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Um ano de Artur

(Viu Um Ano de Sofia?)

 

Quando a médica disse, na sala de ultrassom, é um menino, percebi que eu tinha uma certa preferência por menina. Fiquei surpreso tanto pelo fato de ser um filho homem, quanto por ter havido essa surpresa.

Afinal, ter uma menina era algo que eu conhecia, já tinha dado certo (demais), saberia por onde andar ou, pelo menos, poderia errar menos. Se você tivesse uma filha como a Sofia e tivesse esperando mais um rebento, muito provavelmente iria me entender. É inevitável.

Pairava, inclusive, desde o início da gravidez, uma dúvida: iríamos gostar dele tanto quanto dela? Racionalmente, eu sabia que sim, porque todo mundo aprende que os pais amam aos filhos igualmente – independente de ter mais afinidade com um ou com outro. Emocionalmente, porém, era meio improvável amar mais um, como se meu coração de pai estivesse maciçamente preenchido pela Sofia e viesse alguém dizendo: “Oi, tudo bem? Prazer te conhecer! Agora empurra a Sofia um pouco para o lado, isso, aperta aí um pouco mais, isso, só mais um pouquinho, obrigado”. Podia até ouvir a Sofia gritando “papai, eu estou caindo aqui, não tá vendo?”.

Claro que depois de alguns minutos, eu já estava muito feliz com a ideia e via inúmeras vantagens de ter um moço; não iria querer matar mais filhos dos outros quando namorassem minha filha, não iria ter vontade de me suicidar em mais um casamento, não iria chorar nu em posição fetal no chão frio do banheiro nas noites que elas saíssem para dormir fora etc. Falando sério, é alguém igual a mim, em importantes aspectos, com grandes chances de passar por muita coisa que eu já passei. Sofrer com o que eu sofri, machucar, aprender, ensinar. É como aconselhar e ajudar o filho com mais propriedade, conhecendo mais do assunto. Enfim, ser mais útil.

Há exatamente um ano, quando finalmente chegou o menino, já com o nome de Artur, via a criança mais doce que já conheci. Linda. Aquela dúvida de amar tanto quanto a irmã mais velha, aos poucos, foi se mostrando cada vez mais idiota. Aquele coração, aparentemente preenchido, parece ter se duplicado, dia após dia, ou como se naquele mesmo espaço, Sofia e Artur estivessem se misturando homogeneamente.

Ingênuo de tudo, eu imaginava querer alguém como a Sofia. No entanto, fui percebendo que os dois são extrema e maravilhosamente diferentes. Eles se complementam nos mínimos detalhes. É o sereno com a serelepe. O dependente Artur, a invariavelmente independente Sofia. O preguiçoso, a ansiosa, o passivo, a hiperativa. E mesmo ainda novos, estas diferenças são cada vez mais perceptíveis (ao dar o leite para Sofia, por exemplo, nessa mesma idade, ela tirava a nossa mão para segurar sozinha a mamadeira; o mocinho, assim que encostamos para mudá-la de posição, já solta).

E quando digo que meu filho é doce, não é exagero, tampouco corujismo. Para rir, o Artur basta estar acordado. Claro, vez ou outra, podemos vê-lo chorando, mas provavelmente estará com fome ou então a mãe chegou do trabalho e ainda não o pegou no colo. Não é raro passar um dia sem escutar um choro ou reclamação sua. Até olhando um outro aspecto que preocupa boa parte dos pais, ele se supera, sendo muito dorminhoco desde que nasceu. Mesmo quando acorda, é tranquilo, sem muito estardalhaço. Frequentemente chego ao seu quarto e o encontro no berço, acordado, apenas brincando com alguma coisa ou em pé segurando nas grades, esperando alguém para pegá-lo.

Então, não estou tentando ser engraçado quanto digo que a única coisa que sei fazer direito são filhos. Aliás, sendo mais justo, devo muito da preciosidade dos filhos à sua mãe. Nem digo estas coisas por hoje também ser o Dia Internacional da Mulher, mas porque, como disse no primeiro aniversário da Sofia, Tati já nasceu mãe, já nasceu mulher, madura. Meu trabalho basicamente é não atrapalhar, orar para que se pareçam menos comigo (em qualquer aspecto) e mais com ela. Resumindo: que eu não os estrague.

Isso tudo, por fim, me leva a achar, apenas achar, ter uma leve impressão de que o dia 8 de março é ainda mais importante para mim, hoje.

Por isso, um feliz aniversário, Artur. Daqui a alguns anos, quando ler isso aqui, peço desculpas por ter sido tão imbecil em esperar, mesmo que por pouco tempo, alguém que não fosse exatamente como você é, para ser irmão da Sofia, para ser nosso filho. Você é bem mais do que eu sequer imaginava, seu pentelho fofo sem vergonha.

E – aproveitando – às mulheres, Sofia, Tati e minha mãe (agradeço a Deus todos os dias pela Sofia se parecer em todos os sentidos contigo, mamãe), um feliz Dia Internacional da Mulher.

