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Meu grande talento

Deveria ser crime ser eu. Talvez uma cartilha da ONU orientando ao povo a não ser eu, mesmo sob ameaça de morte, cairia bem. No mínimo, uma multa para aquele que se portasse como tal ou, ainda pior, fosse eu. Quem sabe, assim, eu me esforçaria mais para ser diferente.

Tenho a impressão de que meu cérebro, devido à queda vertiginosa do meu Q.I. nos últimos anos, trabalha em dobro para realizar tarefas básicas. Enquanto alguns se esforçam para fazer cálculos quânticos muito complexos ou tomar uma decisão difícil no trabalho ou entender os filmes de David Lynch, eu devo fazer careta, tamanho esforço cerebral, para saber o que responder quando me dizem “boa noite!”.

Porque não foi a primeira nem a segunda nem a terceira vez que caprichei em ser Fagner, o agora oitavo dan na arte da estupidez. Posso, após esta manhã, ser um instrutor da imbecilidade. Aprendizado garantido.

Hoje, como de costume, acordei com um palavrão à mente. Não me recordo qual e não vou gastar o que me resta de impulso nervoso neste momento. Havia me deitado perto de 1h30, depois de 20 horas acordado – isso não difere muito da rotina semanal, pois acordo às 5h30 e me deito sempre perto da meia-noite.

Levantei-me às pressas, tirei o cobertor com toda força (mania que deixa a esposa muito contente), corri para o banheiro. Escovei os dentes com tanta rapidez e força que podia ver as raízes de toda a minha arcada dentária cerrando os olhinhos por causa da claridade nunca vista. Tomei meu banho e, em 10 minutos, já estava me enxugando e colocando o desodorante. Fui correndo para o quarto.

Excepcionalmente hoje, minha esposa também tinha que acordar muito cedo, pois entraria às 7h no trabalho. Portanto, minha rotineira preocupação em não acordá-la não foi necessária, logo, ela acordou.

– Sabe que horas são, Fá?

Estar em pé há uns 20 minutos e já ter tomado banho não me fizeram pensar numa coisa tão óbvia, principalmente, para quem está se arrumando. Quem se arruma com tanta pressa, certamente sabe o tempo que tem, certo? Não se você for eu.

A pergunta me pegou como uma nota de falecimento de um ente querido. Um curta-metragem (afinal, fazia pouco tempo que estava acordado) me passou pela cabeça e percebi que nem sequer peguei no celular para ver as horas.

“3:17” dizia o celular, que deixou um sorriso escapulir pela sua tela.

Sequei o cabelo, deitei de novo, consumido por dois sentimentos; a felicidade de poder dormir mais duas horas e a depressão por mais uma vez provar meu talento nato.

Interessado em ser uma anta? Envie seu e-mail e aguarde a minha mensagem com o passo a passo.

Obrigado.

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Um ano de Artur

(Viu Um Ano de Sofia?)

 

Quando a médica disse, na sala de ultrassom, é um menino, percebi que eu tinha uma certa preferência por menina. Fiquei surpreso tanto pelo fato de ser um filho homem, quanto por ter havido essa surpresa.

Afinal, ter uma menina era algo que eu conhecia, já tinha dado certo (demais), saberia por onde andar ou, pelo menos, poderia errar menos. Se você tivesse uma filha como a Sofia e tivesse esperando mais um rebento, muito provavelmente iria me entender. É inevitável.

Pairava, inclusive, desde o início da gravidez, uma dúvida: iríamos gostar dele tanto quanto dela? Racionalmente, eu sabia que sim, porque todo mundo aprende que os pais amam aos filhos igualmente – independente de ter mais afinidade com um ou com outro. Emocionalmente, porém, era meio improvável amar mais um, como se meu coração de pai estivesse maciçamente preenchido pela Sofia e viesse alguém dizendo: “Oi, tudo bem? Prazer te conhecer! Agora empurra a Sofia um pouco para o lado, isso, aperta aí um pouco mais, isso, só mais um pouquinho, obrigado”. Podia até ouvir a Sofia gritando “papai, eu estou caindo aqui, não tá vendo?”.

