Nada de Cinema

O que aconteceu com o Cinema Franco

É, de 2012 pra cá, atualizar isso aqui ficou cada vez mais difícil (perdi meus últimos textos escritos de 2013 pra cá – mas não eram muitos). Poderia culpar o nascimento do segundo filho, nascido em março cinco anos atrás. Poderia culpar a faculdade que terminei no ano passado (comecei em 2011, depois de uma pausa, retomei em 2016), os roteiros que venho escrevendo, a família, os amigos, putz!, tem muita coisa pra culpar. Mas seria ligeiramente injusto, pois não é raro eu ficar assistindo filmes e/ou séries até depois da meia-noite, tempo que poderia ser facilmente convertido em textos. Mas sabe a real? Ando meio desanimado com isso aqui, duvidando, inclusive, de haver razão alguma pra mantê-lo, mas continuo esperançoso – tanto que continuo pagando o domínio “.com.br”, pra algum momento ressuscitá-lo.  Um dia quem sabe, volto, com novo visual, talvez no domínio antigo (.com.br), talvez escrevendo algo relevante (brincadeira, jamais faria isso). Bom é isso. Meio rapidinho, sem capricho, sem parágrafo, sem tempo, mas é isso.

Abraço. Volto qualquer dia.

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Conversa de pai, Nada de Cinema

7 anos

[Texto originalmente escrito dia 14 agosto de 2014. Perdi boa parte dos textos do blog e todos os comentários – este é um dos posts recuperados]

Em meados de 2008, em algum lugar lá em cima, um anjo bate à porta.

TOC TOC!

– Pode entrar!

– Com licença. Tem um minuto?

– Fala, rapaz! Tranquilo?

– Ah, quase tudo bem. Como o Senhor está?

– Estou bem, na medida do possível. Você sabe… Essa bagunça lá embaixo, entre os humanos, nós sabemos desde o princípio, mas ficamos meio triste às vezes, sabe?

– Eu sei.

– De resto, tudo tranquilo. Mas me diga o que te aflige?

– É sobre a Tatiane.

– Ah, a tua menina?

– Isso.

– Rapaz, está cada dia mais bonita, né?

– Sim, demais.

– Nossa, como ela é linda.

– É.

– Inteligente, esperta, responsável, atenciosa…

– Sim. Com todo o respeito, parece que o Senhor está se exibindo.

– Calma, é só uma brincadeira. O que há de errado com ela?

– Nada, com ela nada.

– Então…?

– Tenho medo de algumas coisas que andam acontecendo.

– Tipo?

– Ela está conversando muito com um rapaz, o Fagner.

– Nem sabia que se conheciam. Mas ele não mora em São Paulo, mora?

– Mora, faz tempo.

– Pensei que era do Nordeste.

– Acho que ela está gostando dele.

– Nossa, isso é terrível! Ele tem idade pra ser bisavô dela.

– Como assim? Não. Espera! Em quem o Senhor está pensando?

– “Quem dera ser um peixe, para em teu límp…”

– Não, não, não. É o outro.

– Ah, é verdade, tem mais de um.

– São cinco no total.

– Vish!

– Então, é o Fagner Franco, irmão do Franco Fagn…

– HAHAHAHAHA. Pais criativos.

– Há controvérsias.

– Aquele menino é meio perturbado.

– Exato. Por isso estou preocupado.

– Bom, faz alguns milhares de anos que as coisas funcionam dessa maneira. Sempre há riscos, a partir do momento em que não escolhemos nada por eles. As coisas não dependem apenas de nós.

– Eu sei. O livre-arbítrio.

– Isso. Continue…

– Preocupado com ela, eu tomei a iniciativa de enviar alguns sinais.

– Não ultrapassando o limite, tá tranquilo.

– Esse é o problema. Agora cheguei no limite. Não posso usar nenhum sinalzinho até o final do mês.

– “Sempre sobra mês no final dos seus sinais”, diriam os humanos.

– Ela viajou para casa de alguns parentes no feriado do mês passado. De uns meses pra cá, conheceu novos amigos – reviu alguns antigos. A faculdade está bem difícil, os estágios desgastantes. Resumindo, a cabeça dela anda bastante ocupada com outras coisas, pra ela pensar que talvez não seja o momento ideal para um relacionamento.