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Hereditariedade zero, amém!

– Papai, deixa eu falar?

O pneu do carro havia furado na Av. 9 de julho, perto do Itaim, logo depois de eu ter deixado a esposa no trabalho. Isso não seria complicado, não estivessem meus dois filhos no banco de trás; Sofia com 4 anos comemorados há duas semanas, e Artur, prestes a completar seu primeiro aniversário.

Para piorar, Sofia queria ir ao banheiro (“número 1, sem picles”) e Artur, também (“número 2, capricha no molho”). Mas como ele usa fraldas, o seu tempo entre querer e fazer gira em torno de 2 a 3 segundos, logo ali mesmo o fez. A sorte voltou, depois de me abandonar às traças, e o objeto não identificado no pneu tinha um tipo de “cabeça” que não deixava o ar escapulir tão rapidamente. Percebi que poderia ir para casa, onde seria mais fácil colocar o estepe.

É a quarta vez que eu tenho problema com carro. A primeira com Artur e a segunda com a Sofia – a primeira foi em plena Cidade Jardim, com a bateria morta sem chances de ressurreição, num dia em que choviam oceanos em São Paulo. Não sei quem já passou por isso, mas é terrível. É uma situação comum, claro, nada demais, mas que causa um desconforto incomum quando se está sozinho com os filhos. Você se sente culpado por ter deixado aquilo acontecer, fica pensando onde errou, como irá fazer, quem irá chamar, se há alguém para ajudar, se as crianças estarão com fome, sede. No fim, bem verdade, quando tudo se resolve, nota que nem sequer perceberam o que aconteceu, mas até lá…

Cheguei em casa apartamento, fiz o que tinha que fazer com as crianças, peguei alguns brinquedos de morder, uns papéis e lápis de cor para a Sofia colorir nas escadas perto do carro, desci com eles e coloquei o Artur no bebê-conforto num lugar onde pudesse me ver (deixá-lo engatinhando na garagem do condomínio não me parecia a melhor das ideias).

Era 1h da tarde, sol bombando, cabeça quente e doendo (dói todo fim de semana, quando não tomo café) e com o aniversário do Guga (meu sobrinho) começando às 14h. Sem falar que, antes de ir para a festa, eu precisaria ainda dar um banho no Artur e alimentá-lo. Por estar trocando pneu, eu também teria que tomar banho.

Bom, depois de bagunçar tudo o que estava no porta-malas, buscando o estepe, vi que este fica embaixo do porta-malas, do lado de fora. Ainda assim, anos se passaram até eu conseguir tirar a roda dali. Sou um asno neste assunto, já devem ter notado, mas eu teria cerca de 50 ideias de lugares e formas mais simples para prender a roda reserva sem ter que sujar até o sovaco. Tinha jogado duas horas de futebol pela manhã, suficientes para deixar qualquer sedentário nato como eu com coordenação motora e força muscular debilitadas. E assim, desprovido de qualquer energia, fui tentar desparafusar a roda.

Acredito que em partos normais de crianças acima de 5 kg, a mulher faça força similar a que eu fazia – ou imaginava estar fazendo. Tive a impressão de que se fizesse um pouco mais de força, eu teria mais um filho ali mesmo. Cansei e me sentei no chão, com os braços sobre as pernas, suando sangue. Sofia, que estava perto, pedindo para me ajudar o tempo inteiro, e eu negando (preocupado em mantê-la numa distância segura do carro), chegou mais perto, olhou para mim e disse:

– Papai, deixa eu falar?

– Fala, Sofia.

– Tenta com o pé.

Olhei para ela, sorrindo e com os olhos brilhando (um pouco por querer chorar, um pouco pela força que estava fazendo, um pouco de felicidade por ela ser muito mais inteligente que eu), e só consegui responder.

– Obrigado, linda. Seu pai é muito lento e você é uma linda.

Foi único eufemismo leve para o mais correto “seu pai é uma anta!”. Consegui desparafusar a roda, é claro.

Menina esperta.

Uma consulta perfeita

– Número 003!

– Opa, nossa vez. Sofia e Artur, venham!

– Olá, eu sou o Dr. Paulo. Prazer!

– Tati, Sofia, Artur. E eu sou o Fagner. Prazer é nosso.

– Wagner?

– Não. Fagner com “F” de faca.

– Hmm. Igual ao cantor? Sabe cantar também?

– Sim. Quer dizer, “sim” para a parte do igual ao cantor. E “não”, não sei cantar.

– Que filhos lindos!

– Muito obrigado.

– Podem se sentar.

– Dr. Paulo, já adianto que é um tanto quanto incomum o que vamos te falar.

– Fique à vontade.

– Ontem à tarde, fomos ao parque Villa-Lobos. Brincamos um pouco e tal, até que começou a chover. Aí, pedimos ao Artur que parasse de jogar bola, para não se machucar. Mas sabe como é criança nessa idade…

– Ele tem quantos anos?