Claro que depois de alguns minutos, eu já estava muito feliz com a ideia e via inúmeras vantagens de ter um moço; não iria querer matar mais filhos dos outros quando namorassem minha filha, não iria ter vontade de me suicidar em mais um casamento, não iria chorar nu em posição fetal no chão frio do banheiro nas noites que elas saíssem para dormir fora etc. Falando sério, é alguém igual a mim, em importantes aspectos, com grandes chances de passar por muita coisa que eu já passei. Sofrer com o que eu sofri, machucar, aprender, ensinar. É como aconselhar e ajudar o filho com mais propriedade, conhecendo mais do assunto. Enfim, ser mais útil.

Há exatamente um ano, quando finalmente chegou o menino, já com o nome de Artur, via a criança mais doce que já conheci. Linda. Aquela dúvida de amar tanto quanto a irmã mais velha, aos poucos, foi se mostrando cada vez mais idiota. Aquele coração, aparentemente preenchido, parece ter se duplicado, dia após dia, ou como se naquele mesmo espaço, Sofia e Artur estivessem se misturando homogeneamente.

Ingênuo de tudo, eu imaginava querer alguém como a Sofia. No entanto, fui percebendo que os dois são extrema e maravilhosamente diferentes. Eles se complementam nos mínimos detalhes. É o sereno com a serelepe. O dependente Artur, a invariavelmente independente Sofia. O preguiçoso, a ansiosa, o passivo, a hiperativa. E mesmo ainda novos, estas diferenças são cada vez mais perceptíveis (ao dar o leite para Sofia, por exemplo, nessa mesma idade, ela tirava a nossa mão para segurar sozinha a mamadeira; o mocinho, assim que encostamos para mudá-la de posição, já solta).

E quando digo que meu filho é doce, não é exagero, tampouco corujismo. Para rir, o Artur basta estar acordado. Claro, vez ou outra, podemos vê-lo chorando, mas provavelmente estará com fome ou então a mãe chegou do trabalho e ainda não o pegou no colo. Não é raro passar um dia sem escutar um choro ou reclamação sua. Até olhando um outro aspecto que preocupa boa parte dos pais, ele se supera, sendo muito dorminhoco desde que nasceu. Mesmo quando acorda, é tranquilo, sem muito estardalhaço. Frequentemente chego ao seu quarto e o encontro no berço, acordado, apenas brincando com alguma coisa ou em pé segurando nas grades, esperando alguém para pegá-lo.

Então, não estou tentando ser engraçado quanto digo que a única coisa que sei fazer direito são filhos. Aliás, sendo mais justo, devo muito da preciosidade dos filhos à sua mãe. Nem digo estas coisas por hoje também ser o Dia Internacional da Mulher, mas porque, como disse no primeiro aniversário da Sofia, Tati já nasceu mãe, já nasceu mulher, madura. Meu trabalho basicamente é não atrapalhar, orar para que se pareçam menos comigo (em qualquer aspecto) e mais com ela. Resumindo: que eu não os estrague.

Isso tudo, por fim, me leva a achar, apenas achar, ter uma leve impressão de que o dia 8 de março é ainda mais importante para mim, hoje.

Por isso, um feliz aniversário, Artur. Daqui a alguns anos, quando ler isso aqui, peço desculpas por ter sido tão imbecil em esperar, mesmo que por pouco tempo, alguém que não fosse exatamente como você é, para ser irmão da Sofia, para ser nosso filho. Você é bem mais do que eu sequer imaginava, seu pentelho fofo sem vergonha.

E – aproveitando – às mulheres, Sofia, Tati e minha mãe (agradeço a Deus todos os dias pela Sofia se parecer em todos os sentidos contigo, mamãe), um feliz Dia Internacional da Mulher.

Hereditariedade zero, amém!

– Papai, deixa eu falar?

O pneu do carro havia furado na Av. 9 de julho, perto do Itaim, logo depois de eu ter deixado a esposa no trabalho. Isso não seria complicado, não estivessem meus dois filhos no banco de trás; Sofia com 4 anos comemorados há duas semanas, e Artur, prestes a completar seu primeiro aniversário.

