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Trailer de The Wolf of Wall Street

Passando pelos blogues web afora, como de costume, encontro este trailer sensacional da nova parceria de Martin Scorsese com Leonardo DiCaprio, em “The Wolf of Wall Street” . É o quinto longa da dupla, desde “Gangues de Nova York” – a última, foi no excelente “A Ilha do Medo” de 2010.

DiCaprio é Jordan Belfort, corretor da bolsa de Nova York que é condenado a 20 anos de prisão, após negar ajuda à polícia na investigação de um esquema de corrupção em Wall Street no início dos anos 90.

O vídeo já mostra um pouco dos excessos que podem ter levado o corretor (e seus companheiros) à queda e um pouco de sua parceria com Donnie Azzof (Jonah Hill, de “Anjos da Lei”), além da participação maravilhosa de Matthew McCounaghey, como o mentor de Belfort, Mark Hanna. A última cena do trailer é linda.

A história é baseada em fatos reais e é contada em livro homônimo, pelo próprio personagem, que serviu de base para o roteiro de Terence Winter, roteirista de “Família Soprano”.

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Um ano de Artur

(Viu Um Ano de Sofia?)

 

Quando a médica disse, na sala de ultrassom, é um menino, percebi que eu tinha uma certa preferência por menina. Fiquei surpreso tanto pelo fato de ser um filho homem, quanto por ter havido essa surpresa.

Afinal, ter uma menina era algo que eu conhecia, já tinha dado certo (demais), saberia por onde andar ou, pelo menos, poderia errar menos. Se você tivesse uma filha como a Sofia e tivesse esperando mais um rebento, muito provavelmente iria me entender. É inevitável.

Pairava, inclusive, desde o início da gravidez, uma dúvida: iríamos gostar dele tanto quanto dela? Racionalmente, eu sabia que sim, porque todo mundo aprende que os pais amam aos filhos igualmente – independente de ter mais afinidade com um ou com outro. Emocionalmente, porém, era meio improvável amar mais um, como se meu coração de pai estivesse maciçamente preenchido pela Sofia e viesse alguém dizendo: “Oi, tudo bem? Prazer te conhecer! Agora empurra a Sofia um pouco para o lado, isso, aperta aí um pouco mais, isso, só mais um pouquinho, obrigado”. Podia até ouvir a Sofia gritando “papai, eu estou caindo aqui, não tá vendo?”.

Claro que depois de alguns minutos, eu já estava muito feliz com a ideia e via inúmeras vantagens de ter um moço; não iria querer matar mais filhos dos outros quando namorassem minha filha, não iria ter vontade de me suicidar em mais um casamento, não iria chorar nu em posição fetal no chão frio do banheiro nas noites que elas saíssem para dormir fora etc. Falando sério, é alguém igual a mim, em importantes aspectos, com grandes chances de passar por muita coisa que eu já passei. Sofrer com o que eu sofri, machucar, aprender, ensinar. É como aconselhar e ajudar o filho com mais propriedade, conhecendo mais do assunto. Enfim, ser mais útil.

Há exatamente um ano, quando finalmente chegou o menino, já com o nome de Artur, via a criança mais doce que já conheci. Linda. Aquela dúvida de amar tanto quanto a irmã mais velha, aos poucos, foi se mostrando cada vez mais idiota. Aquele coração, aparentemente preenchido, parece ter se duplicado, dia após dia, ou como se naquele mesmo espaço, Sofia e Artur estivessem se misturando homogeneamente.

Ingênuo de tudo, eu imaginava querer alguém como a Sofia. No entanto, fui percebendo que os dois são extrema e maravilhosamente diferentes. Eles se complementam nos mínimos detalhes. É o sereno com a serelepe. O dependente Artur, a invariavelmente independente Sofia. O preguiçoso, a ansiosa, o passivo, a hiperativa. E mesmo ainda novos, estas diferenças são cada vez mais perceptíveis (ao dar o leite para Sofia, por exemplo, nessa mesma idade, ela tirava a nossa mão para segurar sozinha a mamadeira; o mocinho, assim que encostamos para mudá-la de posição, já solta).

E quando digo que meu filho é doce, não é exagero, tampouco corujismo. Para rir, o Artur basta estar acordado. Claro, vez ou outra, podemos vê-lo chorando, mas provavelmente estará com fome ou então a mãe chegou do trabalho e ainda não o pegou no colo. Não é raro passar um dia sem escutar um choro ou reclamação sua. Até olhando um outro aspecto que preocupa boa parte dos pais, ele se supera, sendo muito dorminhoco desde que nasceu. Mesmo quando acorda, é tranquilo, sem muito estardalhaço. Frequentemente chego ao seu quarto e o encontro no berço, acordado, apenas brincando com alguma coisa ou em pé segurando nas grades, esperando alguém para pegá-lo.

