Diversos, Opinião

Sobrepesos e Medidas

[Texto originalmente escrito em agosto de 2014. Perdi boa parte dos textos do blog – este é um dos recuperados]

Quase toda criança tem uma característica física marcante, daquelas pelas quais serão eternamente lembradas. Algumas destas, inclusive, responsáveis por pequenos traumas. Comigo não foi diferente.

Quando pequeno, e até chegar aos vinte e poucos anos, eu era conhecido nos lugares onde morava por ter total ausência de gordura e músculo no corpo. Basicamente, eu tinha pele, ossos e, a julgar pelo peso e aparência, meia dúzia de órgãos que me mantinham razoavelmente vivo. Eu era assustadoramente magro. Era difícil até me enxergar (sabe quando você cerra os olhos pra ver uma linha que não está vendo direito?).

Pra piorar, havia um pequeno detalhe: as orelhas. Eu nasci com as orelhas de um senhor de 160 anos. Sim, isso me dava uma aerodinâmica meio ruim e esteticamente lamentável.

A única coisa que tornava minha infância menos dolorosa é que todos em casa me aceitavam do jeito que eu era. Meu irmão, carinhosamente, me chamava de Topo Gigio. Meus pais sempre o repreendiam – preferiam Dumbo (não por causa do peso, claro).

Minha avó era uma das que mais reclamava de minha magreza. Vivia cochichando pra minha mãe, lavando roupa, enquanto eu brincava de bola na rua, lá em Anápolis: “fique mais atenta, querida, pois seu filho mais velho está roubando comida do Dumbinho”. Da rua eu escutava.

A parte curiosa é que sempre comi muito. Meu metabolismo, ainda hoje, é do tipo que se eu ficar mais meia hora sentado à mesa após o almoço, a fome volta e começo a comer de novo. No entanto, antes, esse apetite todo não resultava em aumento de peso.

Eu disse antes. Precisamente antes de 2008.

No dia 14 de agosto daquele ano, estava me casando e, comprovando a máxima de que quem casa, engorda, aos poucos vi a balança se manifestando positivamente. A barriga que era negativa criava um pequeno volume, como se órgãos novos estivessem surgindo. Meu pâncreas deve ter só uns 5, 6 anos de idade.

Esses gramas a mais me alegraram bastante. E com o tempo, passou a ser perceptível aos olhos alheios, pois logo surgiram os primeiros elogios“ah, agora consigo te ver melhor”“nossa, a AIDS tem cura”“cadê o Fagner?”“caramba, tá dando pra te ver de lado”.

Até o relacionamento melhorou, já era possível abraçar a esposa sem machucá-la. Sofia não chorava quando a pegava no colo (Artur ainda não tinha chegado). Comecei a vestir 36. Parei de ter medo de varandas mais altas. Arriscava até um passeio na praia sozinho.

Passaram-se mais alguns meses e a balança danadinha, que aumentava grama por grama, percebeu que poderia arriscar mais, pulando de quilo em quilo. A calça 36 virou 38. A camiseta PP virou P. Claro, nunca fui sinônimo de masculinidade, então, minhas roupas são um pouco mais justas do que um homem normal usaria.

Bom, a verdade é que as coisas fugiram um pouco do controle.

Reparei, por exemplo, que sempre que usava uma determinada calça, que antes usava sem dificuldades, meu dia era terrível. Qualquer coisa que acontecia no trabalho, eu ficava vermelho de raiva. Ou roxo, se fosse mais ao fim do dia. Só quando chegava em casa que as coisas melhoravam. Até pensei que era a presença dos filhos, o abraço da esposa. Mas não era isso. Eu respirava(!) melhor à noite. A calça, percebi, dificultava a circulação nas pernas e ao usá-la, parecia que tudo ia explodir. A calça e eu.

Muitos amigos tentaram me avisar, dizendo que eu havia engordado, que não era mais o magrelo de antes, que nem Deus era mais justo que as calças que eu usava, que eu poderia ficar infértil, mas eu não acreditava.

Finalmente, parei de mentir pra mim mesmo.