– 7 anos. Então, não deu outra. Foi dar uma arrancada e acabou escorregando. Caiu igual a uma jaca. Aí vem a parte bizarra. Entrei na quadra pra ajudá-lo, ver se estava tudo bem, quando, do nada, me deu uma puta dor no braço.

– Há um bom tempo vocês não vêm ao hospital, né?

– Sim, sim. Aí, com certa dificuldade consegui levantá-lo. Em questão de segundos, ele já estava bem e só não continuou jogando bola, porque a mãe fez uma proposta irrecusável (só um terrorismo psicológico, envolvendo um cavalo decepado, baldes de sangue e louça suja). Só quando voltei para o carro, pude perceber que meu braço, além de muito dolorido, estava suavemente torto. Mas resolvi deixar pra lá, achando que uma hora ou outra iria voltar ao normal. Enfim, não aguentei a dor e hoje pela manhã, vim para hospital.

– Está com o Raio-X?

– Aqui está. O senhor pode aproveitar e me receitar um remédio para febre e dor de cabeça? E um de tosse para minha esposa.

– O senhor está com dor de cabeça e febre?

– É, até pensei que devia ser algum reflexo desse lance do braço, mas me lembro de ter sentido fortes dores de cabeça ontem cedo, mas como é comum eu ter dor de cabeça, nem dei bola. Agora, a febre deve ser por causa do braço, né?

– Talvez. E a tosse da senhora?

– Então, acho que estou resfriada. Começou também essa noite. Mas antes que pergunte, não, eu não tomei chuva. Estava com um guarda-chuva no carro…

– E a sua filha Sofia? Perdoem o trocadilho.

– Ela está bem.

– Não, quero dizer ela tomou chuva?

– Sim, tomou, estava com algumas amigas, brincando de patins, mas ela está bem.

– Ok, muito bem. Comecemos pelo Artur…

– Artur?

– Isso. Infelizmente, seu filho fraturou o braço.

– Desculpa? O senhor quis dizer eu, Fagner, certo? Prossiga.

– Não, o Artur mesmo. Mas não se preocupem, pois não é nada grave. Em uns 30 dias, ele já estará recuperado. Só teremos que colocar o braço do senhor no lugar e engessá-lo.

– Oi?

– Não souberam dos últimos avanços da medicina, suponho. Deve ter sido este tempo longe dos hospitais.

– Sim, claro, acredito que tenha avançado, mas o senhor só está confundindo os nomes. Apesar de meu filho Artur ter caído, ele não quebrou nenhum membro. Veja, é meu braço que está torto.

– Vamos lá. Nós médicos, juntamente com cientistas e em parceria com Jesus Cristo, até porque era necessária sua participação de forma direta…

– Espera. Jesus? Tipo “o” Jesus. Do céu e tal?

– Esse. Nós fizemos uma pequena alteração em questões que envolvem dor, mal estar ou algo parecido nas crianças abaixo de 12 anos. Até porque, depois disso, já adolescentes eles têm mais é que sofrer mesmo.

– Tem alguma câmera aqui? É algum tipo de piada?

– Sr. Wagner, não brinco com coisa séria nem com nada envolvendo qualquer nome celestial. Posso continuar?

– Desculpa, quer que eu finja que estou acreditando ou prefere que eu continue com essa cara de cínico?

– Como quiser. Fato é que as crianças não mais sentem fortes dores, mas apenas uma pequena, suficiente para aprenderem e não repetirem mais.

– A-han. Então, segundo sua ideia mirabolante, esta tosse da minha esposa deve ser da chuva que a Sofia tomou ontem.

– Acredito que sim. Mas o que mais me preocupa é esta febre e dor de cabeça. O senhor tem vomitado?

– Não. Ás vezes, eu vomito por ter comido demais. Fico sentado comendo e, só quando me levanto, percebo que comi mais do que deveria.

– Mas de anteontem pra hoje, alguma vez?

– Não.

– Bom, de todo modo, teremos que retirar líquor do senhor, apenas para eliminar que seus filhos estejam com alguma coisa mais grave. É uma agulha um pouco grossa. Vão enfiar na medula do senhor e recolher este líquido. Vai doer bastante. Tome esta via, leve para a enfermeira na terceira porta do corredor à esquerda e ela te encaminha para o setor responsável por este procedimento.

– COF! COF! COF! COF!

– Seria excelente essa história toda…

– COF! COF! COF! COF!

– Que história?

– …mas, apesar de fazer muito sentido, tenho certeza de que deve ter bebido mais do que deveria, doutor!

– Doutor?

– COF! COF! COF! COF! COF! COF!

– Isso. Conheço bem de hospital. Até os primeiros anos da Sofia, eu costumava ir semp…

– Está ficando doido, Fá?

– Hmm? A voz do senhor costuma ficar fina assim do nada, doutor!

– Fá. Ei! Fá! Fagner!?

– Hmm?

– Acorda! A Sofia continua tossindo. Esse tempo seco maldito. Fá, Fá! ACORDA!

– Oi!

– A Sofia. Temos que fazer alguma coisa. Ela não para de tossir.

