Conversa de pai, Nada de Cinema

7 anos

[Texto originalmente escrito dia 14 agosto de 2014. Perdi boa parte dos textos do blog e todos os comentários – este é um dos posts recuperados]

Em meados de 2008, em algum lugar lá em cima, um anjo bate à porta.

TOC TOC!

– Pode entrar!

– Com licença. Tem um minuto?

– Fala, rapaz! Tranquilo?

– Ah, quase tudo bem. Como o Senhor está?

– Estou bem, na medida do possível. Você sabe… Essa bagunça lá embaixo, entre os humanos, nós sabemos desde o princípio, mas ficamos meio triste às vezes, sabe?

– Eu sei.

– De resto, tudo tranquilo. Mas me diga o que te aflige?

– É sobre a Tatiane.

– Ah, a tua menina?

– Isso.

– Rapaz, está cada dia mais bonita, né?

– Sim, demais.

– Nossa, como ela é linda.

– É.

– Inteligente, esperta, responsável, atenciosa…

– Sim. Com todo o respeito, parece que o Senhor está se exibindo.

– Calma, é só uma brincadeira. O que há de errado com ela?

– Nada, com ela nada.

– Então…?

– Tenho medo de algumas coisas que andam acontecendo.

– Tipo?

– Ela está conversando muito com um rapaz, o Fagner.

– Nem sabia que se conheciam. Mas ele não mora em São Paulo, mora?

– Mora, faz tempo.

– Pensei que era do Nordeste.

– Acho que ela está gostando dele.

– Nossa, isso é terrível! Ele tem idade pra ser bisavô dela.

– Como assim? Não. Espera! Em quem o Senhor está pensando?

– “Quem dera ser um peixe, para em teu límp…”

– Não, não, não. É o outro.

– Ah, é verdade, tem mais de um.

– São cinco no total.

– Vish!

– Então, é o Fagner Franco, irmão do Franco Fagn…

– HAHAHAHAHA. Pais criativos.

– Há controvérsias.

– Aquele menino é meio perturbado.

– Exato. Por isso estou preocupado.

– Bom, faz alguns milhares de anos que as coisas funcionam dessa maneira. Sempre há riscos, a partir do momento em que não escolhemos nada por eles. As coisas não dependem apenas de nós.

– Eu sei. O livre-arbítrio.

– Isso. Continue…

– Preocupado com ela, eu tomei a iniciativa de enviar alguns sinais.

– Não ultrapassando o limite, tá tranquilo.

– Esse é o problema. Agora cheguei no limite. Não posso usar nenhum sinalzinho até o final do mês.

– “Sempre sobra mês no final dos seus sinais”, diriam os humanos.

– Ela viajou para casa de alguns parentes no feriado do mês passado. De uns meses pra cá, conheceu novos amigos – reviu alguns antigos. A faculdade está bem difícil, os estágios desgastantes. Resumindo, a cabeça dela anda bastante ocupada com outras coisas, pra ela pensar que talvez não seja o momento ideal para um relacionamento.

– Deu algum resultado?

– Engraçado você fazer perguntas que já sabe a resposta.

– É costume. O diálogo flui melhor.

– Ok, não deu resultado.

– Já te expliquei, mas vou tentar de novo: os sinais foram um tipo de bônus nestes últimos tempos, porque a coisa está feia lá embaixo. Mas tem outra pessoa responsável, que está bem alinhada com a maneira minha de pensar. Sua tarefa, como a dos demais anjos, é mais guardar que, de fato, fazer alguma coisa. Seria interessante poupar os sinais para as emergências.

– Vou prestar mais atenção. Fato é que, não importa o sinal, não importa as atividades, minha menina continua pensando no rapaz. Como isso é possível?

– Acho curioso esse lance de vocês procurarem sentido neste tipo de coisa.

– E sabe o que me deixou mais desesperado? O doidinho também está gostando dela.

– Que bonito. Perturbado, mas tem coração.

– Ele está apaixonado. O anjo que cuida dele… sabe aquele que só pega os casos mais complicados, que mora lá perto do laguinho?

– Sim, sim. Tá aqui direto. Gente boa demais. Vê coisa boa em todo mundo. Parece meu Filho.

– Esse. Corajoso que só. Bom, ele me disse que o menino anda falando dela pra alguns amigos, pais, irmão. Eles já se falam o tempo inteiro. Acabam de falar pelo telefone e já estão conversando pelo MSN de novo. Nunca vi.

– Owwwnn!

– A sorte é que ele é meio lento. Se dependesse da vontade dele, já estariam juntos há mais tempo. Mas praquele ali tomar atitude…

– Esses moleques são sempre assim. Falam, falam, falam, mas quando gostam de verdade, perdem o rumo, não sabem o que dizer, nem como vai dizer… Acho bem divertido.

– Eu só queria saber como lidar com isso tudo. Acompanho a menina desde o nascimento e quero que dê tudo certo.

– “Tudo certo”? Fale mais sobre isso.