– Deu algum resultado?

– Engraçado você fazer perguntas que já sabe a resposta.

– É costume. O diálogo flui melhor.

– Ok, não deu resultado.

– Já te expliquei, mas vou tentar de novo: os sinais foram um tipo de bônus nestes últimos tempos, porque a coisa está feia lá embaixo. Mas tem outra pessoa responsável, que está bem alinhada com a maneira minha de pensar. Sua tarefa, como a dos demais anjos, é mais guardar que, de fato, fazer alguma coisa. Seria interessante poupar os sinais para as emergências.

– Vou prestar mais atenção. Fato é que, não importa o sinal, não importa as atividades, minha menina continua pensando no rapaz. Como isso é possível?

– Acho curioso esse lance de vocês procurarem sentido neste tipo de coisa.

– E sabe o que me deixou mais desesperado? O doidinho também está gostando dela.

– Que bonito. Perturbado, mas tem coração.

– Ele está apaixonado. O anjo que cuida dele… sabe aquele que só pega os casos mais complicados, que mora lá perto do laguinho?

– Sim, sim. Tá aqui direto. Gente boa demais. Vê coisa boa em todo mundo. Parece meu Filho.

– Esse. Corajoso que só. Bom, ele me disse que o menino anda falando dela pra alguns amigos, pais, irmão. Eles já se falam o tempo inteiro. Acabam de falar pelo telefone e já estão conversando pelo MSN de novo. Nunca vi.

– Owwwnn!

– A sorte é que ele é meio lento. Se dependesse da vontade dele, já estariam juntos há mais tempo. Mas praquele ali tomar atitude…

– Esses moleques são sempre assim. Falam, falam, falam, mas quando gostam de verdade, perdem o rumo, não sabem o que dizer, nem como vai dizer… Acho bem divertido.

– Eu só queria saber como lidar com isso tudo. Acompanho a menina desde o nascimento e quero que dê tudo certo.

– “Tudo certo”? Fale mais sobre isso.

– A vida da Tati está ótima, dentro do programado. Tem 21 anos, perto de se formar, vida financeira controlada, com pais dando o suporte necessário, é uma menina correta, meio teimosa, às vezes, nada demais. É uma baita menina muito especial, mas…

– Mas…?

– Mas é o Fagner, né? O rapaz está desistindo da segunda faculdade. O responsável por ele fica alegando que tem um ou outro motivo, mas na prática, nós sabemos que o menino recebeu muitas oportunidades diretas do Senhor e jogou tudo fora. É meio irresponsável, inconsequente, impulsivo, paga de revoltadinho… Eita, acho que estou ficando um pouco agressivo. Desculpa.

– Está desculpado. Interessante essa sua preocupação excessiva.

– É que eu acho que ele não merece, sinceramente. Com todo o respeito, não vejo nem futuro entre os dois.

– Engraçado, podia jurar que era Eu quem tinha esse poder de ver o futuro.

– Desculpa, é que esses milhares de anos cuidando deles… Sabe como é, a gente vai aprendendo algumas coisas.

– Mas outras vocês nunca vão entender. Você precisa confiar mais na sua menina, não acha? Se ela é tão boa como você diz – e eu sei que ela é – acho que pode confiar.

– Mas como será a vida dela com ele?

– Errou.

– Como assim?

– Não é essa a pergunta.

– Não entendi.

– Pense.

Neste momento, ficaram em silêncio.

Depois de alguns minutos, o anjo pediu licença, agradeceu e deixou a sala.

A preocupação havia dado lugar a um sentimento de orgulho. Havia entendido que mais importante que a sua preocupação de como seria a vida dela com ele, era imaginar como seria a vida dele sem ela. Aquela menina que acompanhou 24 horas por dia desde o nascimento era a única que podia cuidar daquele menino estranho, cheio de dúvidas e sensível até demais.

Na manhã do dia 14 de agosto de 2015, o anjo se lembrou daquela conversa, quando Tatiane e Fagner estavam completando 7 anos de casados. A menina havia se tornado, como ele imaginava, uma mãe absurdamente completa e dedicada, de duas crianças igualmente incríveis, uma esposa paciente, altruísta, companheira, engraçada e que ainda arranjava tempo pra continuar linda.