Para piorar, Sofia queria ir ao banheiro (“número 1, sem picles”) e Artur, também (“número 2, capricha no molho”). Mas como ele usa fraldas, o seu tempo entre querer e fazer gira em torno de 2 a 3 segundos, logo ali mesmo o fez. A sorte voltou, depois de me abandonar às traças, e o objeto não identificado no pneu tinha um tipo de “cabeça” que não deixava o ar escapulir tão rapidamente. Percebi que poderia ir para casa, onde seria mais fácil colocar o estepe.

É a quarta vez que eu tenho problema com carro. A primeira com Artur e a segunda com a Sofia – a primeira foi em plena Cidade Jardim, com a bateria morta sem chances de ressurreição, num dia em que choviam oceanos em São Paulo. Não sei quem já passou por isso, mas é terrível. É uma situação comum, claro, nada demais, mas que causa um desconforto incomum quando se está sozinho com os filhos. Você se sente culpado por ter deixado aquilo acontecer, fica pensando onde errou, como irá fazer, quem irá chamar, se há alguém para ajudar, se as crianças estarão com fome, sede. No fim, bem verdade, quando tudo se resolve, nota que nem sequer perceberam o que aconteceu, mas até lá…

Cheguei em casa apartamento, fiz o que tinha que fazer com as crianças, peguei alguns brinquedos de morder, uns papéis e lápis de cor para a Sofia colorir nas escadas perto do carro, desci com eles e coloquei o Artur no bebê-conforto num lugar onde pudesse me ver (deixá-lo engatinhando na garagem do condomínio não me parecia a melhor das ideias).

Era 1h da tarde, sol bombando, cabeça quente e doendo (dói todo fim de semana, quando não tomo café) e com o aniversário do Guga (meu sobrinho) começando às 14h. Sem falar que, antes de ir para a festa, eu precisaria ainda dar um banho no Artur e alimentá-lo. Por estar trocando pneu, eu também teria que tomar banho.

Bom, depois de bagunçar tudo o que estava no porta-malas, buscando o estepe, vi que este fica embaixo do porta-malas, do lado de fora. Ainda assim, anos se passaram até eu conseguir tirar a roda dali. Sou um asno neste assunto, já devem ter notado, mas eu teria cerca de 50 ideias de lugares e formas mais simples para prender a roda reserva sem ter que sujar até o sovaco. Tinha jogado duas horas de futebol pela manhã, suficientes para deixar qualquer sedentário nato como eu com coordenação motora e força muscular debilitadas. E assim, desprovido de qualquer energia, fui tentar desparafusar a roda.

Acredito que em partos normais de crianças acima de 5 kg, a mulher faça força similar a que eu fazia – ou imaginava estar fazendo. Tive a impressão de que se fizesse um pouco mais de força, eu teria mais um filho ali mesmo. Cansei e me sentei no chão, com os braços sobre as pernas, suando sangue. Sofia, que estava perto, pedindo para me ajudar o tempo inteiro, e eu negando (preocupado em mantê-la numa distância segura do carro), chegou mais perto, olhou para mim e disse:

– Papai, deixa eu falar?

– Fala, Sofia.

– Tenta com o pé.

Olhei para ela, sorrindo e com os olhos brilhando (um pouco por querer chorar, um pouco pela força que estava fazendo, um pouco de felicidade por ela ser muito mais inteligente que eu), e só consegui responder.

– Obrigado, linda. Seu pai é muito lento e você é uma linda.

Foi único eufemismo leve para o mais correto “seu pai é uma anta!”. Consegui desparafusar a roda, é claro.

Menina esperta.

Check-in (ou Como deixar sua manhã mais divertida)

21h30 – Saindo da casa do cunhado.

22h – Vendo jogo do São Paulo, pela TV.

00h – Indo para cama e colocando o despertador para tocar mais cedo, pois quinta-feira é dia de ir de ônibus.

5h – Acordando – aquela mesma vontade de xingar de sempre.

5h10 – Tomando banho, escovando os dentes e mirando o ralo pra fazer o xixi matinal.

5h20 – Penteando o cabelo.

5h22 – Procurando a carteira pela casa.

5h24 – Procurando a carteira pela casa – os primeiros palavrões passando pela cabeça.

5h26 – Descendo o elevador, para procurar a carteira no carro – falando muitos palavrões.