– A vida da Tati está ótima, dentro do programado. Tem 21 anos, perto de se formar, vida financeira controlada, com pais dando o suporte necessário, é uma menina correta, meio teimosa, às vezes, nada demais. É uma baita menina muito especial, mas…

– Mas…?

– Mas é o Fagner, né? O rapaz está desistindo da segunda faculdade. O responsável por ele fica alegando que tem um ou outro motivo, mas na prática, nós sabemos que o menino recebeu muitas oportunidades diretas do Senhor e jogou tudo fora. É meio irresponsável, inconsequente, impulsivo, paga de revoltadinho… Eita, acho que estou ficando um pouco agressivo. Desculpa.

– Está desculpado. Interessante essa sua preocupação excessiva.

– É que eu acho que ele não merece, sinceramente. Com todo o respeito, não vejo nem futuro entre os dois.

– Engraçado, podia jurar que era Eu quem tinha esse poder de ver o futuro.

– Desculpa, é que esses milhares de anos cuidando deles… Sabe como é, a gente vai aprendendo algumas coisas.

– Mas outras vocês nunca vão entender. Você precisa confiar mais na sua menina, não acha? Se ela é tão boa como você diz – e eu sei que ela é – acho que pode confiar.

– Mas como será a vida dela com ele?

– Errou.

– Como assim?

– Não é essa a pergunta.

– Não entendi.

– Pense.

Neste momento, ficaram em silêncio.

Depois de alguns minutos, o anjo pediu licença, agradeceu e deixou a sala.

A preocupação havia dado lugar a um sentimento de orgulho. Havia entendido que mais importante que a sua preocupação de como seria a vida dela com ele, era imaginar como seria a vida dele sem ela. Aquela menina que acompanhou 24 horas por dia desde o nascimento era a única que podia cuidar daquele menino estranho, cheio de dúvidas e sensível até demais.

Na manhã do dia 14 de agosto de 2015, o anjo se lembrou daquela conversa, quando Tatiane e Fagner estavam completando 7 anos de casados. A menina havia se tornado, como ele imaginava, uma mãe absurdamente completa e dedicada, de duas crianças igualmente incríveis, uma esposa paciente, altruísta, companheira, engraçada e que ainda arranjava tempo pra continuar linda.

O menino? Bom, o menino virou um pai de família, esforçado e… só. Continuava estranho, é verdade, mas certamente muito, muito mais feliz.

Anúncios
Conversa de pai, Opinião

Uma babá quase perfeita

[Texto originalmente escrito em junho de 2014 – Perdi boa parte dos meus textos. Este é um dos recuperados]

– Tia, pode vir aqui, por favor?
– Sim, claro.

São 6h da manhã e está um baita frio. As janelas de casa são grandes e, mesmo fechadas, não seguram muito bem a temperatura de fora. Tia Abigail termina de lavar o copo, seca as mãos e me acompanha até a sala.

– Aqui… Olha esse sofá.
– Quê que tem?
– Senta nele pra senhora ver. É impressão minha ou tem alguma coisa errada com ele?

A babá que cuida dos nossos filhos, desde que a Sofia tinha 2 anos de idade, ainda não conhece o pai maduro que as crianças têm e senta calmamente, desconfiada. “Droga, sabia que esse moço era psicopata!”, deve ter pensado.

– Se encoste! Se encoste mesmo, se aconchegue… Percebeu?

Ela se encosta e percebe um cobertor dobrado do seu lado. Abre um sorriso, afofa o sofá e diz:

– Macio, né? – responde com uma gargalhada maravilhosa.
– Exatamente. Descansa um pouco hoje, vai.
– Engraçadinho.

Saio, ainda escutando a risada dela. Como sempre, ela se levanta e volta para cozinha.

Minha esposa e eu temos o costume de deixar a casa um pouco arrumada na noite anterior. E meus filhos acordam sempre entre 9h e 10h. Ainda assim, a sra. Abigail chega e põe a mão na massa, mesmo tendo a oportunidade de deitar uma horinha e descansar.

São mais de três anos. Sempre assim.

Depois de algumas desventuras procurando a pessoa ideal para cuidar da então filha única Sofia, passando por uma babá que dormia o dia inteiro (estava sempre com cara de sono e com cabelo tão bagunçado que parecia ter saído de um furação), que deixava a menina vendo TV o dia inteiro, e também por uma amiga que nos ajudava com a filhota (com muito carinho), quando minha esposa ainda estudava… encontramos a tia Abigail. Minha sogra, sabendo do nosso desespero, se lembrou de sua tia, que podia encarar a tarefa.

Encontrar alguém para cuidar dos filhos é seguramente uma das maiores preocupações dos pais. Principalmente se for aqui em São Paulo, onde há uma chance razoável da criança conviver mais com esta pessoa do que com você, pai ou mãe. (Faça as contas, subtraindo o tempo que você passa dormindo. Entendeu?).

