Nada de Cinema

O que aconteceu com o Cinema Franco

É, de 2012 pra cá, atualizar isso aqui ficou cada vez mais difícil (perdi meus últimos textos escritos de 2013 pra cá – mas não eram muitos). Poderia culpar o nascimento do segundo filho, nascido em março cinco anos atrás. Poderia culpar a faculdade que terminei no ano passado (comecei em 2011, depois de uma pausa, retomei em 2016), os roteiros que venho escrevendo, a família, os amigos, putz!, tem muita coisa pra culpar. Mas seria ligeiramente injusto, pois não é raro eu ficar assistindo filmes e/ou séries até depois da meia-noite, tempo que poderia ser facilmente convertido em textos. Mas sabe a real? Ando meio desanimado com isso aqui, duvidando, inclusive, de haver razão alguma pra mantê-lo, mas continuo esperançoso – tanto que continuo pagando o domínio “.com.br”, pra algum momento ressuscitá-lo.  Um dia quem sabe, volto, com novo visual, talvez no domínio antigo (.com.br), talvez escrevendo algo relevante (brincadeira, jamais faria isso). Bom é isso. Meio rapidinho, sem capricho, sem parágrafo, sem tempo, mas é isso.

Abraço. Volto qualquer dia.

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Conversa de pai, Nada de Cinema

7 anos

[Texto originalmente escrito dia 14 agosto de 2014. Perdi boa parte dos textos do blog e todos os comentários – este é um dos posts recuperados]

Em meados de 2008, em algum lugar lá em cima, um anjo bate à porta.

TOC TOC!

– Pode entrar!

– Com licença. Tem um minuto?

– Fala, rapaz! Tranquilo?

– Ah, quase tudo bem. Como o Senhor está?

– Estou bem, na medida do possível. Você sabe… Essa bagunça lá embaixo, entre os humanos, nós sabemos desde o princípio, mas ficamos meio triste às vezes, sabe?

– Eu sei.

– De resto, tudo tranquilo. Mas me diga o que te aflige?

– É sobre a Tatiane.

– Ah, a tua menina?

– Isso.

– Rapaz, está cada dia mais bonita, né?

– Sim, demais.

– Nossa, como ela é linda.

– É.

– Inteligente, esperta, responsável, atenciosa…

– Sim. Com todo o respeito, parece que o Senhor está se exibindo.

– Calma, é só uma brincadeira. O que há de errado com ela?

– Nada, com ela nada.

– Então…?

– Tenho medo de algumas coisas que andam acontecendo.

– Tipo?

– Ela está conversando muito com um rapaz, o Fagner.

– Nem sabia que se conheciam. Mas ele não mora em São Paulo, mora?

– Mora, faz tempo.

– Pensei que era do Nordeste.

– Acho que ela está gostando dele.

– Nossa, isso é terrível! Ele tem idade pra ser bisavô dela.

– Como assim? Não. Espera! Em quem o Senhor está pensando?

– “Quem dera ser um peixe, para em teu límp…”

– Não, não, não. É o outro.

– Ah, é verdade, tem mais de um.

– São cinco no total.

– Vish!

– Então, é o Fagner Franco, irmão do Franco Fagn…

– HAHAHAHAHA. Pais criativos.

– Há controvérsias.

– Aquele menino é meio perturbado.

– Exato. Por isso estou preocupado.

– Bom, faz alguns milhares de anos que as coisas funcionam dessa maneira. Sempre há riscos, a partir do momento em que não escolhemos nada por eles. As coisas não dependem apenas de nós.

– Eu sei. O livre-arbítrio.

– Isso. Continue…

– Preocupado com ela, eu tomei a iniciativa de enviar alguns sinais.

– Não ultrapassando o limite, tá tranquilo.

– Esse é o problema. Agora cheguei no limite. Não posso usar nenhum sinalzinho até o final do mês.

– “Sempre sobra mês no final dos seus sinais”, diriam os humanos.