O menino? Bom, o menino virou um pai de família, esforçado e… só. Continuava estranho, é verdade, mas certamente muito, muito mais feliz.

Diversos, Nada de Cinema, Rapidinha

Meu grande talento

Deveria ser crime ser eu. Talvez uma cartilha da ONU orientando ao povo a não ser eu, mesmo sob ameaça de morte, cairia bem. No mínimo, uma multa para aquele que se portasse como tal ou, ainda pior, fosse eu. Quem sabe, assim, eu me esforçaria mais para ser diferente.

Tenho a impressão de que meu cérebro, devido à queda vertiginosa do meu Q.I. nos últimos anos, trabalha em dobro para realizar tarefas básicas. Enquanto alguns se esforçam para fazer cálculos quânticos muito complexos ou tomar uma decisão difícil no trabalho ou entender os filmes de David Lynch, eu devo fazer careta, tamanho esforço cerebral, para saber o que responder quando me dizem “boa noite!”.

Porque não foi a primeira nem a segunda nem a terceira vez que caprichei em ser Fagner, o agora oitavo dan na arte da estupidez. Posso, após esta manhã, ser um instrutor da imbecilidade. Aprendizado garantido.

Hoje, como de costume, acordei com um palavrão à mente. Não me recordo qual e não vou gastar o que me resta de impulso nervoso neste momento. Havia me deitado perto de 1h30, depois de 20 horas acordado – isso não difere muito da rotina semanal, pois acordo às 5h30 e me deito sempre perto da meia-noite.

Levantei-me às pressas, tirei o cobertor com toda força (mania que deixa a esposa muito contente), corri para o banheiro. Escovei os dentes com tanta rapidez e força que podia ver as raízes de toda a minha arcada dentária cerrando os olhinhos por causa da claridade nunca vista. Tomei meu banho e, em 10 minutos, já estava me enxugando e colocando o desodorante. Fui correndo para o quarto.

Excepcionalmente hoje, minha esposa também tinha que acordar muito cedo, pois entraria às 7h no trabalho. Portanto, minha rotineira preocupação em não acordá-la não foi necessária, logo, ela acordou.

– Sabe que horas são, Fá?

Estar em pé há uns 20 minutos e já ter tomado banho não me fizeram pensar numa coisa tão óbvia, principalmente, para quem está se arrumando. Quem se arruma com tanta pressa, certamente sabe o tempo que tem, certo? Não se você for eu.

A pergunta me pegou como uma nota de falecimento de um ente querido. Um curta-metragem (afinal, fazia pouco tempo que estava acordado) me passou pela cabeça e percebi que nem sequer peguei no celular para ver as horas.

“3:17” dizia o celular, que deixou um sorriso escapulir pela sua tela.

Sequei o cabelo, deitei de novo, consumido por dois sentimentos; a felicidade de poder dormir mais duas horas e a depressão por mais uma vez provar meu talento nato.

Interessado em ser uma anta? Envie seu e-mail e aguarde a minha mensagem com o passo a passo.

Obrigado.

Conversa de pai, Nada de Cinema, Opinião

Um ano de Artur

(Viu Um Ano de Sofia?)

 

Quando a médica disse, na sala de ultrassom, é um menino, percebi que eu tinha uma certa preferência por menina. Fiquei surpreso tanto pelo fato de ser um filho homem, quanto por ter havido essa surpresa.

Afinal, ter uma menina era algo que eu conhecia, já tinha dado certo (demais), saberia por onde andar ou, pelo menos, poderia errar menos. Se você tivesse uma filha como a Sofia e tivesse esperando mais um rebento, muito provavelmente iria me entender. É inevitável.