5h29 – Subindo elevador, para saber se a esposa (ainda dormindo) sabe onde está o que procuro – inventando novos palavrões.

5h32 – Percebendo que esqueci a carteira no cunhado – gritando histericamente outros novos palavrões.

5h33 – Pegando o bilhete único da esposa.

5h38 – Entrando no ônibus, pensando o que vou comer durante o dia – xingando todas as pessoas que conheço.

5h48 – Descobrindo que a chave do carro ficou no meu bolso, lembrando que a esposa iria de carro – xingando todo mundo que não conheço.

5h53 – Entrando no ônibus de volta pra casa – xingando todos aqueles que ainda irão nascer.

5h58 – Mandando mensagem para esposa, no ônibus, dizendo que estou voltando pra casa – lembrando da música do Lulu Santos.

6h – Me esquecendo de dar sinal para o ônibus parar em frente de casa – pensando em suicídio.

6h03 – Descendo um ponto depois de casa, o final, no Terminal Capelinha.

6h06 – Terminando de subir as infindáveis rampas do Terminal, voltando a pé para casa.

6h15 – Chegando em casa.

6h16 – Devolvendo o bilhete único para esposa.

6h21 – Indo de carro para o trabalho, sem carteira, para não atrasar. E deixando a esposa na mão.

6h22 – Tomando a decisão de esfaquear quem me desejar bom dia.

Uma consulta perfeita

– Número 003!

– Opa, nossa vez. Sofia e Artur, venham!

– Olá, eu sou o Dr. Paulo. Prazer!

– Tati, Sofia, Artur. E eu sou o Fagner. Prazer é nosso.

– Wagner?

– Não. Fagner com “F” de faca.

– Hmm. Igual ao cantor? Sabe cantar também?

– Sim. Quer dizer, “sim” para a parte do igual ao cantor. E “não”, não sei cantar.

– Que filhos lindos!

– Muito obrigado.

– Podem se sentar.

– Dr. Paulo, já adianto que é um tanto quanto incomum o que vamos te falar.

– Fique à vontade.

– Ontem à tarde, fomos ao parque Villa-Lobos. Brincamos um pouco e tal, até que começou a chover. Aí, pedimos ao Artur que parasse de jogar bola, para não se machucar. Mas sabe como é criança nessa idade…

– Ele tem quantos anos?

– 7 anos. Então, não deu outra. Foi dar uma arrancada e acabou escorregando. Caiu igual a uma jaca. Aí vem a parte bizarra. Entrei na quadra pra ajudá-lo, ver se estava tudo bem, quando, do nada, me deu uma puta dor no braço.

– Há um bom tempo vocês não vêm ao hospital, né?

– Sim, sim. Aí, com certa dificuldade consegui levantá-lo. Em questão de segundos, ele já estava bem e só não continuou jogando bola, porque a mãe fez uma proposta irrecusável (só um terrorismo psicológico, envolvendo um cavalo decepado, baldes de sangue e louça suja). Só quando voltei para o carro, pude perceber que meu braço, além de muito dolorido, estava suavemente torto. Mas resolvi deixar pra lá, achando que uma hora ou outra iria voltar ao normal. Enfim, não aguentei a dor e hoje pela manhã, vim para hospital.

– Está com o Raio-X?

– Aqui está. O senhor pode aproveitar e me receitar um remédio para febre e dor de cabeça? E um de tosse para minha esposa.

– O senhor está com dor de cabeça e febre?

– É, até pensei que devia ser algum reflexo desse lance do braço, mas me lembro de ter sentido fortes dores de cabeça ontem cedo, mas como é comum eu ter dor de cabeça, nem dei bola. Agora, a febre deve ser por causa do braço, né?

– Talvez. E a tosse da senhora?

– Então, acho que estou resfriada. Começou também essa noite. Mas antes que pergunte, não, eu não tomei chuva. Estava com um guarda-chuva no carro…

– E a sua filha Sofia? Perdoem o trocadilho.

– Ela está bem.

– Não, quero dizer ela tomou chuva?

– Sim, tomou, estava com algumas amigas, brincando de patins, mas ela está bem.

– Ok, muito bem. Comecemos pelo Artur…

– Artur?