– Ela viajou para casa de alguns parentes no feriado do mês passado. De uns meses pra cá, conheceu novos amigos – reviu alguns antigos. A faculdade está bem difícil, os estágios desgastantes. Resumindo, a cabeça dela anda bastante ocupada com outras coisas, pra ela pensar que talvez não seja o momento ideal para um relacionamento.

– Deu algum resultado?

– Engraçado você fazer perguntas que já sabe a resposta.

– É costume. O diálogo flui melhor.

– Ok, não deu resultado.

– Já te expliquei, mas vou tentar de novo: os sinais foram um tipo de bônus nestes últimos tempos, porque a coisa está feia lá embaixo. Mas tem outra pessoa responsável, que está bem alinhada com a maneira minha de pensar. Sua tarefa, como a dos demais anjos, é mais guardar que, de fato, fazer alguma coisa. Seria interessante poupar os sinais para as emergências.

– Vou prestar mais atenção. Fato é que, não importa o sinal, não importa as atividades, minha menina continua pensando no rapaz. Como isso é possível?

– Acho curioso esse lance de vocês procurarem sentido neste tipo de coisa.

– E sabe o que me deixou mais desesperado? O doidinho também está gostando dela.

– Que bonito. Perturbado, mas tem coração.

– Ele está apaixonado. O anjo que cuida dele… sabe aquele que só pega os casos mais complicados, que mora lá perto do laguinho?

– Sim, sim. Tá aqui direto. Gente boa demais. Vê coisa boa em todo mundo. Parece meu Filho.

– Esse. Corajoso que só. Bom, ele me disse que o menino anda falando dela pra alguns amigos, pais, irmão. Eles já se falam o tempo inteiro. Acabam de falar pelo telefone e já estão conversando pelo MSN de novo. Nunca vi.

– Owwwnn!

– A sorte é que ele é meio lento. Se dependesse da vontade dele, já estariam juntos há mais tempo. Mas praquele ali tomar atitude…

– Esses moleques são sempre assim. Falam, falam, falam, mas quando gostam de verdade, perdem o rumo, não sabem o que dizer, nem como vai dizer… Acho bem divertido.

– Eu só queria saber como lidar com isso tudo. Acompanho a menina desde o nascimento e quero que dê tudo certo.

– “Tudo certo”? Fale mais sobre isso.

– A vida da Tati está ótima, dentro do programado. Tem 21 anos, perto de se formar, vida financeira controlada, com pais dando o suporte necessário, é uma menina correta, meio teimosa, às vezes, nada demais. É uma baita menina muito especial, mas…

– Mas…?

– Mas é o Fagner, né? O rapaz está desistindo da segunda faculdade. O responsável por ele fica alegando que tem um ou outro motivo, mas na prática, nós sabemos que o menino recebeu muitas oportunidades diretas do Senhor e jogou tudo fora. É meio irresponsável, inconsequente, impulsivo, paga de revoltadinho… Eita, acho que estou ficando um pouco agressivo. Desculpa.

– Está desculpado. Interessante essa sua preocupação excessiva.

– É que eu acho que ele não merece, sinceramente. Com todo o respeito, não vejo nem futuro entre os dois.

– Engraçado, podia jurar que era Eu quem tinha esse poder de ver o futuro.

– Desculpa, é que esses milhares de anos cuidando deles… Sabe como é, a gente vai aprendendo algumas coisas.

– Mas outras vocês nunca vão entender. Você precisa confiar mais na sua menina, não acha? Se ela é tão boa como você diz – e eu sei que ela é – acho que pode confiar.

– Mas como será a vida dela com ele?

– Errou.

– Como assim?

– Não é essa a pergunta.

– Não entendi.

– Pense.

Neste momento, ficaram em silêncio.

Depois de alguns minutos, o anjo pediu licença, agradeceu e deixou a sala.

A preocupação havia dado lugar a um sentimento de orgulho. Havia entendido que mais importante que a sua preocupação de como seria a vida dela com ele, era imaginar como seria a vida dele sem ela. Aquela menina que acompanhou 24 horas por dia desde o nascimento era a única que podia cuidar daquele menino estranho, cheio de dúvidas e sensível até demais.