Pairava, inclusive, desde o início da gravidez, uma dúvida: iríamos gostar dele tanto quanto dela? Racionalmente, eu sabia que sim, porque todo mundo aprende que os pais amam aos filhos igualmente – independente de ter mais afinidade com um ou com outro. Emocionalmente, porém, era meio improvável amar mais um, como se meu coração de pai estivesse maciçamente preenchido pela Sofia e viesse alguém dizendo: “Oi, tudo bem? Prazer te conhecer! Agora empurra a Sofia um pouco para o lado, isso, aperta aí um pouco mais, isso, só mais um pouquinho, obrigado”. Podia até ouvir a Sofia gritando “papai, eu estou caindo aqui, não tá vendo?”.

Claro que depois de alguns minutos, eu já estava muito feliz com a ideia e via inúmeras vantagens de ter um moço; não iria querer matar mais filhos dos outros quando namorassem minha filha, não iria ter vontade de me suicidar em mais um casamento, não iria chorar nu em posição fetal no chão frio do banheiro nas noites que elas saíssem para dormir fora etc. Falando sério, é alguém igual a mim, em importantes aspectos, com grandes chances de passar por muita coisa que eu já passei. Sofrer com o que eu sofri, machucar, aprender, ensinar. É como aconselhar e ajudar o filho com mais propriedade, conhecendo mais do assunto. Enfim, ser mais útil.

Há exatamente um ano, quando finalmente chegou o menino, já com o nome de Artur, via a criança mais doce que já conheci. Linda. Aquela dúvida de amar tanto quanto a irmã mais velha, aos poucos, foi se mostrando cada vez mais idiota. Aquele coração, aparentemente preenchido, parece ter se duplicado, dia após dia, ou como se naquele mesmo espaço, Sofia e Artur estivessem se misturando homogeneamente.

Ingênuo de tudo, eu imaginava querer alguém como a Sofia. No entanto, fui percebendo que os dois são extrema e maravilhosamente diferentes. Eles se complementam nos mínimos detalhes. É o sereno com a serelepe. O dependente Artur, a invariavelmente independente Sofia. O preguiçoso, a ansiosa, o passivo, a hiperativa. E mesmo ainda novos, estas diferenças são cada vez mais perceptíveis (ao dar o leite para Sofia, por exemplo, nessa mesma idade, ela tirava a nossa mão para segurar sozinha a mamadeira; o mocinho, assim que encostamos para mudá-la de posição, já solta).

E quando digo que meu filho é doce, não é exagero, tampouco corujismo. Para rir, o Artur basta estar acordado. Claro, vez ou outra, podemos vê-lo chorando, mas provavelmente estará com fome ou então a mãe chegou do trabalho e ainda não o pegou no colo. Não é raro passar um dia sem escutar um choro ou reclamação sua. Até olhando um outro aspecto que preocupa boa parte dos pais, ele se supera, sendo muito dorminhoco desde que nasceu. Mesmo quando acorda, é tranquilo, sem muito estardalhaço. Frequentemente chego ao seu quarto e o encontro no berço, acordado, apenas brincando com alguma coisa ou em pé segurando nas grades, esperando alguém para pegá-lo.

Então, não estou tentando ser engraçado quanto digo que a única coisa que sei fazer direito são filhos. Aliás, sendo mais justo, devo muito da preciosidade dos filhos à sua mãe. Nem digo estas coisas por hoje também ser o Dia Internacional da Mulher, mas porque, como disse no primeiro aniversário da Sofia, Tati já nasceu mãe, já nasceu mulher, madura. Meu trabalho basicamente é não atrapalhar, orar para que se pareçam menos comigo (em qualquer aspecto) e mais com ela. Resumindo: que eu não os estrague.

Isso tudo, por fim, me leva a achar, apenas achar, ter uma leve impressão de que o dia 8 de março é ainda mais importante para mim, hoje.

Por isso, um feliz aniversário, Artur. Daqui a alguns anos, quando ler isso aqui, peço desculpas por ter sido tão imbecil em esperar, mesmo que por pouco tempo, alguém que não fosse exatamente como você é, para ser irmão da Sofia, para ser nosso filho. Você é bem mais do que eu sequer imaginava, seu pentelho fofo sem vergonha.

E – aproveitando – às mulheres, Sofia, Tati e minha mãe (agradeço a Deus todos os dias pela Sofia se parecer em todos os sentidos contigo, mamãe), um feliz Dia Internacional da Mulher.

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Hereditariedade zero, amém!

