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Grande reencontro (ou Significa!)

Quando pensei em revisitar este tema, imaginei que pudesse utilizar, para isso, o Twitter. Acabei repensando e cheguei à conclusão de que ficaria muito longo e, portanto, chato ler minhas lamentações sobre esta criatura mefistofélica por meio de vários tweets. Também creio (leia-se anseio) que, aproveitando o tom de desabafo deste post e seu intrínseco atributo de registro, este texto sirva como uma primeira etapa de uma cada vez mais imperativa terapia efetiva contra este mal que assola a tantos humanos.

Quem me conhece, já sabe do que estou falando. Não é nenhuma tiradinha, como utilizei para contar o primeiro encontro mais íntimo. Eu estou falando dela, a barata. Mas para contar a história de ontem à noite, que me levou a escrever sobre este assunto, preciso voltar um pouco no tempo.

Há alguns meses, no estacionamento do Shopping Higienópolis, depois de ter aguardado a saída da minha esposa do seu trabalho, liguei o carro e, quando ia colocar a marcha à ré, notei um brilho perto do câmbio, de relance. Era a vadia. Mas não qualquer vadia. Era uma gorda, robusta, recém-vernizada, que poderia facilmente se passar por um celular de tão grande. Repito um detalhe importante: era num estacionamento, onde a luz não é lá essas coisas.

Se fosse qualquer outro bicho, rato ou aranha, por exemplo, eu pegaria, deixaria no colo, faria, quiçá, um cafuné, mas barata não é meu forte. Saí do carro. Tenso, demorei alguns minutos para voltar a entrar no veículo. Dei algumas sapatadas nos tapetes – tomando o cuidado para não encostar parte alguma do meu corpo no automóvel, que poderia servir como ponte para a criatura ter acesso ao meu corpo – e entrei, orando literalmente, para que algum milagre tirasse aquele ser dali.

Lá fora, já com minha mulher, o que tornou necessário o aumento (ou ressurgimento) da minha masculinidade, e com a luz do dia ajudando, nós tiramos os tapetes, abrimos o carro, porém não encontramos nada e voltamos para casa.

Voltando aos dias atuais…

Ontem à noite, enquanto dirigia pela Av. João Dias, voltando da faculdade, olhei para baixo por um curto espaço de tempo, talvez menos de um segundo, para mudar a faixa do álbum que estava tocando. Voltei meus olhos à Avenida e então, a vi, ali, a poucos centímetros do meu nariz, no para-brisa. Estava toda sisuda, como dizendo “sim, Fagner, eu voltei, eu não morri! E, agora, o que você vai fazer?”. Dava pra ouvir sua risada de Moon-Rá. Senti uma ponta de esperança quando pensei que ela pudesse estar do lado de fora, mas aquele verniz entregava que ela havia voltado pra me atormentar, ainda mais valente. Valentia inversamente proporcional à minha, que tirei minha mão esquerda do volante, a que estava mais próxima daquela que é a maior representação do mal na Terra, não antes de conseguir dar seta para a direita, para encostar o carro.

Sorte a minha: 1) não ter nenhum carro à minha direita, 2) do nada, aparecer um McDonald’s e 3) ao entrar no estacionamento como um louco, não haver nenhuma criança ou família para facilmente ser atropelada por um imbecil entomofóbico. Acredito que a quarta sorte seria o fato de conseguir parar na vaga corretamente. Sabendo que o inseto havia cruzado à minha frente da direita para esquerda, fiz um contorcionismo de dar inveja à qualquer componente do Cirque du Soleil e saí pela outra porta, sem perceber que o cabo USB, ligando o celular ao som do carro, enrolava na minha perna. Som e celular ao chão, só não os acompanhei por conseguir segurar na porta.

Havia, claro, um público razoável estranhando a cena; alguns adolescentes e pais acompanhados de seus filhos (que vergonha!). Ainda tremendo, abri, de fora, a outra porta do motorista e o vidro. Com as portas escancaradas, aguardei, buscando ao céu em oração, para que o bicho saísse do carro. Liguei para minha esposa e, falando com ela, quão surpreso fiquei e quanta felicidade eu senti ao ver a barata saindo. De tão grande, suas patas traseiras não haviam deixado o carro e já firmava as dianteiras no chão. Mas foi só uma faísca de alegria, porque ódio e desespero voltaram ao reparar que ela, na verdade, desceu pra me procurar. Fugi discretamente, enquanto buscava me acalmar com a Tati ao telefone, até a piranha da barata sumir. Alguns minutos depois, ela reapareceu, mas tomei forças e consegui pisar com tanta força que se fosse um gato com suas sete vidas também teria morrido.