– Isso. Infelizmente, seu filho fraturou o braço.

– Desculpa? O senhor quis dizer eu, Fagner, certo? Prossiga.

– Não, o Artur mesmo. Mas não se preocupem, pois não é nada grave. Em uns 30 dias, ele já estará recuperado. Só teremos que colocar o braço do senhor no lugar e engessá-lo.

– Oi?

– Não souberam dos últimos avanços da medicina, suponho. Deve ter sido este tempo longe dos hospitais.

– Sim, claro, acredito que tenha avançado, mas o senhor só está confundindo os nomes. Apesar de meu filho Artur ter caído, ele não quebrou nenhum membro. Veja, é meu braço que está torto.

– Vamos lá. Nós médicos, juntamente com cientistas e em parceria com Jesus Cristo, até porque era necessária sua participação de forma direta…

– Espera. Jesus? Tipo “o” Jesus. Do céu e tal?

– Esse. Nós fizemos uma pequena alteração em questões que envolvem dor, mal estar ou algo parecido nas crianças abaixo de 12 anos. Até porque, depois disso, já adolescentes eles têm mais é que sofrer mesmo.

– Tem alguma câmera aqui? É algum tipo de piada?

– Sr. Wagner, não brinco com coisa séria nem com nada envolvendo qualquer nome celestial. Posso continuar?

– Desculpa, quer que eu finja que estou acreditando ou prefere que eu continue com essa cara de cínico?

– Como quiser. Fato é que as crianças não mais sentem fortes dores, mas apenas uma pequena, suficiente para aprenderem e não repetirem mais.

– A-han. Então, segundo sua ideia mirabolante, esta tosse da minha esposa deve ser da chuva que a Sofia tomou ontem.

– Acredito que sim. Mas o que mais me preocupa é esta febre e dor de cabeça. O senhor tem vomitado?

– Não. Ás vezes, eu vomito por ter comido demais. Fico sentado comendo e, só quando me levanto, percebo que comi mais do que deveria.

– Mas de anteontem pra hoje, alguma vez?

– Não.

– Bom, de todo modo, teremos que retirar líquor do senhor, apenas para eliminar que seus filhos estejam com alguma coisa mais grave. É uma agulha um pouco grossa. Vão enfiar na medula do senhor e recolher este líquido. Vai doer bastante. Tome esta via, leve para a enfermeira na terceira porta do corredor à esquerda e ela te encaminha para o setor responsável por este procedimento.

– COF! COF! COF! COF!

– Seria excelente essa história toda…

– COF! COF! COF! COF!

– Que história?

– …mas, apesar de fazer muito sentido, tenho certeza de que deve ter bebido mais do que deveria, doutor!

– Doutor?

– COF! COF! COF! COF! COF! COF!

– Isso. Conheço bem de hospital. Até os primeiros anos da Sofia, eu costumava ir semp…

– Está ficando doido, Fá?

– Hmm? A voz do senhor costuma ficar fina assim do nada, doutor!

– Fá. Ei! Fá! Fagner!?

– Hmm?

– Acorda! A Sofia continua tossindo. Esse tempo seco maldito. Fá, Fá! ACORDA!

– Oi!

– A Sofia. Temos que fazer alguma coisa. Ela não para de tossir.

– Eu sei, eu sei. Vamos colocar um balde de água lá de novo. O umidificador de ar chega essa semana.

– Estava sonhando?

– Sim.

– Com o quê?

– Deixa pra lá. Volte a dormir. Pode deixar que vou no quarto dela.

Ela é demais

Não poderia ser coisa só da minha cabeça. Apesar de muito coruja, algumas coisas na Sofia não pareciam ser normais nem muito comuns às outras pessoas. E neste último domingo, na programação do dia dos pais na sua Escolinha, eu tive mais uma das muitas provas de que ela é, sim, um absurdo.