– Papai, deixa eu falar?

O pneu do carro havia furado na Av. 9 de julho, perto do Itaim, logo depois de eu ter deixado a esposa no trabalho. Isso não seria complicado, não estivessem meus dois filhos no banco de trás; Sofia com 4 anos comemorados há duas semanas, e Artur, prestes a completar seu primeiro aniversário.

Para piorar, Sofia queria ir ao banheiro (“número 1, sem picles”) e Artur, também (“número 2, capricha no molho”). Mas como ele usa fraldas, o seu tempo entre querer e fazer gira em torno de 2 a 3 segundos, logo ali mesmo o fez. A sorte voltou, depois de me abandonar às traças, e o objeto não identificado no pneu tinha um tipo de “cabeça” que não deixava o ar escapulir tão rapidamente. Percebi que poderia ir para casa, onde seria mais fácil colocar o estepe.

É a quarta vez que eu tenho problema com carro. A primeira com Artur e a segunda com a Sofia – a primeira foi em plena Cidade Jardim, com a bateria morta sem chances de ressurreição, num dia em que choviam oceanos em São Paulo. Não sei quem já passou por isso, mas é terrível. É uma situação comum, claro, nada demais, mas que causa um desconforto incomum quando se está sozinho com os filhos. Você se sente culpado por ter deixado aquilo acontecer, fica pensando onde errou, como irá fazer, quem irá chamar, se há alguém para ajudar, se as crianças estarão com fome, sede. No fim, bem verdade, quando tudo se resolve, nota que nem sequer perceberam o que aconteceu, mas até lá…

Cheguei em casa apartamento, fiz o que tinha que fazer com as crianças, peguei alguns brinquedos de morder, uns papéis e lápis de cor para a Sofia colorir nas escadas perto do carro, desci com eles e coloquei o Artur no bebê-conforto num lugar onde pudesse me ver (deixá-lo engatinhando na garagem do condomínio não me parecia a melhor das ideias).

Era 1h da tarde, sol bombando, cabeça quente e doendo (dói todo fim de semana, quando não tomo café) e com o aniversário do Guga (meu sobrinho) começando às 14h. Sem falar que, antes de ir para a festa, eu precisaria ainda dar um banho no Artur e alimentá-lo. Por estar trocando pneu, eu também teria que tomar banho.

Bom, depois de bagunçar tudo o que estava no porta-malas, buscando o estepe, vi que este fica embaixo do porta-malas, do lado de fora. Ainda assim, anos se passaram até eu conseguir tirar a roda dali. Sou um asno neste assunto, já devem ter notado, mas eu teria cerca de 50 ideias de lugares e formas mais simples para prender a roda reserva sem ter que sujar até o sovaco. Tinha jogado duas horas de futebol pela manhã, suficientes para deixar qualquer sedentário nato como eu com coordenação motora e força muscular debilitadas. E assim, desprovido de qualquer energia, fui tentar desparafusar a roda.

Acredito que em partos normais de crianças acima de 5 kg, a mulher faça força similar a que eu fazia – ou imaginava estar fazendo. Tive a impressão de que se fizesse um pouco mais de força, eu teria mais um filho ali mesmo. Cansei e me sentei no chão, com os braços sobre as pernas, suando sangue. Sofia, que estava perto, pedindo para me ajudar o tempo inteiro, e eu negando (preocupado em mantê-la numa distância segura do carro), chegou mais perto, olhou para mim e disse:

– Papai, deixa eu falar?

– Fala, Sofia.

– Tenta com o pé.

Olhei para ela, sorrindo e com os olhos brilhando (um pouco por querer chorar, um pouco pela força que estava fazendo, um pouco de felicidade por ela ser muito mais inteligente que eu), e só consegui responder.

– Obrigado, linda. Seu pai é muito lento e você é uma linda.

Foi único eufemismo leve para o mais correto “seu pai é uma anta!”. Consegui desparafusar a roda, é claro.

Menina esperta.

Nada de Cinema, Rapidinha

Check-in (ou Como deixar sua manhã mais divertida)

21h30 – Saindo da casa do cunhado.

22h – Vendo jogo do São Paulo, pela TV.