Então, não estou tentando ser engraçado quanto digo que a única coisa que sei fazer direito são filhos. Aliás, sendo mais justo, devo muito da preciosidade dos filhos à sua mãe. Nem digo estas coisas por hoje também ser o Dia Internacional da Mulher, mas porque, como disse no primeiro aniversário da Sofia, Tati já nasceu mãe, já nasceu mulher, madura. Meu trabalho basicamente é não atrapalhar, orar para que se pareçam menos comigo (em qualquer aspecto) e mais com ela. Resumindo: que eu não os estrague.

Isso tudo, por fim, me leva a achar, apenas achar, ter uma leve impressão de que o dia 8 de março é ainda mais importante para mim, hoje.

Por isso, um feliz aniversário, Artur. Daqui a alguns anos, quando ler isso aqui, peço desculpas por ter sido tão imbecil em esperar, mesmo que por pouco tempo, alguém que não fosse exatamente como você é, para ser irmão da Sofia, para ser nosso filho. Você é bem mais do que eu sequer imaginava, seu pentelho fofo sem vergonha.

E – aproveitando – às mulheres, Sofia, Tati e minha mãe (agradeço a Deus todos os dias pela Sofia se parecer em todos os sentidos contigo, mamãe), um feliz Dia Internacional da Mulher.

Uma consulta perfeita

– Número 003!

– Opa, nossa vez. Sofia e Artur, venham!

– Olá, eu sou o Dr. Paulo. Prazer!

– Tati, Sofia, Artur. E eu sou o Fagner. Prazer é nosso.

– Wagner?

– Não. Fagner com “F” de faca.

– Hmm. Igual ao cantor? Sabe cantar também?

– Sim. Quer dizer, “sim” para a parte do igual ao cantor. E “não”, não sei cantar.

– Que filhos lindos!

– Muito obrigado.

– Podem se sentar.

– Dr. Paulo, já adianto que é um tanto quanto incomum o que vamos te falar.

– Fique à vontade.

– Ontem à tarde, fomos ao parque Villa-Lobos. Brincamos um pouco e tal, até que começou a chover. Aí, pedimos ao Artur que parasse de jogar bola, para não se machucar. Mas sabe como é criança nessa idade…

– Ele tem quantos anos?

– 7 anos. Então, não deu outra. Foi dar uma arrancada e acabou escorregando. Caiu igual a uma jaca. Aí vem a parte bizarra. Entrei na quadra pra ajudá-lo, ver se estava tudo bem, quando, do nada, me deu uma puta dor no braço.

– Há um bom tempo vocês não vêm ao hospital, né?

– Sim, sim. Aí, com certa dificuldade consegui levantá-lo. Em questão de segundos, ele já estava bem e só não continuou jogando bola, porque a mãe fez uma proposta irrecusável (só um terrorismo psicológico, envolvendo um cavalo decepado, baldes de sangue e louça suja). Só quando voltei para o carro, pude perceber que meu braço, além de muito dolorido, estava suavemente torto. Mas resolvi deixar pra lá, achando que uma hora ou outra iria voltar ao normal. Enfim, não aguentei a dor e hoje pela manhã, vim para hospital.

– Está com o Raio-X?

– Aqui está. O senhor pode aproveitar e me receitar um remédio para febre e dor de cabeça? E um de tosse para minha esposa.

– O senhor está com dor de cabeça e febre?

– É, até pensei que devia ser algum reflexo desse lance do braço, mas me lembro de ter sentido fortes dores de cabeça ontem cedo, mas como é comum eu ter dor de cabeça, nem dei bola. Agora, a febre deve ser por causa do braço, né?

– Talvez. E a tosse da senhora?

– Então, acho que estou resfriada. Começou também essa noite. Mas antes que pergunte, não, eu não tomei chuva. Estava com um guarda-chuva no carro…

– E a sua filha Sofia? Perdoem o trocadilho.

– Ela está bem.

– Não, quero dizer ela tomou chuva?

– Sim, tomou, estava com algumas amigas, brincando de patins, mas ela está bem.

– Ok, muito bem. Comecemos pelo Artur…

– Artur?