Agora, vejo que as roupas, cada dia mais, estão diminuindo. Quando estou em pé, só vejo a ponta do tênis. O cós da calça vive dobrado, mostrando a etiqueta. Meu cofrinho, que agora tem nome, Clayton, todos já viram. Quando estou de camiseta, dá pra ver um tufinho de cabelo cobrindo uma pança esbranquiçada. E se tento sentar de camisa social, consigo ouvir o gemido dos botões.

Hoje mesmo, pra colocar uma calça que antigamente sambava na minha cintura, precisei ficar na ponta dos pés, fazer peito de pombo e uma oração bem fervorosa pra conseguir fechar o zíper. Ainda estou respirando com certa dificuldade.

Alguns que me conhecem de uns anos pra cá, com certeza, podem estar pensando que sou exagerado. Mas quem me viu antes de 2008, sabe que estou falando é de um milagre, de alguém que era “couro e osso”, e que, Aleluia!, agora vive em pleno vigor físico.

Com um pequeno toque de obesidade, mas em pleno vigor físico.

Anúncios
Conversa de pai, Opinião

Uma babá quase perfeita

[Texto originalmente escrito em junho de 2014 – Perdi boa parte dos meus textos. Este é um dos recuperados]

– Tia, pode vir aqui, por favor?
– Sim, claro.

São 6h da manhã e está um baita frio. As janelas de casa são grandes e, mesmo fechadas, não seguram muito bem a temperatura de fora. Tia Abigail termina de lavar o copo, seca as mãos e me acompanha até a sala.

– Aqui… Olha esse sofá.
– Quê que tem?
– Senta nele pra senhora ver. É impressão minha ou tem alguma coisa errada com ele?

A babá que cuida dos nossos filhos, desde que a Sofia tinha 2 anos de idade, ainda não conhece o pai maduro que as crianças têm e senta calmamente, desconfiada. “Droga, sabia que esse moço era psicopata!”, deve ter pensado.

– Se encoste! Se encoste mesmo, se aconchegue… Percebeu?

Ela se encosta e percebe um cobertor dobrado do seu lado. Abre um sorriso, afofa o sofá e diz:

– Macio, né? – responde com uma gargalhada maravilhosa.
– Exatamente. Descansa um pouco hoje, vai.
– Engraçadinho.

Saio, ainda escutando a risada dela. Como sempre, ela se levanta e volta para cozinha.

Minha esposa e eu temos o costume de deixar a casa um pouco arrumada na noite anterior. E meus filhos acordam sempre entre 9h e 10h. Ainda assim, a sra. Abigail chega e põe a mão na massa, mesmo tendo a oportunidade de deitar uma horinha e descansar.

São mais de três anos. Sempre assim.

Depois de algumas desventuras procurando a pessoa ideal para cuidar da então filha única Sofia, passando por uma babá que dormia o dia inteiro (estava sempre com cara de sono e com cabelo tão bagunçado que parecia ter saído de um furação), que deixava a menina vendo TV o dia inteiro, e também por uma amiga que nos ajudava com a filhota (com muito carinho), quando minha esposa ainda estudava… encontramos a tia Abigail. Minha sogra, sabendo do nosso desespero, se lembrou de sua tia, que podia encarar a tarefa.

Encontrar alguém para cuidar dos filhos é seguramente uma das maiores preocupações dos pais. Principalmente se for aqui em São Paulo, onde há uma chance razoável da criança conviver mais com esta pessoa do que com você, pai ou mãe. (Faça as contas, subtraindo o tempo que você passa dormindo. Entendeu?).

Um erro nessa escolha e seu filho pode ter em casa um péssimo exemplo, alguém preguiçoso, uma pessoa que não cozinha bem, que deixa a educação com a TV, que não dá atenção, impaciente etc. Sem falar nos outros absurdos, de maltratar, xingar, deseducar, espancar sem deixar marcas, jogar pela janela e tal. Bom, tem muito onde errar.