Um erro nessa escolha e seu filho pode ter em casa um péssimo exemplo, alguém preguiçoso, uma pessoa que não cozinha bem, que deixa a educação com a TV, que não dá atenção, impaciente etc. Sem falar nos outros absurdos, de maltratar, xingar, deseducar, espancar sem deixar marcas, jogar pela janela e tal. Bom, tem muito onde errar.

Essa segunda mãe de nossos filhos, ainda bem, está longe de qualquer dessas características acima. Transmite amor e carinho só no jeito de falar, de carregá-los no colo, conversar com eles. Curiosamente, sobra até pra nós, tratando muitas vezes como se fôssemos seus filhos.

O reflexo disso é facilmente percebido em muitas atitudes do Tutu e da Sofia. Não à toa, o menino (de 2 anos) corre pra cumprimentar senhores e, principalmente, senhoras, mesmo que sejam totalmente desconhecidos, só pela associação que faz com a tia – a quem chama de “vovó”. Por ser pentelho, o guri pode até enganar os mais distraídos, mas mesmo com essa infindável vontade de destruir nossa casa (ou qualquer lugar por onde passa), ele esbanja carinho. Se pegar ele no colo, não se assuste se, do nada, ele te apertar as bochechas e te beijar, seguido de um abraço bem apertado. Sofia, a mesma coisa, só tem uma doçura mais perceptível, porque é mais delicada.

Não seria exagero afirmar que isso tem uma influência, no mínimo, indireta da serenidade da tia Abigail, que parece estar sempre de bem com a vida, com sua voz baixinha, mansa.

Por ser parente da Tati, vira e mexe coincide de a encontrarmos em alguns eventos familiares. O Artur pode estar brincando, comendo, no colo de alguém ou fazendo qualquer outra coisa, mas se percebe que a “vovó” chegou, para tudo e vai para o colo dela.

Consegue perceber o quanto ela é importante pra nós?

Invariavelmente, quando estou saindo, encontro ela na cozinha já trabalhando. Chego do seu lado, esfrego minhas mãos em seus ombros umas seis, sete vezes (tenho essa mania com pessoas que significam muito pra mim, mas que não sei se tenho intimidade para abraçar, que é o que eu realmente gostaria de fazer), e faço as mesmas perguntas. Ouço as mesmas respostas.

– Bom dia, tia. Tudo bem?
– Bom dia. Bem e você?
– Bem. Que tal deitar um pouco?
– Nada, vou aproveitar que cheguei cedo e adiantar as coisas aqui. Assim, depois, dou mais atenção pra eles.

Difícil é ver isso todo dia e não poder apertá-la até ficar roxinha.

Se um dia encontrar por aí uma senhora que te dá uma paz instantaneamente, só de olhar, pode chamar, ela atende por Abigail.

Conversa de pai

MeninaMá.com (diabo no corpo)

[Texto originalmente escrito em outubro de 2013. Perdi boa parte dos meus textos. Este é um dos recuperados]

– Oi, Fagner!

– Olá, tia! É o Fagner, tudo bem?

– Agora, está tudo bem.

Respondeu ofegante, a tia fofa que cuida dos meus filhos. De tão educada e maravilhosa, ela releva a minha burrice de me apresentar ao telefone – várias vezes ao dia – mesmo depois dela ter atendido a ligação me chamando pelo nome. Isso foi na semana passada.

– Por que “agora”?

– A Sofia. Ela deu muito trabalho pra se arrumar e ir pra escola.

– Tipo…?

– A amiguinha dela, uma vizinha, veio aqui em casa…

– Maria Eduarda?

– Não, não. A outra, do lado.

– Uma insuportável?

– É… Ela não é muito legal…

– Eu sei.

– Ela veio aqui, brincou com a Sofia, depois não quis ir embora de casa. Tive que insistir muito, porque era hora da Sofia almoçar e ir pra escola. Quando a menina saiu, Sofia ficou inquieta, demorou pra comer, pra se arrumar e tal. Mas depois de muito trabalho, ela se arrumou e foi estudar. Ficou chorando até entrar na perua.

Vamos lá…

A culpa de ter acontecido isso é primeiramente nossa (pais, educadores) e da Sofia, claro. Ah, é também da idade, 4 anos, quando o filho começa a enfrentar os pais, testá-los etc. Inclusive, vejo que a Sofia já melhorou – e muito – neste aspecto nos últimos dias. Os pequenos aprendem rápido, quando conversamos sobre essas possíveis falhas desde cedinho.

Mas hoje, eu preciso falar dessa “amiga” da Sofia, preciso colocar em seus ombros uma parte dessa culpa.

Antes, porém, vou falar da outra, a que não é insuportável. Mais do que isso, é divinamente educada, a Maria Eduarda (rimou). Só pra servir de comparação – muito injusta.