Voltando um pouco a fita… A ida para a escola antes dos sete anos de idade nunca me pareceu uma boa ideia. Não sei se estou exagerando, mas é um dos momentos-chave da vida do ser humano, pois dali só se sairá depois de, no mínimo, 15 anos. É ali onde vai aprender a se relacionar com o mundo, com professores, com o outro, com a adversidade, na prática – e nada de fazer piadinhas sobre outras coisas que ela vai aprender, ok? Mas tão, ou mais relevante que estas coisas, é o fato de que uma parte da educação agora se encontra em outras mãos. Nas mãos da professora, da instituição e (por que não?) dos pais das outras crianças. Sem falar naquele nó na garganta (ou “naganta”, como Sofia prefere falar) em forma de frase: minha filha está crescendo.

Porém, com a chegada de Artur, que divide o posto de criatura mais linda do mundo com sua irmã, foi inevitável matricular a pequena na Escola Modelo do UNASP, campus I. Então, o motivo de chorar ao vê-la entrando na escolinha no dia 31 de julho, era justamente por causa deste emaranhado de sentimentos e pensamentos que me passavam pela cabeça naquele instante. Mas, como racionalmente já sabia, mesmo neste pouco tempo, aquele novo mundo já fez bem à minha princesa que, mais do que antes, está se desenvolvendo a olho nu. Sem perder, no entanto, sua essência.

Na sexta-feira antes do dia dos pais, a escola já começou jogando baixo, fazendo a Sofia me entregar um coraçãozinho com gravata e uma arte by Sofia na parte de dentro. Já tive falência múltipla dos órgãos. Descobri, logo depois, que a programação seria no domingo seguinte ao dia dos pais. E já comecei um tratamento para não passar mal e estragar a festa, afinal, até um total desconhecido poderia olhar para mim e dizer “esse aí é chorão, hein?”. Sem fugir do assunto, mas para mostrar o quanto isto é possível, já chorei de soluçar num ônibus, depois de ler um trecho de “Um Dia”, no ano passado.

Sofia, inclusive, enquanto o dia não chegava, deixava escapulir uma ou outra parte da música que iria cantar. Isso já me fazia brilhar os olhos. Eu mesmo pedia para parar, porque era surpresa.

Até que chegou o dia.

Como é comum na família Aleluia, chegamos um pouco atrasados e os pais já estavam no meio da quadra do ginásio, sentados, enquanto alguém falava alguma coisa que jamais seria compreendida naquela acústica típica de ginásio. Sentamos e, depois de pouco tempo, chegou a hora da música de homenagem aos pais, “O Meu Pai é Meu Herói”. Mais um jogo baixo.

As crianças, em fila indiana, foram para frente fazendo um grande coral. Sofia ficou na frente, à esquerda, ao lado da fofíssima Maria Lara, sua amiga desde que nasceu. A Mamãe Tati logo se prontificou a registrar o momento e foi ficar mais perto do coral. De longe, vi Sofia falar alguma coisa para Mamãe, parecia procurar alguma coisa. Olhei para Tati, que mexeu os lábios, “Sofia te quer aqui mais perto”.

Aí comecei a parar de enxergar, as lágrimas doidinhas para cair embaçaram meus olhos, mas fui forte, “não seja tão previsível, Fagner”, dizia para mim mesmo. Não caíram. Não ainda. Fui mais para frente, onde ela conseguisse me enxergar, perto da Mamãe que, esperta, já me avisou “não chora, ela pode pensar que não está gostando”. “Vou tentar”.

Mal sabia eu que o motivo da Sofia me querer por perto era para justamente me olhar. Não em alguns momentos específicos, mas durante a música inteira. Um olhar diferente. Conversamos, sem dizer uma só palavra, até a canção acabar. Posso estar enganado em achar que ela foi a única a olhar para o pai o tempo inteiro. Com 3 segundos de música, eu já não via mais ninguém, só ela – e ela, somente a mim.

– Ei, pai, eu estou bem.

– Certeza, mocinha? Mas e essa professora, ela te trata bem? Você tem comido bem, quando está na escolinha? Alguém te tratou mal longe de casa? E essas amiguinhas, Gabi, Ana Júlia, são legais? Quem é este tal de Victor, de quem você fala de vez em quando?

– Pai, eu estou bem.

– Tenho sido presente o suficiente? Desculpa ser bravo de vez em quando? Desculpa não saber o que fazer, às vezes. Desculpa se fui impaciente.

– Pai, eu te amo.

– Também te amo, pentelha. Muito.

Não dissemos. Sentimos.