– Isso. Infelizmente, seu filho fraturou o braço.

– Desculpa? O senhor quis dizer eu, Fagner, certo? Prossiga.

– Não, o Artur mesmo. Mas não se preocupem, pois não é nada grave. Em uns 30 dias, ele já estará recuperado. Só teremos que colocar o braço do senhor no lugar e engessá-lo.

– Oi?

– Não souberam dos últimos avanços da medicina, suponho. Deve ter sido este tempo longe dos hospitais.

– Sim, claro, acredito que tenha avançado, mas o senhor só está confundindo os nomes. Apesar de meu filho Artur ter caído, ele não quebrou nenhum membro. Veja, é meu braço que está torto.

– Vamos lá. Nós médicos, juntamente com cientistas e em parceria com Jesus Cristo, até porque era necessária sua participação de forma direta…

– Espera. Jesus? Tipo “o” Jesus. Do céu e tal?

– Esse. Nós fizemos uma pequena alteração em questões que envolvem dor, mal estar ou algo parecido nas crianças abaixo de 12 anos. Até porque, depois disso, já adolescentes eles têm mais é que sofrer mesmo.

– Tem alguma câmera aqui? É algum tipo de piada?

– Sr. Wagner, não brinco com coisa séria nem com nada envolvendo qualquer nome celestial. Posso continuar?

– Desculpa, quer que eu finja que estou acreditando ou prefere que eu continue com essa cara de cínico?

– Como quiser. Fato é que as crianças não mais sentem fortes dores, mas apenas uma pequena, suficiente para aprenderem e não repetirem mais.

– A-han. Então, segundo sua ideia mirabolante, esta tosse da minha esposa deve ser da chuva que a Sofia tomou ontem.

– Acredito que sim. Mas o que mais me preocupa é esta febre e dor de cabeça. O senhor tem vomitado?

– Não. Ás vezes, eu vomito por ter comido demais. Fico sentado comendo e, só quando me levanto, percebo que comi mais do que deveria.

– Mas de anteontem pra hoje, alguma vez?

– Não.

– Bom, de todo modo, teremos que retirar líquor do senhor, apenas para eliminar que seus filhos estejam com alguma coisa mais grave. É uma agulha um pouco grossa. Vão enfiar na medula do senhor e recolher este líquido. Vai doer bastante. Tome esta via, leve para a enfermeira na terceira porta do corredor à esquerda e ela te encaminha para o setor responsável por este procedimento.

– COF! COF! COF! COF!

– Seria excelente essa história toda…

– COF! COF! COF! COF!

– Que história?

– …mas, apesar de fazer muito sentido, tenho certeza de que deve ter bebido mais do que deveria, doutor!

– Doutor?

– COF! COF! COF! COF! COF! COF!

– Isso. Conheço bem de hospital. Até os primeiros anos da Sofia, eu costumava ir semp…

– Está ficando doido, Fá?

– Hmm? A voz do senhor costuma ficar fina assim do nada, doutor!

– Fá. Ei! Fá! Fagner!?

– Hmm?

– Acorda! A Sofia continua tossindo. Esse tempo seco maldito. Fá, Fá! ACORDA!

– Oi!

– A Sofia. Temos que fazer alguma coisa. Ela não para de tossir.

– Eu sei, eu sei. Vamos colocar um balde de água lá de novo. O umidificador de ar chega essa semana.

– Estava sonhando?

– Sim.

– Com o quê?

– Deixa pra lá. Volte a dormir. Pode deixar que vou no quarto dela.

Ela é demais

Não poderia ser coisa só da minha cabeça. Apesar de muito coruja, algumas coisas na Sofia não pareciam ser normais nem muito comuns às outras pessoas. E neste último domingo, na programação do dia dos pais na sua Escolinha, eu tive mais uma das muitas provas de que ela é, sim, um absurdo.

Voltando um pouco a fita… A ida para a escola antes dos sete anos de idade nunca me pareceu uma boa ideia. Não sei se estou exagerando, mas é um dos momentos-chave da vida do ser humano, pois dali só se sairá depois de, no mínimo, 15 anos. É ali onde vai aprender a se relacionar com o mundo, com professores, com o outro, com a adversidade, na prática – e nada de fazer piadinhas sobre outras coisas que ela vai aprender, ok? Mas tão, ou mais relevante que estas coisas, é o fato de que uma parte da educação agora se encontra em outras mãos. Nas mãos da professora, da instituição e (por que não?) dos pais das outras crianças. Sem falar naquele nó na garganta (ou “naganta”, como Sofia prefere falar) em forma de frase: minha filha está crescendo.