A Madú (nem sabia que este apelido existia) é do tipo de criança que você faz questão que o seu filho tenha amizade com ela. Aliás, se fosse possível comprar crianças hoje em dia, sem render uma prisão ou matéria de “A Liga”, eu compraria algumas: 3/5 como os meus sobrinhos e 2/5 iguais esta menina. Até deixaria cada “produto” em sua respectiva casa. Ok, o termo correto seria aluguel de amizade. “Quanto custa 8 horas/mês da amizade de sua filha? Tem desconto se for vizinho ou parente? E se fecharmos um contrato de um ano, tem suporte gratuito? Garantia estendida”. Baita negócio, hein?! Alugar amizade de crianças educadas… Enfim, foco, voltando…

A guria, a que é sensacional, tem uns 8 anos, pede licença para entrar e sair, diz obrigado, boa noite, conversa com a gente, divide todos os brinquedos, fala baixo, sempre está sorrindo. É ótima. Eu sei que muitas crianças fazem isso, mas ela faz tão naturalmente, que dá gosto. Dia desses, vi a Madú falando pra Sofia: “Seus pais chegaram agora do trabalho, estão querendo ficar um pouco com você, por isso eu vou pra casa, tudo bem?”. Caramba, 8 ANOS!

Quando ela entra em casa, eu fico feliz como se fosse um grande amigo meu. Só pelo bem que faz à Sofia. Posso exagerar? Creditaria uma pequena parcela da educação da Sofia a ela. Nós educamos, é óbvio, o que é mais importante, mas Sofia ver isto em uma amiga é muito significativo.

Agora, a outra criança, a do Mefisto. Neste momento, me bateu uma dúvida se pega bem falar de uma criança, ainda mais nesse tom e com tanto ódio no coração… mesmo assim vou prosseguir, porque a minha consciência até se manifestou, mas de maneira positiva, me incentivando, contente com o desabafo. Vou ser bem claro: eu odeio essa criança.

Samara (vou dar este nome, vai que a vizinha me encontre na Internet) também está perto dos 8 anos. É aquela pequena criatura que entra em casa sem ser chamada. Quando você pisca, ela já atravessou a sala, está procurando as bonecas da sua filha, carregando seu filho de 1 ano com suas mãos cheias de pecado, abrindo a geladeira, enfim, já faz parte da sua vida, sem você pedir. Brinca de forma ofensiva com seu filho, bagunça o mundo, pinta parede, pinta o seu filho, não divide os brinquedos que não são seus (“não vou te emprestar a sua boneca, Sofia!”), dá piti, não cumprimenta, fala como se estivesse com fones de ouvido. E até quando a dona da casa solicita educadamente sua licença, não gosta da ideia, sai, e volta depois de 3 minutos, “Sofia taí?”.

Dá pra perceber o ambiente escurecendo quando ela chega. Não duvidaria se um dia ela entrasse em casa, e o som tocasse automaticamente alguma trilha sonora dos filmes de Hitchcock ou a TV ligasse fora de sintonia. E isso influencia absurdamente a todos. Até eu tenho vontade de destruir o planeta, quando ela entra em nosso lar.

Recentemente, googuei “onde encontrar ricina”, “ricina pode ser detectada em autópsias?”, “receita de bolo caseiro com ricina e brigadeiro para criança possuída”, buscando uma maneira de me livrar dela. Já me imaginei segurando esta menina pela janela do nono andar, onde moro, falando baixo em seu ouvido “seja menos insuportável, por favor, ou te jogo daqui e depois mato toda a sua família!”. (Engraçado, consciência continua tranquila).

É impossível não pensar na minha mãe dizendo cuidado com as amizades. Acho que é padrão em todos os pais esta preocupação. Não me recordo de todos os amigos que eu tinha na idade da Sofia, e acho que as asneiras que fiz foram em grande parte por eu ser a ovelha negra, não eles. Mas arrisco a dizer que muito dificilmente, nem no meu mais inspirado momento, eu chegaria aos pés desta vil criatura.

Tenho até um plano de abrir a porta, quando ela bater, todo pintado de vermelho sangue e, com uma faca na mão, dizer “Sofia e eu estamos terminando de brincar com outra amiguinha nossa. Espere um pouco, já já é a sua vez, tudo bem?”.

Ainda não pude transformar este plano em realidade, porque Samara não aparece mais em casa. Faz alguns dias. A paz voltou a reinar e nossa família está mais feliz…

…o bolinho caseiro deve ter funcionado.

Conversa de pai, Opinião

Mais estranho que a ficção

Antes de começar este texto, havia escrito mais de uma página sobre outro assunto. Cheguei a imprimir, pegar umas duas folhas a mais, para o caso de ter ideias complementares, e revisar no caminho para casa.

Hoje, cheguei em frente ao computador, fiz as alterações, acrescentei algumas palavras, troquei outras e… apaguei tudo. E fiz com que nem o Ctrl + Z pudesse voltar a minha decisão. E isso acontece sempre, semanalmente. Porque isso sou eu, essa impulsividade em pessoa.

Verdade seja dita, esse blog nunca viveu de maneira decente, com atualizações numa periodicidade razoável. Até tem seus momentos medianos, onde dá pra perder dois ou três minutos, mas num lugar imenso e variado como a web, ele não é nada demais. Por um simples motivo: ele é basicamente um reflexo meu.