– Eu sei, eu sei. Vamos colocar um balde de água lá de novo. O umidificador de ar chega essa semana.

– Estava sonhando?

– Sim.

– Com o quê?

– Deixa pra lá. Volte a dormir. Pode deixar que vou no quarto dela.

Ela é demais

Não poderia ser coisa só da minha cabeça. Apesar de muito coruja, algumas coisas na Sofia não pareciam ser normais nem muito comuns às outras pessoas. E neste último domingo, na programação do dia dos pais na sua Escolinha, eu tive mais uma das muitas provas de que ela é, sim, um absurdo.

Voltando um pouco a fita… A ida para a escola antes dos sete anos de idade nunca me pareceu uma boa ideia. Não sei se estou exagerando, mas é um dos momentos-chave da vida do ser humano, pois dali só se sairá depois de, no mínimo, 15 anos. É ali onde vai aprender a se relacionar com o mundo, com professores, com o outro, com a adversidade, na prática – e nada de fazer piadinhas sobre outras coisas que ela vai aprender, ok? Mas tão, ou mais relevante que estas coisas, é o fato de que uma parte da educação agora se encontra em outras mãos. Nas mãos da professora, da instituição e (por que não?) dos pais das outras crianças. Sem falar naquele nó na garganta (ou “naganta”, como Sofia prefere falar) em forma de frase: minha filha está crescendo.

Porém, com a chegada de Artur, que divide o posto de criatura mais linda do mundo com sua irmã, foi inevitável matricular a pequena na Escola Modelo do UNASP, campus I. Então, o motivo de chorar ao vê-la entrando na escolinha no dia 31 de julho, era justamente por causa deste emaranhado de sentimentos e pensamentos que me passavam pela cabeça naquele instante. Mas, como racionalmente já sabia, mesmo neste pouco tempo, aquele novo mundo já fez bem à minha princesa que, mais do que antes, está se desenvolvendo a olho nu. Sem perder, no entanto, sua essência.

Na sexta-feira antes do dia dos pais, a escola já começou jogando baixo, fazendo a Sofia me entregar um coraçãozinho com gravata e uma arte by Sofia na parte de dentro. Já tive falência múltipla dos órgãos. Descobri, logo depois, que a programação seria no domingo seguinte ao dia dos pais. E já comecei um tratamento para não passar mal e estragar a festa, afinal, até um total desconhecido poderia olhar para mim e dizer “esse aí é chorão, hein?”. Sem fugir do assunto, mas para mostrar o quanto isto é possível, já chorei de soluçar num ônibus, depois de ler um trecho de “Um Dia”, no ano passado.

Sofia, inclusive, enquanto o dia não chegava, deixava escapulir uma ou outra parte da música que iria cantar. Isso já me fazia brilhar os olhos. Eu mesmo pedia para parar, porque era surpresa.

Até que chegou o dia.

Como é comum na família Aleluia, chegamos um pouco atrasados e os pais já estavam no meio da quadra do ginásio, sentados, enquanto alguém falava alguma coisa que jamais seria compreendida naquela acústica típica de ginásio. Sentamos e, depois de pouco tempo, chegou a hora da música de homenagem aos pais, “O Meu Pai é Meu Herói”. Mais um jogo baixo.

As crianças, em fila indiana, foram para frente fazendo um grande coral. Sofia ficou na frente, à esquerda, ao lado da fofíssima Maria Lara, sua amiga desde que nasceu. A Mamãe Tati logo se prontificou a registrar o momento e foi ficar mais perto do coral. De longe, vi Sofia falar alguma coisa para Mamãe, parecia procurar alguma coisa. Olhei para Tati, que mexeu os lábios, “Sofia te quer aqui mais perto”.

Aí comecei a parar de enxergar, as lágrimas doidinhas para cair embaçaram meus olhos, mas fui forte, “não seja tão previsível, Fagner”, dizia para mim mesmo. Não caíram. Não ainda. Fui mais para frente, onde ela conseguisse me enxergar, perto da Mamãe que, esperta, já me avisou “não chora, ela pode pensar que não está gostando”. “Vou tentar”.

Mal sabia eu que o motivo da Sofia me querer por perto era para justamente me olhar. Não em alguns momentos específicos, mas durante a música inteira. Um olhar diferente. Conversamos, sem dizer uma só palavra, até a canção acabar. Posso estar enganado em achar que ela foi a única a olhar para o pai o tempo inteiro. Com 3 segundos de música, eu já não via mais ninguém, só ela – e ela, somente a mim.

– Ei, pai, eu estou bem.

– Certeza, mocinha? Mas e essa professora, ela te trata bem? Você tem comido bem, quando está na escolinha? Alguém te tratou mal longe de casa? E essas amiguinhas, Gabi, Ana Júlia, são legais? Quem é este tal de Victor, de quem você fala de vez em quando?

– Pai, eu estou bem.

– Tenho sido presente o suficiente? Desculpa ser bravo de vez em quando? Desculpa não saber o que fazer, às vezes. Desculpa se fui impaciente.

– Pai, eu te amo.