Na manhã do dia 14 de agosto de 2015, o anjo se lembrou daquela conversa, quando Tatiane e Fagner estavam completando 7 anos de casados. A menina havia se tornado, como ele imaginava, uma mãe absurdamente completa e dedicada, de duas crianças igualmente incríveis, uma esposa paciente, altruísta, companheira, engraçada e que ainda arranjava tempo pra continuar linda.

O menino? Bom, o menino virou um pai de família, esforçado e… só. Continuava estranho, é verdade, mas certamente muito, muito mais feliz.

Diversos, Opinião

Sobrepesos e Medidas

[Texto originalmente escrito em agosto de 2014. Perdi boa parte dos textos do blog – este é um dos recuperados]

Quase toda criança tem uma característica física marcante, daquelas pelas quais serão eternamente lembradas. Algumas destas, inclusive, responsáveis por pequenos traumas. Comigo não foi diferente.

Quando pequeno, e até chegar aos vinte e poucos anos, eu era conhecido nos lugares onde morava por ter total ausência de gordura e músculo no corpo. Basicamente, eu tinha pele, ossos e, a julgar pelo peso e aparência, meia dúzia de órgãos que me mantinham razoavelmente vivo. Eu era assustadoramente magro. Era difícil até me enxergar (sabe quando você cerra os olhos pra ver uma linha que não está vendo direito?).

Pra piorar, havia um pequeno detalhe: as orelhas. Eu nasci com as orelhas de um senhor de 160 anos. Sim, isso me dava uma aerodinâmica meio ruim e esteticamente lamentável.

A única coisa que tornava minha infância menos dolorosa é que todos em casa me aceitavam do jeito que eu era. Meu irmão, carinhosamente, me chamava de Topo Gigio. Meus pais sempre o repreendiam – preferiam Dumbo (não por causa do peso, claro).

Minha avó era uma das que mais reclamava de minha magreza. Vivia cochichando pra minha mãe, lavando roupa, enquanto eu brincava de bola na rua, lá em Anápolis: “fique mais atenta, querida, pois seu filho mais velho está roubando comida do Dumbinho”. Da rua eu escutava.

A parte curiosa é que sempre comi muito. Meu metabolismo, ainda hoje, é do tipo que se eu ficar mais meia hora sentado à mesa após o almoço, a fome volta e começo a comer de novo. No entanto, antes, esse apetite todo não resultava em aumento de peso.

Eu disse antes. Precisamente antes de 2008.

No dia 14 de agosto daquele ano, estava me casando e, comprovando a máxima de que quem casa, engorda, aos poucos vi a balança se manifestando positivamente. A barriga que era negativa criava um pequeno volume, como se órgãos novos estivessem surgindo. Meu pâncreas deve ter só uns 5, 6 anos de idade.

Esses gramas a mais me alegraram bastante. E com o tempo, passou a ser perceptível aos olhos alheios, pois logo surgiram os primeiros elogios“ah, agora consigo te ver melhor”“nossa, a AIDS tem cura”“cadê o Fagner?”“caramba, tá dando pra te ver de lado”.

Até o relacionamento melhorou, já era possível abraçar a esposa sem machucá-la. Sofia não chorava quando a pegava no colo (Artur ainda não tinha chegado). Comecei a vestir 36. Parei de ter medo de varandas mais altas. Arriscava até um passeio na praia sozinho.

Passaram-se mais alguns meses e a balança danadinha, que aumentava grama por grama, percebeu que poderia arriscar mais, pulando de quilo em quilo. A calça 36 virou 38. A camiseta PP virou P. Claro, nunca fui sinônimo de masculinidade, então, minhas roupas são um pouco mais justas do que um homem normal usaria.

Bom, a verdade é que as coisas fugiram um pouco do controle.