Essa segunda mãe de nossos filhos, ainda bem, está longe de qualquer dessas características acima. Transmite amor e carinho só no jeito de falar, de carregá-los no colo, conversar com eles. Curiosamente, sobra até pra nós, tratando muitas vezes como se fôssemos seus filhos.

O reflexo disso é facilmente percebido em muitas atitudes do Tutu e da Sofia. Não à toa, o menino (de 2 anos) corre pra cumprimentar senhores e, principalmente, senhoras, mesmo que sejam totalmente desconhecidos, só pela associação que faz com a tia – a quem chama de “vovó”. Por ser pentelho, o guri pode até enganar os mais distraídos, mas mesmo com essa infindável vontade de destruir nossa casa (ou qualquer lugar por onde passa), ele esbanja carinho. Se pegar ele no colo, não se assuste se, do nada, ele te apertar as bochechas e te beijar, seguido de um abraço bem apertado. Sofia, a mesma coisa, só tem uma doçura mais perceptível, porque é mais delicada.

Não seria exagero afirmar que isso tem uma influência, no mínimo, indireta da serenidade da tia Abigail, que parece estar sempre de bem com a vida, com sua voz baixinha, mansa.

Por ser parente da Tati, vira e mexe coincide de a encontrarmos em alguns eventos familiares. O Artur pode estar brincando, comendo, no colo de alguém ou fazendo qualquer outra coisa, mas se percebe que a “vovó” chegou, para tudo e vai para o colo dela.

Consegue perceber o quanto ela é importante pra nós?

Invariavelmente, quando estou saindo, encontro ela na cozinha já trabalhando. Chego do seu lado, esfrego minhas mãos em seus ombros umas seis, sete vezes (tenho essa mania com pessoas que significam muito pra mim, mas que não sei se tenho intimidade para abraçar, que é o que eu realmente gostaria de fazer), e faço as mesmas perguntas. Ouço as mesmas respostas.

– Bom dia, tia. Tudo bem?
– Bom dia. Bem e você?
– Bem. Que tal deitar um pouco?
– Nada, vou aproveitar que cheguei cedo e adiantar as coisas aqui. Assim, depois, dou mais atenção pra eles.

Difícil é ver isso todo dia e não poder apertá-la até ficar roxinha.

Se um dia encontrar por aí uma senhora que te dá uma paz instantaneamente, só de olhar, pode chamar, ela atende por Abigail.

Conversa de pai, Opinião

Mais estranho que a ficção

Antes de começar este texto, havia escrito mais de uma página sobre outro assunto. Cheguei a imprimir, pegar umas duas folhas a mais, para o caso de ter ideias complementares, e revisar no caminho para casa.

Hoje, cheguei em frente ao computador, fiz as alterações, acrescentei algumas palavras, troquei outras e… apaguei tudo. E fiz com que nem o Ctrl + Z pudesse voltar a minha decisão. E isso acontece sempre, semanalmente. Porque isso sou eu, essa impulsividade em pessoa.

Verdade seja dita, esse blog nunca viveu de maneira decente, com atualizações numa periodicidade razoável. Até tem seus momentos medianos, onde dá pra perder dois ou três minutos, mas num lugar imenso e variado como a web, ele não é nada demais. Por um simples motivo: ele é basicamente um reflexo meu.

Mais do que isso; o blog sou eu.

O Cinema Franco já começou uma faculdade. Duas. Três. Ou foram quatro? Sempre que começava, era o mesmo empenho. O mesmo pensamento de “agora é pra valer, vou começar este texto e vou até o fim”. Ele passava horas, dias pensando nos textos. Levava a sério, fazia anotações e levava pra casa. Mal dormia imaginando como seria o texto finalizado. Rasurava, tirava notas boas, levava o caderno, discutia assuntos com os colegas de sala, pedia conselhos para os professores, ficava nas palestras da semana da comunicação até o final. Mas por diversas vezes, selecionava tudo, sem muito critério ou motivo, e desistia.

O blog nem se arrependia quando tomava essa decisão, por mais imbecil que isso fosse. Sempre tinha uma resposta na ponta da língua. “Ah, não era pra mim”, “outro texto legal vai aparecer”, “isso não vai mudar a vida de ninguém”, “quem disse que preciso disso?”, “consigo viver sem esta parte da minha vida sem o menor problema”.