O mais curioso disso tudo é que a cada encontro e despedida, vejo que a possibilidade de, mais do que um simples medo ou, como alguns preferem, “viadagem”, vejo que posso realmente ter fobia de barata. Pela primeira vez, me vi pesquisando na Internet a respeito, entretanto não há nada de muito confiável. Algumas páginas, inclusive, sentem a necessidade de mostrar fotos do inseto, como se precisássemos refrescar a memória para saber do que se trata, o que me faz, sem exagero, fechar imediatamente a janela.

Talvez seja apenas mais uma doença do século XXI ou algo que o Ronnie Von responderia apenas com um sutil “significa” ou, por que não, talvez seja só comigo – pra se ter uma ideia, enquanto digitava este texto, senti nos pelos do braço um papel e já me assustei, pensando ser a filha da égua. Não sei. Mas enquanto não encontro a resposta, continuarei orando para que essa praga urbana não reapareça, principalmente, na casa onde moro.

Ah, um alerta a todos que sofrem deste mal: a fase das baratas, amantes de climas mais quentes e lugares úmidos, começaram. Boa sorte!

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Ela e eu

Ela veio de mansinho. Não sei como chegou, por onde entrou. Talvez já ali estava. Via-me entre o sonho e a realidade, quando senti seu corpo sobre o meu. Não queria acreditar. Era ela. Vistosa, imponente, segura, sem medo. Senti suas mãos sobre minha pele, passando pelos meus braços, meu pescoço, meus cabelos, meu rosto, minha orelha… minha boca. Estranho. Joguei-lhe ao chão, acendi as luzes. E vi.

– PUTA QUE PARIU! Uma barata!

Algumas pessoas têm medo das consequências do aquecimento global, de uma terceira guerra mundial. Outras, de perder um amigo ou um ente querido. Muitos diriam que temem morrer tragicamente, queimados ou afogados. Eu tenho medo de barata.

Antes que diga “ah, é normal”. Não, não é normal. Não do jeito que sinto, não do jeito que me sinto ao vê-la, quando falo ou penso nela. Os mais íntimos já viram a minha reação quando encontro uma. Estas pessoas têm uma ligeira ideia do que passo. Mas é mais do que isso. É difícil admitir, por causa do preconceito, mas eu sinto uma dor na barriga tamanho horror. Importante notar que não cito o nojo. Claro, ela é asquerosa. As antenas, aquela cabeça esquisita, o líquido… (droga, vomitei no teclado). É ódio e pavor numa mistura homogênea.

Não digo estas coisas só por este dia sobre o qual contei no início – da época em que morava numa edícula na antiga casa do meu irmão – mas por tantos outros casos igualmente assustadores. Minhas pernas ficam bambas, meu coração acelera, mudo de lado na rua quando me deparo com uma, pulo, corro e fujo sem olhar para trás. Eu sei, todo este drama é um tanto quanto suspeito. E é importante dizer que quando só há mulher por perto, tiro forças do além e faço minha parte. Só nestes casos.

E quando ela tem asas? ELA TEM ASAS! Eu não consigo pensar em sacanagem maior no mundo do que barata voar. Eu preferiria mil vezes que as cobras não tivessem perdido suas asas no Éden. Ou mesmo encontrar ratos belíssimos voando. Barata, não. Hm-Hm. Não dá.

Sinceramente, não encontro uma razão na existência da barata. E não vou fazer pesquisas na Web para entender esse porquê – não quero arriscar encarar gratuitamente esta figura. Mas por outro lado, enxergo um propósito básico na vida dela: atormentar o homem. Esta história de gostar de sombra – alguns dizem ser este o fator motivador dela vir para cima de nós – é conversa. Ela sabe o que está fazendo. Não está procurando o escurinho para se proteger, ela quer nos mostrar alguma coisa, quer se impor e mostrar que não nos teme minimamente.

Não duvidaria se um dia descobríssemos que a barata, esta entidade símbolo do mal, quer dominar o mundo – o fato de ser tão resistente não deve ser de graça ou uma coincidência da natureza. Aquele momento quando você encontra este ser parado no chão de sua cozinha ou em seu armário, ele não está ali cheirando alguma coisa ou procurando comida. Está matutando, nos estudando, marcando território.

Finalmente, quero aqui, além do desabafo, fazer um pedido sincero, do fundo do coração. Se existem pesquisas de células-tronco, estudos sobre a clonagem de humanos etc, vamos juntos buscar a extinção da barata, uma causa igualmente importante a estas acima. Não podemos mais conviver com ela. Afinal, depois pode ser tarde demais.