Reparei, por exemplo, que sempre que usava uma determinada calça, que antes usava sem dificuldades, meu dia era terrível. Qualquer coisa que acontecia no trabalho, eu ficava vermelho de raiva. Ou roxo, se fosse mais ao fim do dia. Só quando chegava em casa que as coisas melhoravam. Até pensei que era a presença dos filhos, o abraço da esposa. Mas não era isso. Eu respirava(!) melhor à noite. A calça, percebi, dificultava a circulação nas pernas e ao usá-la, parecia que tudo ia explodir. A calça e eu.

Muitos amigos tentaram me avisar, dizendo que eu havia engordado, que não era mais o magrelo de antes, que nem Deus era mais justo que as calças que eu usava, que eu poderia ficar infértil, mas eu não acreditava.

Finalmente, parei de mentir pra mim mesmo.

Agora, vejo que as roupas, cada dia mais, estão diminuindo. Quando estou em pé, só vejo a ponta do tênis. O cós da calça vive dobrado, mostrando a etiqueta. Meu cofrinho, que agora tem nome, Clayton, todos já viram. Quando estou de camiseta, dá pra ver um tufinho de cabelo cobrindo uma pança esbranquiçada. E se tento sentar de camisa social, consigo ouvir o gemido dos botões.

Hoje mesmo, pra colocar uma calça que antigamente sambava na minha cintura, precisei ficar na ponta dos pés, fazer peito de pombo e uma oração bem fervorosa pra conseguir fechar o zíper. Ainda estou respirando com certa dificuldade.

Alguns que me conhecem de uns anos pra cá, com certeza, podem estar pensando que sou exagerado. Mas quem me viu antes de 2008, sabe que estou falando é de um milagre, de alguém que era “couro e osso”, e que, Aleluia!, agora vive em pleno vigor físico.

Com um pequeno toque de obesidade, mas em pleno vigor físico.

Conversa de pai, Opinião

Uma babá quase perfeita

[Texto originalmente escrito em junho de 2014 – Perdi boa parte dos meus textos. Este é um dos recuperados]

– Tia, pode vir aqui, por favor?
– Sim, claro.

São 6h da manhã e está um baita frio. As janelas de casa são grandes e, mesmo fechadas, não seguram muito bem a temperatura de fora. Tia Abigail termina de lavar o copo, seca as mãos e me acompanha até a sala.

– Aqui… Olha esse sofá.
– Quê que tem?
– Senta nele pra senhora ver. É impressão minha ou tem alguma coisa errada com ele?

A babá que cuida dos nossos filhos, desde que a Sofia tinha 2 anos de idade, ainda não conhece o pai maduro que as crianças têm e senta calmamente, desconfiada. “Droga, sabia que esse moço era psicopata!”, deve ter pensado.

– Se encoste! Se encoste mesmo, se aconchegue… Percebeu?

Ela se encosta e percebe um cobertor dobrado do seu lado. Abre um sorriso, afofa o sofá e diz:

– Macio, né? – responde com uma gargalhada maravilhosa.
– Exatamente. Descansa um pouco hoje, vai.
– Engraçadinho.

Saio, ainda escutando a risada dela. Como sempre, ela se levanta e volta para cozinha.

Minha esposa e eu temos o costume de deixar a casa um pouco arrumada na noite anterior. E meus filhos acordam sempre entre 9h e 10h. Ainda assim, a sra. Abigail chega e põe a mão na massa, mesmo tendo a oportunidade de deitar uma horinha e descansar.

São mais de três anos. Sempre assim.

Depois de algumas desventuras procurando a pessoa ideal para cuidar da então filha única Sofia, passando por uma babá que dormia o dia inteiro (estava sempre com cara de sono e com cabelo tão bagunçado que parecia ter saído de um furação), que deixava a menina vendo TV o dia inteiro, e também por uma amiga que nos ajudava com a filhota (com muito carinho), quando minha esposa ainda estudava… encontramos a tia Abigail. Minha sogra, sabendo do nosso desespero, se lembrou de sua tia, que podia encarar a tarefa.