No fim da música e com as crianças saindo, Sofia deixou a fila e correu para me abraçar. E dessa vez, falando.

– Te amo, papai!

– Te amo também, guria!

E inspirada pelo filme “Enrolados”, ela respondeu:

– Te amo muito mais!

Duvido, mocinha.

Anos Incríveis – Parte III: B.Y.O.B.

(Talvez seja minimamente interessante ler primeira e segunda partes)

 

9h30, sentado à porta do banheiro masculino, alguém lamenta:

– Isso passou dos limites! Como alguém tem a capacidade de fazer isso? Como uma coisa dessas chega aqui dentro?

Se no mundo aqui fora, mente vazia é oficina do diabo, no internato, o conjunto de mentes vazias seria como um Senac do Capeta. Diversos “cursos”, divididos por quartos, alguns com especialidade em fugir sem ser notado para Capoeiruçu (vila ao lado do IAENE), outros em bolar maneiras e locais de beijar sua namorada – para quem não se lembra, naqueles tempos de internato nem sequer era permitido andar de mãos dadas – e outros mais avançados que, de tantas asneiras já feitas, apelavam para algo absurdo. Como nós, quando éramos do quarto 6, fizemos.

23h do dia anterior, quarto 6…

– Aí! Se liga no que a gente conseguiu.

João Eduardo, carioca com quem morei nos meus dois primeiros anos de internato, entrou no quarto junto com o Tonga – aquele rapaz gente boa, uma mistura de Elo Perdido com Fernando Scherer, de quem falei alguns meses atrás – carregando uma sacola com o que haviam conseguido com um amigo de Capoeiruçu.

À época, morávamos no quarto 6, o maior do dormitório. “Maior” não por uma questão de luxo, mas de capacidade mesmo; cabiam 8 pessoas. Pedimos, dois semestres antes, para unir a galera que, segundo nós, prestava dos quartos 14 e 12. Só conseguimos depois de um tempo, porque era um quarto muito disputado. Junto comigo moravam Lucas, Léo, Hermano, Thiago, Totó (Gleyson), Carioca (João Eduardo) e Elmano (Elmano).

[Este último, por sinal, ficou aproximadamente dois dias no quarto, por conta de uma atípica briga: era o dia de limpar o quarto e ele (que era desafinado batendo palma), por algum motivo obscuro, insistia em cantar junto a música que Totó (o único que sabia cantar de todos nós) escutava enquanto varria o quarto. Depois de muito pedir para ele parar de tentar acompanhar a canção, Totó, usando a única coisa que tinha na mão, expulsou Elmano do quarto à vassouradas distribuídas repetidas vezes entre a canela e o pescoço. Essa história eu ouvi depois, já que voltei atrasado, após um semestre em outro internato aqui em São Paulo. “Falei pra você parar de cantar, filho da puta!”, me disseram, foram as últimas palavras que ele ouviu enquanto morador do quarto 6.]

Trancamos o quarto e fomos ver o que Carioca tinha trazido. Era uma bomba caseira. Não me lembro exatamente de sua composição, aliás, nem sei se sabíamos do que era feito aquilo. Só sabíamos onde acender e da necessidade de utilizar um cigarro para atrasar a explosão. Sempre falávamos do assunto “bomba” – um ato terrorista de muito perigo, que só alguém com total ausência de maturidade é capaz de realizar – mas nunca tivemos oportunidade, nem sabíamos como encontrar uma. Convenhamos, mesmo antes do 11 de setembro e do massacre em Columbine, não era muito interessante sair perguntando “sabe onde eu posso encontrar uma bomba para eu fazer um barulhinho lá na minha escola?”.

Aguardamos um pouco. Em vez de primarmos pela discrição, curiosamente, nesta noite, aquela que planejávamos soltar a bomba, fizemos barulho o tempo inteiro. Jogamos partidas de dominó, truco, folheamos algumas revistas pela milésima vez. Lucas e Hermano, inclusive, tiveram a coragem de fugir para piscina que ficava do outro lado da praça, ao lado do prédio feminino. Para isso, utilizaram a chave que conseguimos, sabe se lá como (provavelmente amizade com algum monitor ponta firme), da porta do corredor que dava para a praça. Penso que inconscientemente utilizamos aquela teoria de quanto mais na cara ficasse que poderia ter sido nós, maior seria a chance de deduzirem que não havia sido.