– Também te amo, pentelha. Muito.

Não dissemos. Sentimos.

No fim da música e com as crianças saindo, Sofia deixou a fila e correu para me abraçar. E dessa vez, falando.

– Te amo, papai!

– Te amo também, guria!

E inspirada pelo filme “Enrolados”, ela respondeu:

– Te amo muito mais!

Duvido, mocinha.

Confissões de um (quase) Tiozão

Tenho uma vaga lembrança da última vez que havia saído, como dizem por aí, “de balada”. Acho que foi no Bárbaro (ou se diz Barbarô?) na Vila Olímpia, há uns três anos. Foi, até onde me consta, por causa do aniversário de uma amiga da minha então namorada Tati – hoje, esposa. Provavelmente, as outras oito das dez vezes que saí assim na vida, foram por motivo similar. E no último sábado, por igual circunstância, fui à Marcenaria, barzinho-balada, localizado na Fradique Coutinho, para onde curiosamente já havia ido, tempos atrás, a um… aniversário.

(O que se segue em nada tem a ver com o aniversariante, amigo muito querido e dos mais engraçados que conheci na vida. Não se trata também de algum tipo de preconceito com aqueles que frequentam estes lugares, de maneira alguma. Ademais, toda regra traz uma exceção na manga, então, desculpa qualquer generalização. Dito isso…)

Eu odeio balada. Nunca me senti confortável nestes ambientes. Isto, em grande parte, por conta de algumas verdades absolutas a meu respeito. Primeira delas: não sei dançar. E não digo isso como aquele cara de filme que diz a mesma coisa e, depois de muita insistência da mocinha, cede e se descobre um verdadeiro Fred Astaire. Não. Eu realmente sou irremediavelmente desprovido de qualquer coordenação motora para este tipo de exercício físico. Mesmo quando faço isso brincando (em casa, com minha filha, certo de que não há qualquer possibilidade de alguém estar filmando), minha cintura não cogita acompanhar o que meu cérebro pede, meus pés não tem ritmo algum e se batem um com o outro. É vergonhoso.

Segunda verdade sobre mim, citando agora um dos grandes motivos de alguns irem a estes lugares: nunca tive o menor interesse em beijar uma desconhecida – claro, falo da época que isto faria sentido, ou seja, quando estava solteiro. Não tenho nada contra quem tem ou tinha esse costume, só é uma característica minha. Simplesmente não me atrai essa ideia. Terceiro, eu não bebo. Por último, tenho um estranho costume de odiar ficar em pé à toa. Não tenho muito prazer em ficar cansado, é sério, e nestes lugares dificilmente existe lugar para se sentar e quando há, já estão ocupados. Tem mais motivos, mas fico por aqui, acho que já deu para entender. Sou do tipo que prefere os lugares onde posso conversar sem precisar gritar no ouvido do outro, como um barzinho ou lanchonete. Nos shows, citando algo que gosto, mesmo com música alta, não converso nem tenho interesse em dialogar com alguém. Eu quero ouvir a música, assim como no cinema eu quero assistir ao filme.

Voltando à noite de sábado, vamos por partes. Cheguei ao local, entrei, recebi a devida bulinada do segurança, passei por outro que indicou onde aquele papel recebido na entrada deveria ser entregue, entreguei ao caixa que, por sua vez, me deu a comanda, informando, sem nenhum pedido de desculpas, que a entrada era R$55 consumação. Para alguém que já havia comido, não havia vantagem em ser de consumação. Para quem odeia estes lugares, é um gasto inútil. Para aquele que com essa grana prefere comprar o terceiro volume de “Peanuts Completo”, muito desnecessário. Para o que veio da Zona Sul, injustiça. Para um desempregado, é muito sem noção. Então, para quem se encaixa em todas as alternativas acima, uma puta burrice. Soma-se ainda a da minha esposa e já são mais de R$100, contando o estacionamento que parou no século 20 e não aceitava cartão de débito, mesmo custando R$15.

Entrei, desejei as devidas e sinceras felicitações ao aniversariante, cumprimentei aos demais e, logo na entrada, tive uma bela surpresa: um kiosque de comida japonesa. Ali, consumiria meus R$50 (R$5  ficaria para Coca-Cola). Mas esta não seria a única surpresa da noite – ok, talvez tenha sido uma das poucas que me trouxe alegria. Uma banda razoável era a atração do primeiro ambiente e, mais ao fundo, o segundo recinto, ficava a legítima balada. Era um amontoado de pessoas dividas em as que estavam se atracando, as que buscavam se atracar, as que fugiam de algum homem feio demais para beijar mesmo estando bêbadas mais duas ou três pessoas que não estavam em nenhuma destas situações. Felizmente, havia a opção de um lugar mais tranquilo, o camarote, que ficava próximo ao DJ, para onde fui e encontrei, inclusive, um sofá – um oásis, eu diria.