Mais do que isso; o blog sou eu.

O Cinema Franco já começou uma faculdade. Duas. Três. Ou foram quatro? Sempre que começava, era o mesmo empenho. O mesmo pensamento de “agora é pra valer, vou começar este texto e vou até o fim”. Ele passava horas, dias pensando nos textos. Levava a sério, fazia anotações e levava pra casa. Mal dormia imaginando como seria o texto finalizado. Rasurava, tirava notas boas, levava o caderno, discutia assuntos com os colegas de sala, pedia conselhos para os professores, ficava nas palestras da semana da comunicação até o final. Mas por diversas vezes, selecionava tudo, sem muito critério ou motivo, e desistia.

O blog nem se arrependia quando tomava essa decisão, por mais imbecil que isso fosse. Sempre tinha uma resposta na ponta da língua. “Ah, não era pra mim”, “outro texto legal vai aparecer”, “isso não vai mudar a vida de ninguém”, “quem disse que preciso disso?”, “consigo viver sem esta parte da minha vida sem o menor problema”.

Quando ele parava para pensar, tinha certeza que, na verdade, não sabia muito bem para onde ir. E quando sabia, não queria. Quando queria, não tinha como, já não havia tempo ou recursos. Ideias vinham, amigos, inspirações, mas amava perder oportunidades. Ele, muitas vezes, tinha tudo para render uma ótima história, no entanto deixava passar por causa da correria, da falta de tempo ou até a sobra de tempo que, quando surgia, o deixava burro. Ele era ótimo em dar desculpas. Se não enganava os que o liam, enganava a si mesmo – pelo menos, por um certo tempo.

Mesmo sabendo que poderia se arrepender, ele desistia, parava no meio, porém sempre com aquele ar de saber o que estava fazendo. Tinha certeza do controle, de não depender daquele texto. Esperava muito dos outros (mas nunca de si mesmo), cagava regra, misturava tudo, mudava os parágrafos de posição. Outras vezes, até publicava, depois de dizer tudo o que tinha pra dizer.

É claro, havia alguns atos cujas consequências o faziam realmente se lamentar. E quando isso acontecia, o blog sumia, ficava fora do ar, isolado. Em construção. Pensativo, decidia que dali pra frente, faria tudo diferente. E quando via a luz do dia novamente, vinha com toda a força. Voltava produtivo e cheio de iniciativa, com piadas e ideias novas. Sentia-se útil e fazia até planos. Trocava o visual, lia novos livros, buscava outras inspirações, conhecia gente nova.

Todavia, depois de um tempo, percebia que não era uma mudança verdadeira, mas apenas um surto. Bastasse uma meia dúzia de primeiras linhas não muito inspiradoras, ou que não lhes saltassem os olhos, ele começava tudo de novo. Melhor, desistia de tudo de novo. Por mais que mudasse a cara, aumentassem as visitas, os comentários, os amigos, as risadas… o incômodo ainda estava lá.

Depois de muito tempo, obviamente, ele cresceu. E o que de melhor poderia aparecer, apareceu. E o mais curioso é que não foi nessa ordem. Não houve uma sequência “natural” das coisas. Porque geralmente se nasce, cresce, vê a necessidade de mudança, cresce de novo (estes últimos dois podem acontecer algumas vezes), muda e aí, então, as coisas boas aparecem.

Com o blog, não. Sem o menor merecimento, recebeu um conteúdo melhor: uma família para cuidar e chamar de sua. Uma inspiração real. Daquelas que nem o mais otimista poderia prever. Justamente com ele, um pessimista nato – apesar de se definir como realista.

Claro que, de certa forma, mesmo com tanta coisa boa, hoje ele continua sem rumo vez ou outra, indeciso, com medo, preocupado. Para dizer a verdade, não é raro ele ainda sentir vergonha de ser ele. Meio chato, pretensioso, sem noção, perdido, repetitivo, uma cópia piorada de suas influências… mas nunca se esquecendo de exibir uma autoestima de dar inveja.

A diferença é que, enfim, os momentos de lucidez e de melhora são mais frequentes e surgem naturalmente. Principalmente, quando ele pensa e escreve sobre essa família. Ele só presta quando é dela, quando está com ela, quando fala dela, quando é ela. Ele a respira e escreveria apenas sobre ela, com um baita orgulho.

É esta parte do blog que faz dele próprio um espaço um pouco mais interessante, mais vivo e muito mais feliz, embora com rotineiras ausências.

 

Conversa de pai, Nada de Cinema, Opinião

Um ano de Artur

(Viu Um Ano de Sofia?)

 

Quando a médica disse, na sala de ultrassom, é um menino, percebi que eu tinha uma certa preferência por menina. Fiquei surpreso tanto pelo fato de ser um filho homem, quanto por ter havido essa surpresa.

Afinal, ter uma menina era algo que eu conhecia, já tinha dado certo (demais), saberia por onde andar ou, pelo menos, poderia errar menos. Se você tivesse uma filha como a Sofia e tivesse esperando mais um rebento, muito provavelmente iria me entender. É inevitável.