Quando ele parava para pensar, tinha certeza que, na verdade, não sabia muito bem para onde ir. E quando sabia, não queria. Quando queria, não tinha como, já não havia tempo ou recursos. Ideias vinham, amigos, inspirações, mas amava perder oportunidades. Ele, muitas vezes, tinha tudo para render uma ótima história, no entanto deixava passar por causa da correria, da falta de tempo ou até a sobra de tempo que, quando surgia, o deixava burro. Ele era ótimo em dar desculpas. Se não enganava os que o liam, enganava a si mesmo – pelo menos, por um certo tempo.

Mesmo sabendo que poderia se arrepender, ele desistia, parava no meio, porém sempre com aquele ar de saber o que estava fazendo. Tinha certeza do controle, de não depender daquele texto. Esperava muito dos outros (mas nunca de si mesmo), cagava regra, misturava tudo, mudava os parágrafos de posição. Outras vezes, até publicava, depois de dizer tudo o que tinha pra dizer.

É claro, havia alguns atos cujas consequências o faziam realmente se lamentar. E quando isso acontecia, o blog sumia, ficava fora do ar, isolado. Em construção. Pensativo, decidia que dali pra frente, faria tudo diferente. E quando via a luz do dia novamente, vinha com toda a força. Voltava produtivo e cheio de iniciativa, com piadas e ideias novas. Sentia-se útil e fazia até planos. Trocava o visual, lia novos livros, buscava outras inspirações, conhecia gente nova.

Todavia, depois de um tempo, percebia que não era uma mudança verdadeira, mas apenas um surto. Bastasse uma meia dúzia de primeiras linhas não muito inspiradoras, ou que não lhes saltassem os olhos, ele começava tudo de novo. Melhor, desistia de tudo de novo. Por mais que mudasse a cara, aumentassem as visitas, os comentários, os amigos, as risadas… o incômodo ainda estava lá.

Depois de muito tempo, obviamente, ele cresceu. E o que de melhor poderia aparecer, apareceu. E o mais curioso é que não foi nessa ordem. Não houve uma sequência “natural” das coisas. Porque geralmente se nasce, cresce, vê a necessidade de mudança, cresce de novo (estes últimos dois podem acontecer algumas vezes), muda e aí, então, as coisas boas aparecem.

Com o blog, não. Sem o menor merecimento, recebeu um conteúdo melhor: uma família para cuidar e chamar de sua. Uma inspiração real. Daquelas que nem o mais otimista poderia prever. Justamente com ele, um pessimista nato – apesar de se definir como realista.

Claro que, de certa forma, mesmo com tanta coisa boa, hoje ele continua sem rumo vez ou outra, indeciso, com medo, preocupado. Para dizer a verdade, não é raro ele ainda sentir vergonha de ser ele. Meio chato, pretensioso, sem noção, perdido, repetitivo, uma cópia piorada de suas influências… mas nunca se esquecendo de exibir uma autoestima de dar inveja.

A diferença é que, enfim, os momentos de lucidez e de melhora são mais frequentes e surgem naturalmente. Principalmente, quando ele pensa e escreve sobre essa família. Ele só presta quando é dela, quando está com ela, quando fala dela, quando é ela. Ele a respira e escreveria apenas sobre ela, com um baita orgulho.

É esta parte do blog que faz dele próprio um espaço um pouco mais interessante, mais vivo e muito mais feliz, embora com rotineiras ausências.

 

Cinema, Olha isso..., Opinião, Vem aí...

Trailer de The Wolf of Wall Street

Passando pelos blogues web afora, como de costume, encontro este trailer sensacional da nova parceria de Martin Scorsese com Leonardo DiCaprio, em “The Wolf of Wall Street” . É o quinto longa da dupla, desde “Gangues de Nova York” – a última, foi no excelente “A Ilha do Medo” de 2010.