Porém, com a chegada de Artur, que divide o posto de criatura mais linda do mundo com sua irmã, foi inevitável matricular a pequena na Escola Modelo do UNASP, campus I. Então, o motivo de chorar ao vê-la entrando na escolinha no dia 31 de julho, era justamente por causa deste emaranhado de sentimentos e pensamentos que me passavam pela cabeça naquele instante. Mas, como racionalmente já sabia, mesmo neste pouco tempo, aquele novo mundo já fez bem à minha princesa que, mais do que antes, está se desenvolvendo a olho nu. Sem perder, no entanto, sua essência.

Na sexta-feira antes do dia dos pais, a escola já começou jogando baixo, fazendo a Sofia me entregar um coraçãozinho com gravata e uma arte by Sofia na parte de dentro. Já tive falência múltipla dos órgãos. Descobri, logo depois, que a programação seria no domingo seguinte ao dia dos pais. E já comecei um tratamento para não passar mal e estragar a festa, afinal, até um total desconhecido poderia olhar para mim e dizer “esse aí é chorão, hein?”. Sem fugir do assunto, mas para mostrar o quanto isto é possível, já chorei de soluçar num ônibus, depois de ler um trecho de “Um Dia”, no ano passado.

Sofia, inclusive, enquanto o dia não chegava, deixava escapulir uma ou outra parte da música que iria cantar. Isso já me fazia brilhar os olhos. Eu mesmo pedia para parar, porque era surpresa.

Até que chegou o dia.

Como é comum na família Aleluia, chegamos um pouco atrasados e os pais já estavam no meio da quadra do ginásio, sentados, enquanto alguém falava alguma coisa que jamais seria compreendida naquela acústica típica de ginásio. Sentamos e, depois de pouco tempo, chegou a hora da música de homenagem aos pais, “O Meu Pai é Meu Herói”. Mais um jogo baixo.

As crianças, em fila indiana, foram para frente fazendo um grande coral. Sofia ficou na frente, à esquerda, ao lado da fofíssima Maria Lara, sua amiga desde que nasceu. A Mamãe Tati logo se prontificou a registrar o momento e foi ficar mais perto do coral. De longe, vi Sofia falar alguma coisa para Mamãe, parecia procurar alguma coisa. Olhei para Tati, que mexeu os lábios, “Sofia te quer aqui mais perto”.

Aí comecei a parar de enxergar, as lágrimas doidinhas para cair embaçaram meus olhos, mas fui forte, “não seja tão previsível, Fagner”, dizia para mim mesmo. Não caíram. Não ainda. Fui mais para frente, onde ela conseguisse me enxergar, perto da Mamãe que, esperta, já me avisou “não chora, ela pode pensar que não está gostando”. “Vou tentar”.

Mal sabia eu que o motivo da Sofia me querer por perto era para justamente me olhar. Não em alguns momentos específicos, mas durante a música inteira. Um olhar diferente. Conversamos, sem dizer uma só palavra, até a canção acabar. Posso estar enganado em achar que ela foi a única a olhar para o pai o tempo inteiro. Com 3 segundos de música, eu já não via mais ninguém, só ela – e ela, somente a mim.

– Ei, pai, eu estou bem.

– Certeza, mocinha? Mas e essa professora, ela te trata bem? Você tem comido bem, quando está na escolinha? Alguém te tratou mal longe de casa? E essas amiguinhas, Gabi, Ana Júlia, são legais? Quem é este tal de Victor, de quem você fala de vez em quando?

– Pai, eu estou bem.

– Tenho sido presente o suficiente? Desculpa ser bravo de vez em quando? Desculpa não saber o que fazer, às vezes. Desculpa se fui impaciente.

– Pai, eu te amo.

– Também te amo, pentelha. Muito.

Não dissemos. Sentimos.

No fim da música e com as crianças saindo, Sofia deixou a fila e correu para me abraçar. E dessa vez, falando.

– Te amo, papai!

– Te amo também, guria!

E inspirada pelo filme “Enrolados”, ela respondeu:

– Te amo muito mais!

Duvido, mocinha.