Pairava, inclusive, desde o início da gravidez, uma dúvida: iríamos gostar dele tanto quanto dela? Racionalmente, eu sabia que sim, porque todo mundo aprende que os pais amam aos filhos igualmente – independente de ter mais afinidade com um ou com outro. Emocionalmente, porém, era meio improvável amar mais um, como se meu coração de pai estivesse maciçamente preenchido pela Sofia e viesse alguém dizendo: “Oi, tudo bem? Prazer te conhecer! Agora empurra a Sofia um pouco para o lado, isso, aperta aí um pouco mais, isso, só mais um pouquinho, obrigado”. Podia até ouvir a Sofia gritando “papai, eu estou caindo aqui, não tá vendo?”.

Claro que depois de alguns minutos, eu já estava muito feliz com a ideia e via inúmeras vantagens de ter um moço; não iria querer matar mais filhos dos outros quando namorassem minha filha, não iria ter vontade de me suicidar em mais um casamento, não iria chorar nu em posição fetal no chão frio do banheiro nas noites que elas saíssem para dormir fora etc. Falando sério, é alguém igual a mim, em importantes aspectos, com grandes chances de passar por muita coisa que eu já passei. Sofrer com o que eu sofri, machucar, aprender, ensinar. É como aconselhar e ajudar o filho com mais propriedade, conhecendo mais do assunto. Enfim, ser mais útil.

Há exatamente um ano, quando finalmente chegou o menino, já com o nome de Artur, via a criança mais doce que já conheci. Linda. Aquela dúvida de amar tanto quanto a irmã mais velha, aos poucos, foi se mostrando cada vez mais idiota. Aquele coração, aparentemente preenchido, parece ter se duplicado, dia após dia, ou como se naquele mesmo espaço, Sofia e Artur estivessem se misturando homogeneamente.

Ingênuo de tudo, eu imaginava querer alguém como a Sofia. No entanto, fui percebendo que os dois são extrema e maravilhosamente diferentes. Eles se complementam nos mínimos detalhes. É o sereno com a serelepe. O dependente Artur, a invariavelmente independente Sofia. O preguiçoso, a ansiosa, o passivo, a hiperativa. E mesmo ainda novos, estas diferenças são cada vez mais perceptíveis (ao dar o leite para Sofia, por exemplo, nessa mesma idade, ela tirava a nossa mão para segurar sozinha a mamadeira; o mocinho, assim que encostamos para mudá-la de posição, já solta).

E quando digo que meu filho é doce, não é exagero, tampouco corujismo. Para rir, o Artur basta estar acordado. Claro, vez ou outra, podemos vê-lo chorando, mas provavelmente estará com fome ou então a mãe chegou do trabalho e ainda não o pegou no colo. Não é raro passar um dia sem escutar um choro ou reclamação sua. Até olhando um outro aspecto que preocupa boa parte dos pais, ele se supera, sendo muito dorminhoco desde que nasceu. Mesmo quando acorda, é tranquilo, sem muito estardalhaço. Frequentemente chego ao seu quarto e o encontro no berço, acordado, apenas brincando com alguma coisa ou em pé segurando nas grades, esperando alguém para pegá-lo.

Então, não estou tentando ser engraçado quanto digo que a única coisa que sei fazer direito são filhos. Aliás, sendo mais justo, devo muito da preciosidade dos filhos à sua mãe. Nem digo estas coisas por hoje também ser o Dia Internacional da Mulher, mas porque, como disse no primeiro aniversário da Sofia, Tati já nasceu mãe, já nasceu mulher, madura. Meu trabalho basicamente é não atrapalhar, orar para que se pareçam menos comigo (em qualquer aspecto) e mais com ela. Resumindo: que eu não os estrague.

Isso tudo, por fim, me leva a achar, apenas achar, ter uma leve impressão de que o dia 8 de março é ainda mais importante para mim, hoje.

Por isso, um feliz aniversário, Artur. Daqui a alguns anos, quando ler isso aqui, peço desculpas por ter sido tão imbecil em esperar, mesmo que por pouco tempo, alguém que não fosse exatamente como você é, para ser irmão da Sofia, para ser nosso filho. Você é bem mais do que eu sequer imaginava, seu pentelho fofo sem vergonha.

E – aproveitando – às mulheres, Sofia, Tati e minha mãe (agradeço a Deus todos os dias pela Sofia se parecer em todos os sentidos contigo, mamãe), um feliz Dia Internacional da Mulher.

Conversa de pai, Diversos, Nada de Cinema, Rapidinha

Hereditariedade zero, amém!

– Papai, deixa eu falar?

O pneu do carro havia furado na Av. 9 de julho, perto do Itaim, logo depois de eu ter deixado a esposa no trabalho. Isso não seria complicado, não estivessem meus dois filhos no banco de trás; Sofia com 4 anos comemorados há duas semanas, e Artur, prestes a completar seu primeiro aniversário.