DiCaprio é Jordan Belfort, corretor da bolsa de Nova York que é condenado a 20 anos de prisão, após negar ajuda à polícia na investigação de um esquema de corrupção em Wall Street no início dos anos 90.

O vídeo já mostra um pouco dos excessos que podem ter levado o corretor (e seus companheiros) à queda e um pouco de sua parceria com Donnie Azzof (Jonah Hill, de “Anjos da Lei”), além da participação maravilhosa de Matthew McCounaghey, como o mentor de Belfort, Mark Hanna. A última cena do trailer é linda.

A história é baseada em fatos reais e é contada em livro homônimo, pelo próprio personagem, que serviu de base para o roteiro de Terence Winter, roteirista de “Família Soprano”.

Conversa de pai, Nada de Cinema, Opinião

Um ano de Artur

(Viu Um Ano de Sofia?)

 

Quando a médica disse, na sala de ultrassom, é um menino, percebi que eu tinha uma certa preferência por menina. Fiquei surpreso tanto pelo fato de ser um filho homem, quanto por ter havido essa surpresa.

Afinal, ter uma menina era algo que eu conhecia, já tinha dado certo (demais), saberia por onde andar ou, pelo menos, poderia errar menos. Se você tivesse uma filha como a Sofia e tivesse esperando mais um rebento, muito provavelmente iria me entender. É inevitável.

Pairava, inclusive, desde o início da gravidez, uma dúvida: iríamos gostar dele tanto quanto dela? Racionalmente, eu sabia que sim, porque todo mundo aprende que os pais amam aos filhos igualmente – independente de ter mais afinidade com um ou com outro. Emocionalmente, porém, era meio improvável amar mais um, como se meu coração de pai estivesse maciçamente preenchido pela Sofia e viesse alguém dizendo: “Oi, tudo bem? Prazer te conhecer! Agora empurra a Sofia um pouco para o lado, isso, aperta aí um pouco mais, isso, só mais um pouquinho, obrigado”. Podia até ouvir a Sofia gritando “papai, eu estou caindo aqui, não tá vendo?”.

Claro que depois de alguns minutos, eu já estava muito feliz com a ideia e via inúmeras vantagens de ter um moço; não iria querer matar mais filhos dos outros quando namorassem minha filha, não iria ter vontade de me suicidar em mais um casamento, não iria chorar nu em posição fetal no chão frio do banheiro nas noites que elas saíssem para dormir fora etc. Falando sério, é alguém igual a mim, em importantes aspectos, com grandes chances de passar por muita coisa que eu já passei. Sofrer com o que eu sofri, machucar, aprender, ensinar. É como aconselhar e ajudar o filho com mais propriedade, conhecendo mais do assunto. Enfim, ser mais útil.

Há exatamente um ano, quando finalmente chegou o menino, já com o nome de Artur, via a criança mais doce que já conheci. Linda. Aquela dúvida de amar tanto quanto a irmã mais velha, aos poucos, foi se mostrando cada vez mais idiota. Aquele coração, aparentemente preenchido, parece ter se duplicado, dia após dia, ou como se naquele mesmo espaço, Sofia e Artur estivessem se misturando homogeneamente.

Ingênuo de tudo, eu imaginava querer alguém como a Sofia. No entanto, fui percebendo que os dois são extrema e maravilhosamente diferentes. Eles se complementam nos mínimos detalhes. É o sereno com a serelepe. O dependente Artur, a invariavelmente independente Sofia. O preguiçoso, a ansiosa, o passivo, a hiperativa. E mesmo ainda novos, estas diferenças são cada vez mais perceptíveis (ao dar o leite para Sofia, por exemplo, nessa mesma idade, ela tirava a nossa mão para segurar sozinha a mamadeira; o mocinho, assim que encostamos para mudá-la de posição, já solta).