Já passava da 1h da manhã e todos já tinham ido para suas camas, exceto nós. Tonga já havia deixado o quarto. Depois de alguns instantes, era chegada a hora.

– Mas onde a gente vai colocar isso?

– Sei lá, no meio do pátio?

– Não, lá não vai fazer muito barulho. Banheiro?

Qualquer criança com mais de 5 anos de idade saberia que isto não seria uma boa ideia. Mas nós? Não. Claro, não dá pra esperar muito de quem já acordou um gago com dois baldes de água gelada, mas a possibilidade de deixar alguém surdo era muito mais grave.

– Demorou. Cadê o cigarro?

No par ou ímpar decidimos quem iria colocar o objeto no local, debaixo da pia à esquerda do banheiro. Léo e Carioca ganharam – ou perderam, não me lembro. Pensamos num lugar onde não machucaria ninguém, mas também que não quebrasse nada para não dar muito prejuízo, caso fôssemos pegos. Fiquei de fora, à porta do quarto, vendo se alguém apareceria. Alguns minutos depois, bomba no seu devido lugar, e estávamos todos no quarto.

– Agora é só esperar.

Apagamos a gambiarra (luz que era ligada direto na tomada) e deitamos, já tapando os ouvidos. Passaram-se alguns minutos.

– Ué!? – estranhei.

Carioca, que sabia mais do assunto, respondeu:

– Calma, demora um pouco mesmo.

Continuamos com os ouvidos tapados, esperando o que prevíamos ser um pequeno estouro. Passaram-se mais alguns instantes.

– Acho que não deu.

– Que merda de bomba, hein, Carioca?

– Calma, pô. Deve ser o cigarro.

– Isso se ele não se molhou, né?

– Acho que a gente poderia ter escolhi…

KABUM

 

 

 

 

 

 

 

 

 

– Fudeu!

– Caraca, mané!

– Meu Jesus!

A bomba que cogitávamos ser incapaz de acordar mesmo os quartos mais próximos do banheiro – por pura inocência, já que ela era do tamanho de um mamão papaia – era muito mais forte. Foi um estouro capaz de acordar as meninas que ficavam do outro lado da praça, seguido de um tremor nas paredes do prédio masculino.

Sabiamente esperamos que outra porta se abrisse primeiro, para sairmos do quarto, não sem antes caprichar na feição “o que foi isso?”. Todos saíram dos seus quartos e todas as luzes do prédio se acenderam. Obviamente, o monitor que estava de plantão acordou e vendo a seriedade do assunto, logo chamou o preceptor Ary, que chegaria 10 minutos depois. Achamos mais apropriado acompanhar de longe. Ainda sentados na mureta que ficava à frente do nosso quarto, vimos monitor e preceptor analisarem o banheiro. Sem muito o que fazer, trancaram o banheiro e colocaram todos os alunos para dentro de seus quartos. Depois de algumas risadas guardadas (e muitas escapulidas), fomos dormir.

Às 9h30 da manhã, Carioca e eu estávamos à porta do banheiro, onde outro preceptor juntamente com Ary conjecturavam sobre o que poderia ter acontecido. A bomba derrubou uma pia de aproximadamente 2 metros, inteira. Espalhando pedaços de mármore pelo banheiro, pelo teto, quebrando, inclusive, janelas. A porta de um dos chuveiros, que ficava do lado oposto à pia, estava toda amassada por conta dos estilhaços. Um antigo colega de quarto (o banheiro era ao lado do 14) nos confessou, sem saber que éramos nós os culpados, que caiu pó do teto e das camas, que eram de cimento.

Sentamos na mureta ao lado do Pr. Ary. Desiludido dizia:

– Isso passou dos limites! Como alguém tem a capacidade de fazer isso? Como uma coisa dessas chega aqui dentro?

– Não faço ideia, pastor. – era o máximo que conseguia responder.

– Se a gente souber de algo, avisaremos. Alguém poderia ter se machucado muito nessa brincadeira. – completou meu amigo, o mais cínico que já conheci.