Encontrar alguém para cuidar dos filhos é seguramente uma das maiores preocupações dos pais. Principalmente se for aqui em São Paulo, onde há uma chance razoável da criança conviver mais com esta pessoa do que com você, pai ou mãe. (Faça as contas, subtraindo o tempo que você passa dormindo. Entendeu?).

Um erro nessa escolha e seu filho pode ter em casa um péssimo exemplo, alguém preguiçoso, uma pessoa que não cozinha bem, que deixa a educação com a TV, que não dá atenção, impaciente etc. Sem falar nos outros absurdos, de maltratar, xingar, deseducar, espancar sem deixar marcas, jogar pela janela e tal. Bom, tem muito onde errar.

Essa segunda mãe de nossos filhos, ainda bem, está longe de qualquer dessas características acima. Transmite amor e carinho só no jeito de falar, de carregá-los no colo, conversar com eles. Curiosamente, sobra até pra nós, tratando muitas vezes como se fôssemos seus filhos.

O reflexo disso é facilmente percebido em muitas atitudes do Tutu e da Sofia. Não à toa, o menino (de 2 anos) corre pra cumprimentar senhores e, principalmente, senhoras, mesmo que sejam totalmente desconhecidos, só pela associação que faz com a tia – a quem chama de “vovó”. Por ser pentelho, o guri pode até enganar os mais distraídos, mas mesmo com essa infindável vontade de destruir nossa casa (ou qualquer lugar por onde passa), ele esbanja carinho. Se pegar ele no colo, não se assuste se, do nada, ele te apertar as bochechas e te beijar, seguido de um abraço bem apertado. Sofia, a mesma coisa, só tem uma doçura mais perceptível, porque é mais delicada.

Não seria exagero afirmar que isso tem uma influência, no mínimo, indireta da serenidade da tia Abigail, que parece estar sempre de bem com a vida, com sua voz baixinha, mansa.

Por ser parente da Tati, vira e mexe coincide de a encontrarmos em alguns eventos familiares. O Artur pode estar brincando, comendo, no colo de alguém ou fazendo qualquer outra coisa, mas se percebe que a “vovó” chegou, para tudo e vai para o colo dela.

Consegue perceber o quanto ela é importante pra nós?

Invariavelmente, quando estou saindo, encontro ela na cozinha já trabalhando. Chego do seu lado, esfrego minhas mãos em seus ombros umas seis, sete vezes (tenho essa mania com pessoas que significam muito pra mim, mas que não sei se tenho intimidade para abraçar, que é o que eu realmente gostaria de fazer), e faço as mesmas perguntas. Ouço as mesmas respostas.

– Bom dia, tia. Tudo bem?
– Bom dia. Bem e você?
– Bem. Que tal deitar um pouco?
– Nada, vou aproveitar que cheguei cedo e adiantar as coisas aqui. Assim, depois, dou mais atenção pra eles.

Difícil é ver isso todo dia e não poder apertá-la até ficar roxinha.

Se um dia encontrar por aí uma senhora que te dá uma paz instantaneamente, só de olhar, pode chamar, ela atende por Abigail.

Conversa de pai

MeninaMá.com (diabo no corpo)

[Texto originalmente escrito em outubro de 2013. Perdi boa parte dos meus textos. Este é um dos recuperados]

– Oi, Fagner!

– Olá, tia! É o Fagner, tudo bem?

– Agora, está tudo bem.

Respondeu ofegante, a tia fofa que cuida dos meus filhos. De tão educada e maravilhosa, ela releva a minha burrice de me apresentar ao telefone – várias vezes ao dia – mesmo depois dela ter atendido a ligação me chamando pelo nome. Isso foi na semana passada.

– Por que “agora”?

– A Sofia. Ela deu muito trabalho pra se arrumar e ir pra escola.

– Tipo…?

– A amiguinha dela, uma vizinha, veio aqui em casa…

– Maria Eduarda?

– Não, não. A outra, do lado.

– Uma insuportável?

– É… Ela não é muito legal…

– Eu sei.