Dali de cima, tinha uma plena visão do local. Tati e eu, inclusive, encontramos nosso passatempo da madrugada – que em outro lugar seria lido como “prestar atenção na vida alheia”, mas prefiro enxergar como “estudo da natureza humana quando em contato com o sexo oposto, com muita bebida e música horrível em ambientes fechados”. Brincamos tentando descobrir em que momento da relação cada casal se encontrava; se namoro, ficada, se eram desconhecidos, casados, se a pessoa estava gostando dali, se era a primeira vez, se aconteceria “aquela” primeira vez ou se estava rolando a primeira vez, ali mesmo. Em tom de brincadeira, mas com um toque de preconceito, disse a um amigo solteiro que estava junto “venha dar uma olhada, sua futura namorada deve estar aqui em algum lugar, pode procurar”.

Falando sério, a coisa estava feia. Na verdade, a coisa costuma ser feia nestas casas. E funciona daquele jeito, para muitos. Para se ter uma ideia, num determinado momento, o DJ disse alguma coisa que não consegui entender, mas que trouxe uma histeria a todos, e as mulheres subiram no balcão do bar e munidas de microssaias dançaram “Loca” da Shakira, enquanto os da testosterona se posicionavam estrategicamente logo abaixo – e ali ficaram por mais algumas músicas. Segundos depois das garotas terem subido, o barman as acompanhou, dançando com uma de cada vez ou com várias de cada vez. Depois disso, a noite melhorou, quando saímos dali e voltamos ao ar puro. As cadeiras do lado de fora se esvaziaram e pudemos sentar perto de onde sairiam os nossos temakis. E aí então, ficamos conversando com o aniversariante e o Sam até o fim da noite.

Vim para casa, e algumas cenas continuaram na minha cabeça, me fazendo refletir bastante, trazendo um sentimento triste e de preocupação. Antes que clamem, não sou santo, aliás, passo bem longe disso e não sou ingênuo, sei muito bem que há lugares piores que este. Talvez ser pai colabore para tais pensamentos. Não por ser pai de menina, mas por ser pai (ponto). Geralmente, imaginamos características que a criança, quando mais velha, poderia ter, sem ser aquelas básicas, saudável e educada, por exemplo. Mas outras mais específicas, como estudiosa, viciada em filmes ou livros ou quadrinhos. Ou mesmo coisas mais fúteis, quem sabe gostar de determinado seriado ou time, música, desenho, revista, canal etc. E não haverá decepção nenhuma se ela não ser alguma destas coisas. De forma alguma.

Neste sábado, porém, eu descobri uma das coisas que ela poderia não ser. E não é questão de certo ou errado, é de preferência, de gosto. Se posso achar vergonhoso alguém gostar de Funk, posso achar vergonhoso algumas atitudes que se vê em ambientes como este e posso também escolher ficar longe disso. Posso ser bastante sincero? A verdade é que não me sentiria feliz se encontrasse minha filha se expondo de tal maneira – nem meu filho (se tivesse um) se aproveitando de alguma menina por ela estar bêbada.

Finalmente, pretendo não retornar a um lugar como este – e devo conseguir realizar este desejo, pelo menos até um próximo aniversário. Justamente por não me acrescentar em nada, por não me servir em aspecto algum, e também por ali estar repleto de gente que se esforça bastante para provar que a humanidade não deu certo.

Educação Musical


Como todo pai, tenho inúmeras preocupações com minha filha. Todo dia aparece uma nova. A parte curiosa é que penso também, e acho que não sou o único, em algumas questões relativamente triviais quanto ao seu futuro. Esta semana, por exemplo, assistindo ao “Prêmio Multishow”, me veio uma delas, em dose cavalar e bem visual, que atrapalhou o meu sono e não me saiu da cabeça até agora – e não deverá sair tão cedo: como “educar” os ouvidos da minha filha?

É raro no país alguma programação como esta ser minimamente interessante, ainda assim, não sei por que, me vejo assistindo, na esperança de encontrar uma banda legal tocando ou, quem sabe, conhecer uma nova. Mas em meio àquele show de vergonha alheia que foi a premiação, com erros grotescos e textos piores que os roteiros dos filmes do Michael Bay, me assustei (e acredito que todos os outros masoquistas que estavam assistindo ao programa também) com a quantidade de bandas horrendas indicadas, tocando e recebendo prêmios.

Aí vem o pior: eles, assim como em outros programas similares, foram escolhidos, em sua maioria absoluta, pelos adolescentes de hoje. Não sei se culpo os pais, que não deram a devida atenção a este elemento tão importante na vida, que é a música, ou se é 2012 chegando. Prometo que tentei enxergar alguma coisa boa naqueles “músicos”, mas se até cantando as velhas músicas dos Titãs, eles conseguiram causar náusea, imagine as de autoria própria. Aproveitei para pensar em outros grupos da atualidade que atraem a maioria dos adolescentes. E muitos deles faltam muito pra alcançar o ridículo.