Para piorar, Sofia queria ir ao banheiro (“número 1, sem picles”) e Artur, também (“número 2, capricha no molho”). Mas como ele usa fraldas, o seu tempo entre querer e fazer gira em torno de 2 a 3 segundos, logo ali mesmo o fez. A sorte voltou, depois de me abandonar às traças, e o objeto não identificado no pneu tinha um tipo de “cabeça” que não deixava o ar escapulir tão rapidamente. Percebi que poderia ir para casa, onde seria mais fácil colocar o estepe.

É a quarta vez que eu tenho problema com carro. A primeira com Artur e a segunda com a Sofia – a primeira foi em plena Cidade Jardim, com a bateria morta sem chances de ressurreição, num dia em que choviam oceanos em São Paulo. Não sei quem já passou por isso, mas é terrível. É uma situação comum, claro, nada demais, mas que causa um desconforto incomum quando se está sozinho com os filhos. Você se sente culpado por ter deixado aquilo acontecer, fica pensando onde errou, como irá fazer, quem irá chamar, se há alguém para ajudar, se as crianças estarão com fome, sede. No fim, bem verdade, quando tudo se resolve, nota que nem sequer perceberam o que aconteceu, mas até lá…

Cheguei em casa apartamento, fiz o que tinha que fazer com as crianças, peguei alguns brinquedos de morder, uns papéis e lápis de cor para a Sofia colorir nas escadas perto do carro, desci com eles e coloquei o Artur no bebê-conforto num lugar onde pudesse me ver (deixá-lo engatinhando na garagem do condomínio não me parecia a melhor das ideias).

Era 1h da tarde, sol bombando, cabeça quente e doendo (dói todo fim de semana, quando não tomo café) e com o aniversário do Guga (meu sobrinho) começando às 14h. Sem falar que, antes de ir para a festa, eu precisaria ainda dar um banho no Artur e alimentá-lo. Por estar trocando pneu, eu também teria que tomar banho.

Bom, depois de bagunçar tudo o que estava no porta-malas, buscando o estepe, vi que este fica embaixo do porta-malas, do lado de fora. Ainda assim, anos se passaram até eu conseguir tirar a roda dali. Sou um asno neste assunto, já devem ter notado, mas eu teria cerca de 50 ideias de lugares e formas mais simples para prender a roda reserva sem ter que sujar até o sovaco. Tinha jogado duas horas de futebol pela manhã, suficientes para deixar qualquer sedentário nato como eu com coordenação motora e força muscular debilitadas. E assim, desprovido de qualquer energia, fui tentar desparafusar a roda.

Acredito que em partos normais de crianças acima de 5 kg, a mulher faça força similar a que eu fazia – ou imaginava estar fazendo. Tive a impressão de que se fizesse um pouco mais de força, eu teria mais um filho ali mesmo. Cansei e me sentei no chão, com os braços sobre as pernas, suando sangue. Sofia, que estava perto, pedindo para me ajudar o tempo inteiro, e eu negando (preocupado em mantê-la numa distância segura do carro), chegou mais perto, olhou para mim e disse:

– Papai, deixa eu falar?

– Fala, Sofia.

– Tenta com o pé.

Olhei para ela, sorrindo e com os olhos brilhando (um pouco por querer chorar, um pouco pela força que estava fazendo, um pouco de felicidade por ela ser muito mais inteligente que eu), e só consegui responder.

– Obrigado, linda. Seu pai é muito lento e você é uma linda.

Foi único eufemismo leve para o mais correto “seu pai é uma anta!”. Consegui desparafusar a roda, é claro.

Menina esperta.

Conversa de pai, Diversos, Nada de Cinema, Opinião

Uma consulta perfeita

– Número 003!

– Opa, nossa vez. Sofia e Artur, venham!

– Olá, eu sou o Dr. Paulo. Prazer!

– Tati, Sofia, Artur. E eu sou o Fagner. Prazer é nosso.

– Wagner?

– Não. Fagner com “F” de faca.

– Hmm. Igual ao cantor? Sabe cantar também?

– Sim. Quer dizer, “sim” para a parte do igual ao cantor. E “não”, não sei cantar.

– Que filhos lindos!

– Muito obrigado.

– Podem se sentar.

– Dr. Paulo, já adianto que é um tanto quanto incomum o que vamos te falar.

– Fique à vontade.

– Ontem à tarde, fomos ao parque Villa-Lobos. Brincamos um pouco e tal, até que começou a chover. Aí, pedimos ao Artur que parasse de jogar bola, para não se machucar. Mas sabe como é criança nessa idade…

– Ele tem quantos anos?

– 7 anos. Então, não deu outra. Foi dar uma arrancada e acabou escorregando. Caiu igual a uma jaca. Aí vem a parte bizarra. Entrei na quadra pra ajudá-lo, ver se estava tudo bem, quando, do nada, me deu uma puta dor no braço.

– Há um bom tempo vocês não vêm ao hospital, né?