E quando digo que meu filho é doce, não é exagero, tampouco corujismo. Para rir, o Artur basta estar acordado. Claro, vez ou outra, podemos vê-lo chorando, mas provavelmente estará com fome ou então a mãe chegou do trabalho e ainda não o pegou no colo. Não é raro passar um dia sem escutar um choro ou reclamação sua. Até olhando um outro aspecto que preocupa boa parte dos pais, ele se supera, sendo muito dorminhoco desde que nasceu. Mesmo quando acorda, é tranquilo, sem muito estardalhaço. Frequentemente chego ao seu quarto e o encontro no berço, acordado, apenas brincando com alguma coisa ou em pé segurando nas grades, esperando alguém para pegá-lo.

Então, não estou tentando ser engraçado quanto digo que a única coisa que sei fazer direito são filhos. Aliás, sendo mais justo, devo muito da preciosidade dos filhos à sua mãe. Nem digo estas coisas por hoje também ser o Dia Internacional da Mulher, mas porque, como disse no primeiro aniversário da Sofia, Tati já nasceu mãe, já nasceu mulher, madura. Meu trabalho basicamente é não atrapalhar, orar para que se pareçam menos comigo (em qualquer aspecto) e mais com ela. Resumindo: que eu não os estrague.

Isso tudo, por fim, me leva a achar, apenas achar, ter uma leve impressão de que o dia 8 de março é ainda mais importante para mim, hoje.

Por isso, um feliz aniversário, Artur. Daqui a alguns anos, quando ler isso aqui, peço desculpas por ter sido tão imbecil em esperar, mesmo que por pouco tempo, alguém que não fosse exatamente como você é, para ser irmão da Sofia, para ser nosso filho. Você é bem mais do que eu sequer imaginava, seu pentelho fofo sem vergonha.

E – aproveitando – às mulheres, Sofia, Tati e minha mãe (agradeço a Deus todos os dias pela Sofia se parecer em todos os sentidos contigo, mamãe), um feliz Dia Internacional da Mulher.

Conversa de pai, Diversos, Nada de Cinema, Opinião

Uma consulta perfeita

– Número 003!

– Opa, nossa vez. Sofia e Artur, venham!

– Olá, eu sou o Dr. Paulo. Prazer!

– Tati, Sofia, Artur. E eu sou o Fagner. Prazer é nosso.

– Wagner?

– Não. Fagner com “F” de faca.

– Hmm. Igual ao cantor? Sabe cantar também?

– Sim. Quer dizer, “sim” para a parte do igual ao cantor. E “não”, não sei cantar.

– Que filhos lindos!

– Muito obrigado.

– Podem se sentar.

– Dr. Paulo, já adianto que é um tanto quanto incomum o que vamos te falar.

– Fique à vontade.

– Ontem à tarde, fomos ao parque Villa-Lobos. Brincamos um pouco e tal, até que começou a chover. Aí, pedimos ao Artur que parasse de jogar bola, para não se machucar. Mas sabe como é criança nessa idade…

– Ele tem quantos anos?

– 7 anos. Então, não deu outra. Foi dar uma arrancada e acabou escorregando. Caiu igual a uma jaca. Aí vem a parte bizarra. Entrei na quadra pra ajudá-lo, ver se estava tudo bem, quando, do nada, me deu uma puta dor no braço.

– Há um bom tempo vocês não vêm ao hospital, né?

– Sim, sim. Aí, com certa dificuldade consegui levantá-lo. Em questão de segundos, ele já estava bem e só não continuou jogando bola, porque a mãe fez uma proposta irrecusável (só um terrorismo psicológico, envolvendo um cavalo decepado, baldes de sangue e louça suja). Só quando voltei para o carro, pude perceber que meu braço, além de muito dolorido, estava suavemente torto. Mas resolvi deixar pra lá, achando que uma hora ou outra iria voltar ao normal. Enfim, não aguentei a dor e hoje pela manhã, vim para hospital.

– Está com o Raio-X?

– Aqui está. O senhor pode aproveitar e me receitar um remédio para febre e dor de cabeça? E um de tosse para minha esposa.

– O senhor está com dor de cabeça e febre?

– É, até pensei que devia ser algum reflexo desse lance do braço, mas me lembro de ter sentido fortes dores de cabeça ontem cedo, mas como é comum eu ter dor de cabeça, nem dei bola. Agora, a febre deve ser por causa do braço, né?

