distraídos, mas mesmo com essa infindável vontade de destruir nossa casa (ou qualquer lugar por onde passa), ele esbanja carinho. Se pegar ele no colo, não se assuste se, do nada, ele te apertar as bochechas e te beijar, seguido de um abraço bem apertado. Sofia, a mesma coisa, só tem uma doçura mais perceptível, porque é mais delicada.

Não seria exagero afirmar que isso tem uma influência, no mínimo, indireta da serenidade da tia Abigail, que parece estar sempre de bem com a vida, com sua voz baixinha, mansa.

Por ser parente da Tati, vira e mexe coincide de a encontrarmos em alguns eventos familiares. O Artur pode estar brincando, comendo, no colo de alguém ou fazendo qualquer outra coisa, mas se percebe que a “vovó” chegou, para tudo e vai para o colo dela.

Consegue perceber o quanto ela é importante pra nós?

Invariavelmente, quando estou saindo, encontro ela na cozinha já trabalhando. Chego do seu lado, esfrego minhas mãos em seus ombros umas seis, sete vezes (tenho essa mania com pessoas que significam muito pra mim, mas que não sei se tenho intimidade para abraçar, que é o que eu realmente gostaria de fazer), e faço as mesmas perguntas. Ouço as mesmas respostas.

– Bom dia, tia. Tudo bem?
– Bom dia. Bem e você?
– Bem. Que tal deitar um pouco?
– Nada, vou aproveitar que cheguei cedo e adiantar as coisas aqui. Assim, depois, dou mais atenção pra eles.

Difícil é ver isso todo dia e não poder apertá-la até ficar roxinha.

Se um dia encontrar por aí uma senhora que te dá uma paz instantaneamente, só de olhar, pode chamar, ela atende por Abigail.

Conversa de pai

MeninaMá.com (diabo no corpo)

[Texto originalmente escrito em outubro de 2013. Perdi boa parte dos meus textos. Este é um dos recuperados]

– Oi, Fagner!

– Olá, tia! É o Fagner, tudo bem?

– Agora, está tudo bem.

Respondeu ofegante, a tia fofa que cuida dos meus filhos. De tão educada e maravilhosa, ela releva a minha burrice de me apresentar ao telefone – várias vezes ao dia – mesmo depois dela ter atendido a ligação me chamando pelo nome. Isso foi na semana passada.

– Por que “agora”?

– A Sofia. Ela deu muito trabalho pra se arrumar e ir pra escola.

– Tipo…?

– A amiguinha dela, uma vizinha, veio aqui em casa…

– Maria Eduarda?

– Não, não. A outra, do lado.

– Uma insuportável?

– É… Ela não é muito legal…

– Eu sei.

– Ela veio aqui, brincou com a Sofia, depois não quis ir embora de casa. Tive que insistir muito, porque era hora da Sofia almoçar e ir pra escola. Quando a menina saiu, Sofia ficou inquieta, demorou pra comer, pra se arrumar e tal. Mas depois de muito trabalho, ela se arrumou e foi estudar. Ficou chorando até entrar na perua.

Vamos lá…

A culpa de ter acontecido isso é primeiramente nossa (pais, educadores) e da Sofia, claro. Ah, é também da idade, 4 anos, quando o filho começa a enfrentar os pais, testá-los etc. Inclusive, vejo que a Sofia já melhorou – e muito – neste aspecto nos últimos dias. Os pequenos aprendem rápido, quando conversamos sobre essas possíveis falhas desde cedinho.

Mas hoje, eu preciso falar dessa “amiga” da Sofia, preciso colocar em seus ombros uma parte dessa culpa.

Antes, porém, vou falar da outra, a que não é insuportável. Mais do que isso, é divinamente educada, a Maria Eduarda (rimou). Só pra servir de comparação – muito injusta.