00h – Indo para cama e colocando o despertador para tocar mais cedo, pois quinta-feira é dia de ir de ônibus.

5h – Acordando – aquela mesma vontade de xingar de sempre.

5h10 – Tomando banho, escovando os dentes e mirando o ralo pra fazer o xixi matinal.

5h20 – Penteando o cabelo.

5h22 – Procurando a carteira pela casa.

5h24 – Procurando a carteira pela casa – os primeiros palavrões passando pela cabeça.

5h26 – Descendo o elevador, para procurar a carteira no carro – falando muitos palavrões.

5h29 – Subindo elevador, para saber se a esposa (ainda dormindo) sabe onde está o que procuro – inventando novos palavrões.

5h32 – Percebendo que esqueci a carteira no cunhado – gritando histericamente outros novos palavrões.

5h33 – Pegando o bilhete único da esposa.

5h38 – Entrando no ônibus, pensando o que vou comer durante o dia – xingando todas as pessoas que conheço.

5h48 – Descobrindo que a chave do carro ficou no meu bolso, lembrando que a esposa iria de carro – xingando todo mundo que não conheço.

5h53 – Entrando no ônibus de volta pra casa – xingando todos aqueles que ainda irão nascer.

5h58 – Mandando mensagem para esposa, no ônibus, dizendo que estou voltando pra casa – lembrando da música do Lulu Santos.

6h – Me esquecendo de dar sinal para o ônibus parar em frente de casa – pensando em suicídio.

6h03 – Descendo um ponto depois de casa, o final, no Terminal Capelinha.

6h06 – Terminando de subir as infindáveis rampas do Terminal, voltando a pé para casa.

6h15 – Chegando em casa.

6h16 – Devolvendo o bilhete único para esposa.

6h21 – Indo de carro para o trabalho, sem carteira, para não atrasar. E deixando a esposa na mão.

6h22 – Tomando a decisão de esfaquear quem me desejar bom dia.

Conversa de pai, Diversos, Nada de Cinema, Opinião

Uma consulta perfeita

– Número 003!

– Opa, nossa vez. Sofia e Artur, venham!

– Olá, eu sou o Dr. Paulo. Prazer!

– Tati, Sofia, Artur. E eu sou o Fagner. Prazer é nosso.

– Wagner?

– Não. Fagner com “F” de faca.

– Hmm. Igual ao cantor? Sabe cantar também?

– Sim. Quer dizer, “sim” para a parte do igual ao cantor. E “não”, não sei cantar.

– Que filhos lindos!

– Muito obrigado.

– Podem se sentar.

– Dr. Paulo, já adianto que é um tanto quanto incomum o que vamos te falar.

– Fique à vontade.

– Ontem à tarde, fomos ao parque Villa-Lobos. Brincamos um pouco e tal, até que começou a chover. Aí, pedimos ao Artur que parasse de jogar bola, para não se machucar. Mas sabe como é criança nessa idade…

– Ele tem quantos anos?

– 7 anos. Então, não deu outra. Foi dar uma arrancada e acabou escorregando. Caiu igual a uma jaca. Aí vem a parte bizarra. Entrei na quadra pra ajudá-lo, ver se estava tudo bem, quando, do nada, me deu uma puta dor no braço.

– Há um bom tempo vocês não vêm ao hospital, né?

– Sim, sim. Aí, com certa dificuldade consegui levantá-lo. Em questão de segundos, ele já estava bem e só não continuou jogando bola, porque a mãe fez uma proposta irrecusável (só um terrorismo psicológico, envolvendo um cavalo decepado, baldes de sangue e louça suja). Só quando voltei para o carro, pude perceber que meu braço, além de muito dolorido, estava suavemente torto. Mas resolvi deixar pra lá, achando que uma hora ou outra iria voltar ao normal. Enfim, não aguentei a dor e hoje pela manhã, vim para hospital.

– Está com o Raio-X?

– Aqui está. O senhor pode aproveitar e me receitar um remédio para febre e dor de cabeça? E um de tosse para minha esposa.

– O senhor está com dor de cabeça e febre?