– Talvez. E a tosse da senhora?

– Então, acho que estou resfriada. Começou também essa noite. Mas antes que pergunte, não, eu não tomei chuva. Estava com um guarda-chuva no carro…

– E a sua filha Sofia? Perdoem o trocadilho.

– Ela está bem.

– Não, quero dizer ela tomou chuva?

– Sim, tomou, estava com algumas amigas, brincando de patins, mas ela está bem.

– Ok, muito bem. Comecemos pelo Artur…

– Artur?

– Isso. Infelizmente, seu filho fraturou o braço.

– Desculpa? O senhor quis dizer eu, Fagner, certo? Prossiga.

– Não, o Artur mesmo. Mas não se preocupem, pois não é nada grave. Em uns 30 dias, ele já estará recuperado. Só teremos que colocar o braço do senhor no lugar e engessá-lo.

– Oi?

– Não souberam dos últimos avanços da medicina, suponho. Deve ter sido este tempo longe dos hospitais.

– Sim, claro, acredito que tenha avançado, mas o senhor só está confundindo os nomes. Apesar de meu filho Artur ter caído, ele não quebrou nenhum membro. Veja, é meu braço que está torto.

– Vamos lá. Nós médicos, juntamente com cientistas e em parceria com Jesus Cristo, até porque era necessária sua participação de forma direta…

– Espera. Jesus? Tipo “o” Jesus. Do céu e tal?

– Esse. Nós fizemos uma pequena alteração em questões que envolvem dor, mal estar ou algo parecido nas crianças abaixo de 12 anos. Até porque, depois disso, já adolescentes eles têm mais é que sofrer mesmo.

– Tem alguma câmera aqui? É algum tipo de piada?

– Sr. Wagner, não brinco com coisa séria nem com nada envolvendo qualquer nome celestial. Posso continuar?

– Desculpa, quer que eu finja que estou acreditando ou prefere que eu continue com essa cara de cínico?

– Como quiser. Fato é que as crianças não mais sentem fortes dores, mas apenas uma pequena, suficiente para aprenderem e não repetirem mais.

– A-han. Então, segundo sua ideia mirabolante, esta tosse da minha esposa deve ser da chuva que a Sofia tomou ontem.

– Acredito que sim. Mas o que mais me preocupa é esta febre e dor de cabeça. O senhor tem vomitado?

– Não. Ás vezes, eu vomito por ter comido demais. Fico sentado comendo e, só quando me levanto, percebo que comi mais do que deveria.

– Mas de anteontem pra hoje, alguma vez?

– Não.

– Bom, de todo modo, teremos que retirar líquor do senhor, apenas para eliminar que seus filhos estejam com alguma coisa mais grave. É uma agulha um pouco grossa. Vão enfiar na medula do senhor e recolher este líquido. Vai doer bastante. Tome esta via, leve para a enfermeira na terceira porta do corredor à esquerda e ela te encaminha para o setor responsável por este procedimento.

– COF! COF! COF! COF!

– Seria excelente essa história toda…

– COF! COF! COF! COF!

– Que história?

– …mas, apesar de fazer muito sentido, tenho certeza de que deve ter bebido mais do que deveria, doutor!

– Doutor?

– COF! COF! COF! COF! COF! COF!

– Isso. Conheço bem de hospital. Até os primeiros anos da Sofia, eu costumava ir semp…

– Está ficando doido, Fá?

– Hmm? A voz do senhor costuma ficar fina assim do nada, doutor!

– Fá. Ei! Fá! Fagner!?

– Hmm?

– Acorda! A Sofia continua tossindo. Esse tempo seco maldito. Fá, Fá! ACORDA!

– Oi!

– A Sofia. Temos que fazer alguma coisa. Ela não para de tossir.

– Eu sei, eu sei. Vamos colocar um balde de água lá de novo. O umidificador de ar chega essa semana.

– Estava sonhando?

– Sim.

– Com o quê?

– Deixa pra lá. Volte a dormir. Pode deixar que vou no quarto dela.