Eu sei que é esta geração. Essa mudança assusta a todos. Meus pais devem ter chorado rios com a chegada de, por exemplo, É o Tchan há mais de uma década, quando era eu o juvenil. Mas o nível está muito mais baixo. As músicas deste grupo baiano, por exemplo, perto do ruído horripilante que chamam de funk no Brasil, é canção de ninar. Se já era assustador ouvir “agora pare, pegue no compasso”, imagine essas letras do funk carioca, que não tenho coragem de reproduzir aqui. Esta ofensa em forma de música, aliás, aparece pouco na TV (amém?), mas elas estão do nosso lado, no trânsito, na praia, na periferia, no centro, quando um imbecil ouve isto no volume máximo. É uma praga que cria nas crianças de 4, 5 anos um vocabulário que deixariam Dercy Gonçalves corada de vergonha – vejo isso nas crianças da ONG onde sou voluntário. Junto comigo, citando outro exemplo, trabalha um menor aprendiz que, ao ser perguntado do que gosta, respondeu feliz da vida “funk e pagode”. Chorei.

Para entender meu desespero, cheguei à conclusão de que seria um sortudo se minha filha, se adolescente nos dias de hoje, preferisse Luan Santana ou Justin Bieber, pra citar alguém “de fora” – onde as opções também não andam interessantes – a NXZero, Cine e derivados. Quem é pai e leva a música um pouco mais a sério, deve imaginar o quanto seria pavoroso imaginar seu filho entrando na Fnac e saindo com um CD do Restart na sacola. É tão triste quanto chegar em casa e ver a criança lendo “Crepúsculo” ou “Gossip Girl” ou ouvi-la cantando “é que às vezes acho que não sou o melhor pra você… só quero que saibâ”.

Meu pai me educou ouvindo Raul Seixas, Queen, Neil Diamond, Flávio Venturini, o velho sertanejo (aquele de verdade, como o do Tião Carreiro e Pardinho, que contavam bonitas histórias em suas letras) etc. Vejo isso como um fator importante na minha educação musical. Sem falar que, por ser caçula, peguei muita carona no som que meu irmão, quando já mais velho, ouvia. Lembro, sim, de encontrar muito lixo, como o pagode, que já infectava nossos ouvidos. Mas assim, filtrando a música que tocava nas rádios mais o que minha família e alguns amigos me apresentavam e outros que descobria sozinho, fui construindo o que gosto de ouvir hoje.

Não sou saudosista. Gosto de Pink Floyd a Björk. Não acho que só as músicas dos anos 60 e 70 prestam. Década de 80 teve coisa excelente (alguém gritou desesperadamente Metallica?), a música do início dos anos 90 também. E algumas das minhas bandas prediletas, Franz Ferdinand, Radiohead, o irlandês Damien Rice e a maravilhosa Regina Spektor, citando poucos exemplos, lançaram álbuns nos últimos anos. Este ano mesmo já descobri grupos sensacionais (já ouviu Mumford and Sons?). E no Brasil, é claro, tem muita gente boa. O que posso dizer de mais nostálgico é que, antigamente, era mais fácil encontrar música boa – ou, então, apenas estas sobreviveram ao tempo e passaram de geração em geração.

O que me intriga é que, mesmo com tantas ótimas opções, velhas ou novas, a maioria da juventude prefere aquilo que agride aos ouvidos. Vivo me perguntando o quanto a educação familiar (ou qualquer outra influência que tenha bom senso), auricular ou não, interfere no gosto imposto pela massa, pela TV, pelas rádios que estão cada vez piores? E nem entro na discussão de quanto o que ouvimos interfere em nossas atitudes, pra não engrossar o caldo.

E, Sofia, que estará lendo isso daqui a alguns anos, não importa o que gostar, não tenha medo, peça qualquer CD (tirando este funk nojento). Claro, papai e mamãe chorarão em posição fetal a noite inteira se for Fiuk (olha esse nome, minha filha!) ou qualquer banda emo, mas o que importa, dizem por aí, é ter saúde. De maneira alguma vou impor aquilo que gosto, até porque todos têm seu lado trash. Papai não é diferente.

Só quero que consiga perceber e, mais importante, sentir o que é uma boa canção – a essa altura já devo ter te mostrado as letras de Bob Dylan e elas não são sensacionais? Descubra, independente de nós, pais e amigos, belas músicas, e assim, aos poucos, crie um vocabulário musical saudável. Não precisa gostar só de Chico Buarque (esse nem conseguirá cantar mais quando você ler isto aqui), mas também não vá dizer que Fresno (essa você nem vai ouvir falar) faz música.

E, não se esqueça, compartilhe o que encontrar de bom. Afinal, hoje, mesmo novinha, já influencia. Ou você acha que só ouço Palavra Cantada e Cocoricó quando está por perto?

Atualização: A foto acima, que encontrei em casa e resolvi adicionar no post, não é recente.

Preocupação de Pai

É constante a preocupação com a educação do filho na vida dos pais. E comigo, apesar de novato no ramo, não é diferente. Cada criança que vejo na rua, fazendo certo ou errado, já começo a imaginar o que devo fazer para chegar àquele nível, quando correto, ou não, quando ruim. Leio livros e revistas, vejo exemplos, analiso minha vida, o que considero ser importante repassar aos meus filhos etc. Tudo isso para tentar achar a minha receita de filho bem educado. A educação, sabemos, é um assunto muito subjetivo e muita coisa foge do controle dos pais, mas vou me ater ao ponto que mais tenho pensado nos últimos dias.