– Ela veio aqui, brincou com a Sofia, depois não quis ir embora de casa. Tive que insistir muito, porque era hora da Sofia almoçar e ir pra escola. Quando a menina saiu, Sofia ficou inquieta, demorou pra comer, pra se arrumar e tal. Mas depois de muito trabalho, ela se arrumou e foi estudar. Ficou chorando até entrar na perua.

Vamos lá…

A culpa de ter acontecido isso é primeiramente nossa (pais, educadores) e da Sofia, claro. Ah, é também da idade, 4 anos, quando o filho começa a enfrentar os pais, testá-los etc. Inclusive, vejo que a Sofia já melhorou – e muito – neste aspecto nos últimos dias. Os pequenos aprendem rápido, quando conversamos sobre essas possíveis falhas desde cedinho.

Mas hoje, eu preciso falar dessa “amiga” da Sofia, preciso colocar em seus ombros uma parte dessa culpa.

Antes, porém, vou falar da outra, a que não é insuportável. Mais do que isso, é divinamente educada, a Maria Eduarda (rimou). Só pra servir de comparação – muito injusta.

A Madú (nem sabia que este apelido existia) é do tipo de criança que você faz questão que o seu filho tenha amizade com ela. Aliás, se fosse possível comprar crianças hoje em dia, sem render uma prisão ou matéria de “A Liga”, eu compraria algumas: 3/5 como os meus sobrinhos e 2/5 iguais esta menina. Até deixaria cada “produto” em sua respectiva casa. Ok, o termo correto seria aluguel de amizade. “Quanto custa 8 horas/mês da amizade de sua filha? Tem desconto se for vizinho ou parente? E se fecharmos um contrato de um ano, tem suporte gratuito? Garantia estendida”. Baita negócio, hein?! Alugar amizade de crianças educadas… Enfim, foco, voltando…

A guria, a que é sensacional, tem uns 8 anos, pede licença para entrar e sair, diz obrigado, boa noite, conversa com a gente, divide todos os brinquedos, fala baixo, sempre está sorrindo. É ótima. Eu sei que muitas crianças fazem isso, mas ela faz tão naturalmente, que dá gosto. Dia desses, vi a Madú falando pra Sofia: “Seus pais chegaram agora do trabalho, estão querendo ficar um pouco com você, por isso eu vou pra casa, tudo bem?”. Caramba, 8 ANOS!

Quando ela entra em casa, eu fico feliz como se fosse um grande amigo meu. Só pelo bem que faz à Sofia. Posso exagerar? Creditaria uma pequena parcela da educação da Sofia a ela. Nós educamos, é óbvio, o que é mais importante, mas Sofia ver isto em uma amiga é muito significativo.

Agora, a outra criança, a do Mefisto. Neste momento, me bateu uma dúvida se pega bem falar de uma criança, ainda mais nesse tom e com tanto ódio no coração… mesmo assim vou prosseguir, porque a minha consciência até se manifestou, mas de maneira positiva, me incentivando, contente com o desabafo. Vou ser bem claro: eu odeio essa criança.

Samara (vou dar este nome, vai que a vizinha me encontre na Internet) também está perto dos 8 anos. É aquela pequena criatura que entra em casa sem ser chamada. Quando você pisca, ela já atravessou a sala, está procurando as bonecas da sua filha, carregando seu filho de 1 ano com suas mãos cheias de pecado, abrindo a geladeira, enfim, já faz parte da sua vida, sem você pedir. Brinca de forma ofensiva com seu filho, bagunça o mundo, pinta parede, pinta o seu filho, não divide os brinquedos que não são seus (“não vou te emprestar a sua boneca, Sofia!”), dá piti, não cumprimenta, fala como se estivesse com fones de ouvido. E até quando a dona da casa solicita educadamente sua licença, não gosta da ideia, sai, e volta depois de 3 minutos, “Sofia taí?”.

Dá pra perceber o ambiente escurecendo quando ela chega. Não duvidaria se um dia ela entrasse em casa, e o som tocasse automaticamente alguma trilha sonora dos filmes de Hitchcock ou a TV ligasse fora de sintonia. E isso influencia absurdamente a todos. Até eu tenho vontade de destruir o planeta, quando ela entra em nosso lar.