Abrahan Lincoln – Caçador de Vampiros

Abrahan Lincoln

Muitos já passaram pela experiência de ler livros que se tornaram – ou iriam se tornar – filmes. Algumas vezes, fazem isso propositadamente. Comigo, apreciador de uma boa leitura e de um bom cinema, não é diferente. Vira e mexe, aparece um longa-metragem que já tenha visto sua origem impressa ou adaptações de HQs lidas – estas, diferentemente dos livros, são quase sempre um mix de várias histórias antes publicadas. Li aqueles que tempos depois se transformariam em película e eu teria o privilégio de saber o cerne da trama ou personagens, cenários e detalhes importantes. Com “Abraham Lincoln – Caçador de Vampiros”, de Seth Grahame-Smith, lançado em janeiro de 2011 pela Editora Intrínseca, foi assim.

Há uns dois anos, andando pela Saraiva do Shopping Morumbi, vi de relance, numa capa, uma típica donzela do século XVIII com o título “Orgulho e Preconceito e Zumbis”. Só quando li a última palavra, reparei que a moça estava em decomposição; era, na verdade, uma morta-viva. O título autoexplicativo me fez comprar de imediato a obra de Grahame-Smith, que insere canibalismo, entranhas e lutas de espada no famoso romance de Jane Austen. Pouco depois, descobri que o mesmo autor havia escrito a vida do ex-presidente americano misturada com os famigerados sanguessugas. Decidi, então, que deveria ler este livro.

O tempo passou e eu sofri calado, não deu pra tirar o livro do pensamento (OK, parei!). Passei um bom tempo sem ter a oportunidade (ou dinheiro) para comprar, até descobrir que, mesmo escrita depois do terror de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy contra os mortos-vivos, a saga de Lincoln sairia antes nas telonas, com produção de Tim Burton e direção de Timur Bekmambetov. Logo, resolvi adiantar a leitura. Mas filha cresce, filho vem e, apesar de já possuir o livro (não me lembro de quando exatamente adquiri), só pude lê-lo no mês passado, poucos meses antes do lançamento da adaptação – que será no dia 3 de agosto próximo.

Ao descobrir que sua mãe morrera envenenada por um vampiro, e não uma doença rara sem explicação, como lhe explicaram, o ainda pequeno Abrahan Lincoln decide se transformar em um exímio caçador desta criatura demoníaca – como ele mesmo, um cristão, gosta de dizer. Sua origem humilde fez com que trabalhasse desde muito cedo na lavoura, o que o deixou alto e forte suficientemente para a empreitada. Assim, o futuro presidente dedicaria toda sua vida para expulsar do seu país a raça que matara sua mãe – entre outros queridos durante sua existência.

Mas esta luta não seria fácil. Aproveitando da escravidão, ainda muito presente em meados do século XVIII, os sanguessugas haviam encontrado no novo continente um ambiente perfeito para sobreviverem. A facilidade de compra de escravos, sem nenhum acompanhamento das autoridades, por exemplo, fazia com que o “alimento” fosse comprado – inclusive em leilões onde eram vendidos os mais fracos e velhos, com baixo custo – sem nenhuma dificuldade. O ceticismo dos americanos também era um fator que ajudava a deixá-los às escuras. A maioria acreditava ser apenas um mito. Para enfrentá-los, então, Lincoln, um ávido leitor, precisaria, além da informação adquirida nas literaturas e de suas habilidades com machado, conhecer cada ponto fraco do seu inimigo. Mesmo que a única maneira fosse se tornar amigo de Henry, um ser da espécie que desejava destruir.

Grahame-Smith conta a vida de Abe dos 9 anos de idade até seu assassinato em 1865, passando pela infância humilde e a trágica morte de sua mãe, seus tempos de balconista longe de casa, o início da vida política, tempos de advogado, todas as suas perdas (incluindo alguns de seus filhos) até seu envolvimento decisivo na abolição da escravatura e com a Guerra Civil Americana. O curioso é que, exceto os elementos sobrenaturais, tudo faz parte da verdadeira história de um dos mais importantes presidentes dos Estados Unidos. O novelista, que deve ter pesquisado muito a respeito, tamanha riqueza de detalhes, utiliza até mesmo o nome dos personagens reais, dos familiares aos generais, dos amigos até o próprio assassino – um conhecido ator de teatro daqueles dias.

Aqui, os vampiros – como o próprio criador disse na Comic-Con do ano passado – não brilham tais quais os de Stephenie Meyer. Não apenas sugam, mas decepam, decapitam e matam, se for necessário (ou não), até a família das vítimas, com suas presas e unhas capazes de atravessar o peito. São extremamente inteligentes, frios e, apesar de mais enfraquecidos com o sol, podem atacar à luz do dia. Mas a obra, como o próprio país à época, mostra que de todos os lados, sul e norte (vampiros e humanos), há quem se salve – “alguns humanos são especiais demais para morrer”, “nem todo vampiro é assassino”. O próprio protagonista encontra em um vampiro a parceria que mais te ajudaria na destruição – ou, ao menos, diminuição – de sua própria raça nas terras ianques.