Semana passada, num dos problemas técnicos da CPTM, estava na estação Santo Amaro e a plataforma se encontrava lotada de tal maneira que na escada já era difícil trafegar. Como me acostumei com a situação, a ponto de não mais me estressar, me sentei ali no canto da escada mesmo, desliguei a música do celular (até as 10h da manhã, só consigo processar uma informação de cada vez), peguei a HQ “Sábado dos Meus Amores” e comecei a ler. Alguns (muitos) minutos depois, já estava preparado psicologicamente para pegar aquele típico trem que só o paulistano conhece – que sempre, sempre, sempre mesmo cabe mais alguém. Aliás, tenho impressão de que se o trem fosse até a Guiana Francesa, as pessoas continuariam entrando, mesmo que, para isso, os “passageiros” tivessem que se deitar um em cima do outro para caber mais. Não há limite. Enquanto metade das pessoas estiver respirando, elas continuarão entrando.

E foi neste cenário que, já de dentro do trem vi uma senhora e uma filha de uns nove anos chegando com a mochila nas costas, tentando arranjar um buraco para se enfiarem naquela muvuca sólida – estava mais para mussarela que queijo suíço, sabe? Lógico, no meio de centenas de pessoas, muitas não muito educadas ou gentis, elas não conseguiram entrar.

Naquele instante, pensei na minha filha. E num mix de proteção excessiva com prepotência sem tamanho, prometi a mim mesmo que ela não podia passar por aquilo, como se ela, simplesmente por ser minha filha, fosse melhor que aquela de mochila que acabava de ver – e tantas outras que passam pela mesma situação. Eu sei que devo pensar no melhor para minha filha. E aí é que está. O que é melhor pra ela? Como eu, pai, protetor que sou, vou escolher entre privá-la ou não de dificuldades, confiando que, mesmo no conforto, ela dará valor ao que possuir?

Minha mãe e eu, algumas vezes, acordávamos às 4h da madrugada, quando estávamos na Bahia, para pegar uma van com destino a Cachoeira, cidade mais próxima da vila onde morávamos. O trecho até o ponto que o transporte passava era uma caminhada gigante para uma criança de nove anos. Às vezes, com muita sorte, conseguíamos carona. Já na cidade, pegávamos uma fila, do hospital público. Não me lembro se era eu quem fazia os exames e as consultas ou se minha mãe. Fato é que eu estava numa situação a qual minha filhota, talvez, nunca passará. E cito este fato, porque foi o primeiro que me veio a mente com a idade da menina que vi.

Mas já perto dos dez anos, eu vendia geléia real de casa em casa, “Nosso Amiguinho”, “Vida e Saúde” (revistas para criança e saúde) também, a fim de conseguir uma graninha – para mim, importante dizer, pois meus pais nunca me deixaram faltar comida ou roupa, trabalhando ou não. E isso me fez bem. Devo muito da minha atual postura perante os problema a essa experiência. Graças a isso, eu aprendi a me virar sozinho mais cedo que alguns amigos meus. Mas ainda assim, na adolescência e até hoje, me pego não valorizando o que tenho. Em tempo, comparado a maior parte do Brasil, estes apuros que passei não são nada grandes.

Imagine se eu mantiver a guria numa “bolha” confortável, o risco que ela corre de não entender esse valor. Ver na TV e em documentários ou freqüentar, por exemplo, alguma ONG será suficiente para a Sofia perceber e sentir que tudo o que ela tem muita gente não tem? Mais: intrinsecamente, no meu ponto de vista, valorizar o que me é dado – ou mesmo conquistado por mim – traz naturalmente uma postura ativa de fazer algo pelos que não têm a mesma sorte. Ou deveria trazer.

Conheço pouquíssimas pessoas que tiveram tudo e, mesmo assim, aprenderam essa lição – vou conversar com os pais delas (sério!). Fazer minha filha entender essa ideia é obrigação minha e da mamãe, seja fazendo-a vivenciar algumas dificuldades seja apenas demonstrando estas com palavras e a experiência daqueles que as vivem. Fazê-la entender, repito, porque fazer de fato é sua – e somente sua – responsabilidade.

Achar esse equilíbrio é a solução, penso. Como qualquer pai, imagino diversas características que gostaria de encontrar na minha filha que, claro, não influenciarão no meu amor por ela. Desde coisas idiotas (de que música vai gostar, se amará filmes tanto quanto eu) até as mais importantes. Defeitos meus que, espero, não puxe de mim. E penso na educação, na obediência, no respeito aos mais velhos e inúmeros desejos. Mas tão ou mais importantes que alguns desses, espero que ela valorize o que vier a ter (e já tem) e, mais que isso, se esforce em ajudar aquele que não tem.

Quem sabe, assim, eu também aprenda.