A Madú (nem sabia que este apelido existia) é do tipo de criança que você faz questão que o seu filho tenha amizade com ela. Aliás, se fosse possível comprar crianças hoje em dia, sem render uma prisão ou matéria de “A Liga”, eu compraria algumas: 3/5 como os meus sobrinhos e 2/5 iguais esta menina. Até deixaria cada “produto” em sua respectiva casa. Ok, o termo correto seria aluguel de amizade. “Quanto custa 8 horas/mês da amizade de sua filha? Tem desconto se for vizinho ou parente? E se fecharmos um contrato de um ano, tem suporte gratuito? Garantia estendida”. Baita negócio, hein?! Alugar amizade de crianças educadas… Enfim, foco, voltando…

A guria, a que é sensacional, tem uns 8 anos, pede licença para entrar e sair, diz obrigado, boa noite, conversa com a gente, divide todos os brinquedos, fala baixo, sempre está sorrindo. É ótima. Eu sei que muitas crianças fazem isso, mas ela faz tão naturalmente, que dá gosto. Dia desses, vi a Madú falando pra Sofia: “Seus pais chegaram agora do trabalho, estão querendo ficar um pouco com você, por isso eu vou pra casa, tudo bem?”. Caramba, 8 ANOS!

Quando ela entra em casa, eu fico feliz como se fosse um grande amigo meu. Só pelo bem que faz à Sofia. Posso exagerar? Creditaria uma pequena parcela da educação da Sofia a ela. Nós educamos, é óbvio, o que é mais importante, mas Sofia ver isto em uma amiga é muito significativo.

Agora, a outra criança, a do Mefisto. Neste momento, me bateu uma dúvida se pega bem falar de uma criança, ainda mais nesse tom e com tanto ódio no coração… mesmo assim vou prosseguir, porque a minha consciência até se manifestou, mas de maneira positiva, me incentivando, contente com o desabafo. Vou ser bem claro: eu odeio essa criança.

Samara (vou dar este nome, vai que a vizinha me encontre na Internet) também está perto dos 8 anos. É aquela pequena criatura que entra em casa sem ser chamada. Quando você pisca, ela já atravessou a sala, está procurando as bonecas da sua filha, carregando seu filho de 1 ano com suas mãos cheias de pecado, abrindo a geladeira, enfim, já faz parte da sua vida, sem você pedir. Brinca de forma ofensiva com seu filho, bagunça o mundo, pinta parede, pinta o seu filho, não divide os brinquedos que não são seus (“não vou te emprestar a sua boneca, Sofia!”), dá piti, não cumprimenta, fala como se estivesse com fones de ouvido. E até quando a dona da casa solicita educadamente sua licença, não gosta da ideia, sai, e volta depois de 3 minutos, “Sofia taí?”.

Dá pra perceber o ambiente escurecendo quando ela chega. Não duvidaria se um dia ela entrasse em casa, e o som tocasse automaticamente alguma trilha sonora dos filmes de Hitchcock ou a TV ligasse fora de sintonia. E isso influencia absurdamente a todos. Até eu tenho vontade de destruir o planeta, quando ela entra em nosso lar.

Recentemente, googuei “onde encontrar ricina”, “ricina pode ser detectada em autópsias?”, “receita de bolo caseiro com ricina e brigadeiro para criança possuída”, buscando uma maneira de me livrar dela. Já me imaginei segurando esta menina pela janela do nono andar, onde moro, falando baixo em seu ouvido “seja menos insuportável, por favor, ou te jogo daqui e depois mato toda a sua família!”. (Engraçado, consciência continua tranquila).

É impossível não pensar na minha mãe dizendo cuidado com as amizades. Acho que é padrão em todos os pais esta preocupação. Não me recordo de todos os amigos que eu tinha na idade da Sofia, e acho que as asneiras que fiz foram em grande parte por eu ser a ovelha negra, não eles. Mas arrisco a dizer que muito dificilmente, nem no meu mais inspirado momento, eu chegaria aos pés desta vil criatura.

Tenho até um plano de abrir a porta, quando ela bater, todo pintado de vermelho sangue e, com uma faca na mão, dizer “Sofia e eu estamos terminando de brincar com outra amiguinha nossa. Espere um pouco, já já é a sua vez, tudo bem?”.

Ainda não pude transformar este plano em realidade, porque Samara não aparece mais em casa. Faz alguns dias. A paz voltou a reinar e nossa família está mais feliz…

…o bolinho caseiro deve ter funcionado.