Recentemente, googuei “onde encontrar ricina”, “ricina pode ser detectada em autópsias?”, “receita de bolo caseiro com ricina e brigadeiro para criança possuída”, buscando uma maneira de me livrar dela. Já me imaginei segurando esta menina pela janela do nono andar, onde moro, falando baixo em seu ouvido “seja menos insuportável, por favor, ou te jogo daqui e depois mato toda a sua família!”. (Engraçado, consciência continua tranquila).

É impossível não pensar na minha mãe dizendo cuidado com as amizades. Acho que é padrão em todos os pais esta preocupação. Não me recordo de todos os amigos que eu tinha na idade da Sofia, e acho que as asneiras que fiz foram em grande parte por eu ser a ovelha negra, não eles. Mas arrisco a dizer que muito dificilmente, nem no meu mais inspirado momento, eu chegaria aos pés desta vil criatura.

Tenho até um plano de abrir a porta, quando ela bater, todo pintado de vermelho sangue e, com uma faca na mão, dizer “Sofia e eu estamos terminando de brincar com outra amiguinha nossa. Espere um pouco, já já é a sua vez, tudo bem?”.

Ainda não pude transformar este plano em realidade, porque Samara não aparece mais em casa. Faz alguns dias. A paz voltou a reinar e nossa família está mais feliz…

…o bolinho caseiro deve ter funcionado.

Conversa de pai, Opinião

Mais estranho que a ficção

Antes de começar este texto, havia escrito mais de uma página sobre outro assunto. Cheguei a imprimir, pegar umas duas folhas a mais, para o caso de ter ideias complementares, e revisar no caminho para casa.

Hoje, cheguei em frente ao computador, fiz as alterações, acrescentei algumas palavras, troquei outras e… apaguei tudo. E fiz com que nem o Ctrl + Z pudesse voltar a minha decisão. E isso acontece sempre, semanalmente. Porque isso sou eu, essa impulsividade em pessoa.

Verdade seja dita, esse blog nunca viveu de maneira decente, com atualizações numa periodicidade razoável. Até tem seus momentos medianos, onde dá pra perder dois ou três minutos, mas num lugar imenso e variado como a web, ele não é nada demais. Por um simples motivo: ele é basicamente um reflexo meu.

Mais do que isso; o blog sou eu.

O Cinema Franco já começou uma faculdade. Duas. Três. Ou foram quatro? Sempre que começava, era o mesmo empenho. O mesmo pensamento de “agora é pra valer, vou começar este texto e vou até o fim”. Ele passava horas, dias pensando nos textos. Levava a sério, fazia anotações e levava pra casa. Mal dormia imaginando como seria o texto finalizado. Rasurava, tirava notas boas, levava o caderno, discutia assuntos com os colegas de sala, pedia conselhos para os professores, ficava nas palestras da semana da comunicação até o final. Mas por diversas vezes, selecionava tudo, sem muito critério ou motivo, e desistia.

O blog nem se arrependia quando tomava essa decisão, por mais imbecil que isso fosse. Sempre tinha uma resposta na ponta da língua. “Ah, não era pra mim”, “outro texto legal vai aparecer”, “isso não vai mudar a vida de ninguém”, “quem disse que preciso disso?”, “consigo viver sem esta parte da minha vida sem o menor problema”.

Quando ele parava para pensar, tinha certeza que, na verdade, não sabia muito bem para onde ir. E quando sabia, não queria. Quando queria, não tinha como, já não havia tempo ou recursos. Ideias vinham, amigos, inspirações, mas amava perder oportunidades. Ele, muitas vezes, tinha tudo para render uma ótima história, no entanto deixava passar por causa da correria, da falta de tempo ou até a sobra de tempo que, quando surgia, o deixava burro. Ele era ótimo em dar desculpas. Se não enganava os que o liam, enganava a si mesmo – pelo menos, por um certo tempo.