– Sim, sim. Aí, com certa dificuldade consegui levantá-lo. Em questão de segundos, ele já estava bem e só não continuou jogando bola, porque a mãe fez uma proposta irrecusável (só um terrorismo psicológico, envolvendo um cavalo decepado, baldes de sangue e louça suja). Só quando voltei para o carro, pude perceber que meu braço, além de muito dolorido, estava suavemente torto. Mas resolvi deixar pra lá, achando que uma hora ou outra iria voltar ao normal. Enfim, não aguentei a dor e hoje pela manhã, vim para hospital.

– Está com o Raio-X?

– Aqui está. O senhor pode aproveitar e me receitar um remédio para febre e dor de cabeça? E um de tosse para minha esposa.

– O senhor está com dor de cabeça e febre?

– É, até pensei que devia ser algum reflexo desse lance do braço, mas me lembro de ter sentido fortes dores de cabeça ontem cedo, mas como é comum eu ter dor de cabeça, nem dei bola. Agora, a febre deve ser por causa do braço, né?

– Talvez. E a tosse da senhora?

– Então, acho que estou resfriada. Começou também essa noite. Mas antes que pergunte, não, eu não tomei chuva. Estava com um guarda-chuva no carro…

– E a sua filha Sofia? Perdoem o trocadilho.

– Ela está bem.

– Não, quero dizer ela tomou chuva?

– Sim, tomou, estava com algumas amigas, brincando de patins, mas ela está bem.

– Ok, muito bem. Comecemos pelo Artur…

– Artur?

– Isso. Infelizmente, seu filho fraturou o braço.

– Desculpa? O senhor quis dizer eu, Fagner, certo? Prossiga.

– Não, o Artur mesmo. Mas não se preocupem, pois não é nada grave. Em uns 30 dias, ele já estará recuperado. Só teremos que colocar o braço do senhor no lugar e engessá-lo.

– Oi?

– Não souberam dos últimos avanços da medicina, suponho. Deve ter sido este tempo longe dos hospitais.

– Sim, claro, acredito que tenha avançado, mas o senhor só está confundindo os nomes. Apesar de meu filho Artur ter caído, ele não quebrou nenhum membro. Veja, é meu braço que está torto.

– Vamos lá. Nós médicos, juntamente com cientistas e em parceria com Jesus Cristo, até porque era necessária sua participação de forma direta…

– Espera. Jesus? Tipo “o” Jesus. Do céu e tal?

– Esse. Nós fizemos uma pequena alteração em questões que envolvem dor, mal estar ou algo parecido nas crianças abaixo de 12 anos. Até porque, depois disso, já adolescentes eles têm mais é que sofrer mesmo.

– Tem alguma câmera aqui? É algum tipo de piada?

– Sr. Wagner, não brinco com coisa séria nem com nada envolvendo qualquer nome celestial. Posso continuar?

– Desculpa, quer que eu finja que estou acreditando ou prefere que eu continue com essa cara de cínico?

– Como quiser. Fato é que as crianças não mais sentem fortes dores, mas apenas uma pequena, suficiente para aprenderem e não repetirem mais.

– A-han. Então, segundo sua ideia mirabolante, esta tosse da minha esposa deve ser da chuva que a Sofia tomou ontem.

– Acredito que sim. Mas o que mais me preocupa é esta febre e dor de cabeça. O senhor tem vomitado?

– Não. Ás vezes, eu vomito por ter comido demais. Fico sentado comendo e, só quando me levanto, percebo que comi mais do que deveria.

– Mas de anteontem pra hoje, alguma vez?

– Não.

– Bom, de todo modo, teremos que retirar líquor do senhor, apenas para eliminar que seus filhos estejam com alguma coisa mais grave. É uma agulha um pouco grossa. Vão enfiar na medula do senhor e recolher este líquido. Vai doer bastante. Tome esta via, leve para a enfermeira na terceira porta do corredor à esquerda e ela te encaminha para o setor responsável por este procedimento.

– COF! COF! COF! COF!

– Seria excelente essa história toda…

– COF! COF! COF! COF!

– Que história?

– …mas, apesar de fazer muito sentido, tenho certeza de que deve ter bebido mais do que deveria, doutor!

– Doutor?

– COF! COF! COF! COF! COF! COF!

– Isso. Conheço bem de hospital. Até os primeiros anos da Sofia, eu costumava ir semp…

– Está ficando doido, Fá?

– Hmm? A voz do senhor costuma ficar fina assim do nada, doutor!

– Fá. Ei! Fá! Fagner!?

– Hmm?

– Acorda! A Sofia continua tossindo. Esse tempo seco maldito. Fá, Fá! ACORDA!

– Oi!

– A Sofia. Temos que fazer alguma coisa. Ela não para de tossir.

– Eu sei, eu sei. Vamos colocar um balde de água lá de novo. O umidificador de ar chega essa semana.

– Estava sonhando?

– Sim.

– Com o quê?

– Deixa pra lá. Volte a dormir. Pode deixar que vou no quarto dela.