O escritor coloca, de maneira orgânica, este elemento surreal na vida de Lincoln, mudando muito pouco, senão nada, da ambientação do século XVIII que conhecemos das aulas de História. Utiliza, bem humoradamente, truques com Photoshop para caracterizar famosas imagens do tempo de escravidão e gravuras do próprio presidente. Smith não perde o ritmo em momento nenhum, seja no primeiro encontro do ainda jovem Thomas, pai de Abrahan, com as criaturas (um dos grandes momentos do livro), seja ao tratar do primeiro (e inesquecível) amor do protagonista.

Até quando interrompe a biografia de Lincoln, para mostrar como Henry se tornou vampiro, em vez de esfriar, acrescenta sensibilidade ao ser mórbido, aproximando o leitor daquele que se tornaria parte essencial da trama. O suspense, essencial a qualquer obra que abrange este tema, também é um ponto forte na leitura – impossível piscar, lá pelo final do livro, quando Abe vive uma de suas últimas aventuras, ao invadir a casa de um importante nome da Confederação. Ainda que mais moderadamente comparado ao seu livro dos mortos-vivos, Smith encontra momentos para brincadeiras divertidas e piadas de humor negro.

Por conhecer o ator que fará o papel principal nos cinemas, pude imaginar meu Lincoln já com um rosto – Benjamin Walker. Outros personagens, visualizava de outra maneira, como a esposa de Lincoln (não sei se Mary Elizabeth Winstead combina com a sofrida Mary Todd). Acredito que isto acontece muito com qualquer um que leia livros que tem adaptações prontas ou em andamento (li “Um Dia”, de David Nicholls, inteiro com os rostos de Anne Hathaway e Jim Sturgess nos papéis principais pouco antes do filme ser lançado).

Não sou do tipo que cria muita expectativa em cima de um longa, comparando-o com a obra escrita à risca. Inclusive, acho injusto quando não conseguem separar uma coisa da outra; sempre criticando a obra filmada, sem muito critério, esquecendo que nem tudo é “filmável”. Porém é importante manter a essência da história, importantes personagens, lugares e cenas. É inevitável desejar que, se não todos, muitos detalhes sejam migrados para as telonas.

Finalmente, torço para que Burton e Bekmambetov acertem o tom e realizem, ao menos, um ótimo entretenimento. O roteiro ser escrito pelo próprio Seth Grahame-Smith (que roteirizou o próximo filme de Tim Burton, também sobre vampiros, “Sombras da Noite”) é algo positivo, porque aumenta a probabilidade de elementos primordiais não ficarem de fora.

Clicando no link abaixo, você pode ler o primeiro capítulo do livro e, mais abaixo, o trailer (legendado) da versão filmada mais um dos cartazes do longa-metragem.

http://www.intrinseca.com.br/upload/livros/1CapCacadorVampiros.pdf

http://www.youtube.com/watch?v=FGDF8yj4808

Vampire Hunter

 

Versão de estúdio de The Daily Mail, Radiohead

Ótima canção que ficou de fora do álbum The King of Limbs, “The Daily Mail”, já tocada em alguns shows do Radiohead, recebe agora uma versão de estúdio. Gravada para um especial de TV da BBC, a música será lançada em breve como EP, segundo o site weallwantsomeone.org. “Staircase”, também engavetada no último CD da banda, estará no mesmo EP que estará nas lojas (lá fora) antes do final do ano.

Clique aqui para ouvir a música.

Apenas o vocal de Thom Yorke e o piano predominam a canção, lembrando um pouco a “Videotape” do penúltimo álbum de estúdio… Pelo menos até os 2:08. Quem me conhece minimamente, sabe que o grupo liderado por Yorke é, de longe, a banda que mais gosto. Talvez a única que acompanho as novidades, compro CDs sem mesmo saber se será bom – nunca me decepciono, pelo contrário, sempre me surpreendo. Então, qualquer comentário a respeito será muito suspeito.

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Sei que estou distante do blog há algum tempo, então, a primeira postagem merecia mais atenção, mas prometo retomar o Cinema Franco, principalmente agora que estou de férias escolares – sem previsão de retorno às aulas.

Abraço,

FFSA