Mesmo sabendo que poderia se arrepender, ele desistia, parava no meio, porém sempre com aquele ar de saber o que estava fazendo. Tinha certeza do controle, de não depender daquele texto. Esperava muito dos outros (mas nunca de si mesmo), cagava regra, misturava tudo, mudava os parágrafos de posição. Outras vezes, até publicava, depois de dizer tudo o que tinha pra dizer.

É claro, havia alguns atos cujas consequências o faziam realmente se lamentar. E quando isso acontecia, o blog sumia, ficava fora do ar, isolado. Em construção. Pensativo, decidia que dali pra frente, faria tudo diferente. E quando via a luz do dia novamente, vinha com toda a força. Voltava produtivo e cheio de iniciativa, com piadas e ideias novas. Sentia-se útil e fazia até planos. Trocava o visual, lia novos livros, buscava outras inspirações, conhecia gente nova.

Todavia, depois de um tempo, percebia que não era uma mudança verdadeira, mas apenas um surto. Bastasse uma meia dúzia de primeiras linhas não muito inspiradoras, ou que não lhes saltassem os olhos, ele começava tudo de novo. Melhor, desistia de tudo de novo. Por mais que mudasse a cara, aumentassem as visitas, os comentários, os amigos, as risadas… o incômodo ainda estava lá.

Depois de muito tempo, obviamente, ele cresceu. E o que de melhor poderia aparecer, apareceu. E o mais curioso é que não foi nessa ordem. Não houve uma sequência “natural” das coisas. Porque geralmente se nasce, cresce, vê a necessidade de mudança, cresce de novo (estes últimos dois podem acontecer algumas vezes), muda e aí, então, as coisas boas aparecem.

Com o blog, não. Sem o menor merecimento, recebeu um conteúdo melhor: uma família para cuidar e chamar de sua. Uma inspiração real. Daquelas que nem o mais otimista poderia prever. Justamente com ele, um pessimista nato – apesar de se definir como realista.

Claro que, de certa forma, mesmo com tanta coisa boa, hoje ele continua sem rumo vez ou outra, indeciso, com medo, preocupado. Para dizer a verdade, não é raro ele ainda sentir vergonha de ser ele. Meio chato, pretensioso, sem noção, perdido, repetitivo, uma cópia piorada de suas influências… mas nunca se esquecendo de exibir uma autoestima de dar inveja.

A diferença é que, enfim, os momentos de lucidez e de melhora são mais frequentes e surgem naturalmente. Principalmente, quando ele pensa e escreve sobre essa família. Ele só presta quando é dela, quando está com ela, quando fala dela, quando é ela. Ele a respira e escreveria apenas sobre ela, com um baita orgulho.

É esta parte do blog que faz dele próprio um espaço um pouco mais interessante, mais vivo e muito mais feliz, embora com rotineiras ausências.

 

Cinema, Olha isso..., Opinião, Vem aí...

Trailer de The Wolf of Wall Street

Passando pelos blogues web afora, como de costume, encontro este trailer sensacional da nova parceria de Martin Scorsese com Leonardo DiCaprio, em “The Wolf of Wall Street” . É o quinto longa da dupla, desde “Gangues de Nova York” – a última, foi no excelente “A Ilha do Medo” de 2010.

DiCaprio é Jordan Belfort, corretor da bolsa de Nova York que é condenado a 20 anos de prisão, após negar ajuda à polícia na investigação de um esquema de corrupção em Wall Street no início dos anos 90.

O vídeo já mostra um pouco dos excessos que podem ter levado o corretor (e seus companheiros) à queda e um pouco de sua parceria com Donnie Azzof (Jonah Hill, de “Anjos da Lei”), além da participação maravilhosa de Matthew McCounaghey, como o mentor de Belfort, Mark Hanna. A última cena do trailer é linda.

A história é baseada em fatos reais e é contada em livro homônimo, pelo próprio personagem, que serviu de base para o roteiro de Terence Winter, roteirista de “Família Soprano”.