– É, até pensei que devia ser algum reflexo desse lance do braço, mas me lembro de ter sentido fortes dores de cabeça ontem cedo, mas como é comum eu ter dor de cabeça, nem dei bola. Agora, a febre deve ser por causa do braço, né?

– Talvez. E a tosse da senhora?

– Então, acho que estou resfriada. Começou também essa noite. Mas antes que pergunte, não, eu não tomei chuva. Estava com um guarda-chuva no carro…

– E a sua filha Sofia? Perdoem o trocadilho.

– Ela está bem.

– Não, quero dizer ela tomou chuva?

– Sim, tomou, estava com algumas amigas, brincando de patins, mas ela está bem.

– Ok, muito bem. Comecemos pelo Artur…

– Artur?

– Isso. Infelizmente, seu filho fraturou o braço.

– Desculpa? O senhor quis dizer eu, Fagner, certo? Prossiga.

– Não, o Artur mesmo. Mas não se preocupem, pois não é nada grave. Em uns 30 dias, ele já estará recuperado. Só teremos que colocar o braço do senhor no lugar e engessá-lo.

– Oi?

– Não souberam dos últimos avanços da medicina, suponho. Deve ter sido este tempo longe dos hospitais.

– Sim, claro, acredito que tenha avançado, mas o senhor só está confundindo os nomes. Apesar de meu filho Artur ter caído, ele não quebrou nenhum membro. Veja, é meu braço que está torto.

– Vamos lá. Nós médicos, juntamente com cientistas e em parceria com Jesus Cristo, até porque era necessária sua participação de forma direta…

– Espera. Jesus? Tipo “o” Jesus. Do céu e tal?

– Esse. Nós fizemos uma pequena alteração em questões que envolvem dor, mal estar ou algo parecido nas crianças abaixo de 12 anos. Até porque, depois disso, já adolescentes eles têm mais é que sofrer mesmo.

– Tem alguma câmera aqui? É algum tipo de piada?

– Sr. Wagner, não brinco com coisa séria nem com nada envolvendo qualquer nome celestial. Posso continuar?

– Desculpa, quer que eu finja que estou acreditando ou prefere que eu continue com essa cara de cínico?

– Como quiser. Fato é que as crianças não mais sentem fortes dores, mas apenas uma pequena, suficiente para aprenderem e não repetirem mais.

– A-han. Então, segundo sua ideia mirabolante, esta tosse da minha esposa deve ser da chuva que a Sofia tomou ontem.

– Acredito que sim. Mas o que mais me preocupa é esta febre e dor de cabeça. O senhor tem vomitado?

– Não. Ás vezes, eu vomito por ter comido demais. Fico sentado comendo e, só quando me levanto, percebo que comi mais do que deveria.

– Mas de anteontem pra hoje, alguma vez?

– Não.

– Bom, de todo modo, teremos que retirar líquor do senhor, apenas para eliminar que seus filhos estejam com alguma coisa mais grave. É uma agulha um pouco grossa. Vão enfiar na medula do senhor e recolher este líquido. Vai doer bastante. Tome esta via, leve para a enfermeira na terceira porta do corredor à esquerda e ela te encaminha para o setor responsável por este procedimento.

– COF! COF! COF! COF!

– Seria excelente essa história toda…

– COF! COF! COF! COF!

– Que história?

– …mas, apesar de fazer muito sentido, tenho certeza de que deve ter bebido mais do que deveria, doutor!

– Doutor?

– COF! COF! COF! COF! COF! COF!

– Isso. Conheço bem de hospital. Até os primeiros anos da Sofia, eu costumava ir semp…

– Está ficando doido, Fá?

– Hmm? A voz do senhor costuma ficar fina assim do nada, doutor!

– Fá. Ei! Fá! Fagner!?

– Hmm?

– Acorda! A Sofia continua tossindo. Esse tempo seco maldito. Fá, Fá! ACORDA!

– Oi!

– A Sofia. Temos que fazer alguma coisa. Ela não para de tossir.

– Eu sei, eu sei. Vamos colocar um balde de água lá de novo. O umidificador de ar chega essa semana.

– Estava sonhando?

– Sim.

– Com o quê?

– Deixa pra lá. Volte a dormir. Pode deixar que vou no quarto dela.