Hereditariedade zero, amém!

– Papai, deixa eu falar?

O pneu do carro havia furado na Av. 9 de julho, perto do Itaim, logo depois de eu ter deixado a esposa no trabalho. Isso não seria complicado, não estivessem meus dois filhos no banco de trás; Sofia com 4 anos comemorados há duas semanas, e Artur, prestes a completar seu primeiro aniversário.

Para piorar, Sofia queria ir ao banheiro (“número 1, sem picles”) e Artur, também (“número 2, capricha no molho”). Mas como ele usa fraldas, o seu tempo entre querer e fazer gira em torno de 2 a 3 segundos, logo ali mesmo o fez. A sorte voltou, depois de me abandonar às traças, e o objeto não identificado no pneu tinha um tipo de “cabeça” que não deixava o ar escapulir tão rapidamente. Percebi que poderia ir para casa, onde seria mais fácil colocar o estepe.

É a quarta vez que eu tenho problema com carro. A primeira com Artur e a segunda com a Sofia – a primeira foi em plena Cidade Jardim, com a bateria morta sem chances de ressurreição, num dia em que choviam oceanos em São Paulo. Não sei quem já passou por isso, mas é terrível. É uma situação comum, claro, nada demais, mas que causa um desconforto incomum quando se está sozinho com os filhos. Você se sente culpado por ter deixado aquilo acontecer, fica pensando onde errou, como irá fazer, quem irá chamar, se há alguém para ajudar, se as crianças estarão com fome, sede. No fim, bem verdade, quando tudo se resolve, nota que nem sequer perceberam o que aconteceu, mas até lá…

Cheguei em casa apartamento, fiz o que tinha que fazer com as crianças, peguei alguns brinquedos de morder, uns papéis e lápis de cor para a Sofia colorir nas escadas perto do carro, desci com eles e coloquei o Artur no bebê-conforto num lugar onde pudesse me ver (deixá-lo engatinhando na garagem do condomínio não me parecia a melhor das ideias).

Era 1h da tarde, sol bombando, cabeça quente e doendo (dói todo fim de semana, quando não tomo café) e com o aniversário do Guga (meu sobrinho) começando às 14h. Sem falar que, antes de ir para a festa, eu precisaria ainda dar um banho no Artur e alimentá-lo. Por estar trocando pneu, eu também teria que tomar banho.

Bom, depois de bagunçar tudo o que estava no porta-malas, buscando o estepe, vi que este fica embaixo do porta-malas, do lado de fora. Ainda assim, anos se passaram até eu conseguir tirar a roda dali. Sou um asno neste assunto, já devem ter notado, mas eu teria cerca de 50 ideias de lugares e formas mais simples para prender a roda reserva sem ter que sujar até o sovaco. Tinha jogado duas horas de futebol pela manhã, suficientes para deixar qualquer sedentário nato como eu com coordenação motora e força muscular debilitadas. E assim, desprovido de qualquer energia, fui tentar desparafusar a roda.

Acredito que em partos normais de crianças acima de 5 kg, a mulher faça força similar a que eu fazia – ou imaginava estar fazendo. Tive a impressão de que se fizesse um pouco mais de força, eu teria mais um filho ali mesmo. Cansei e me sentei no chão, com os braços sobre as pernas, suando sangue. Sofia, que estava perto, pedindo para me ajudar o tempo inteiro, e eu negando (preocupado em mantê-la numa distância segura do carro), chegou mais perto, olhou para mim e disse:

– Papai, deixa eu falar?

– Fala, Sofia.

– Tenta com o pé.

Olhei para ela, sorrindo e com os olhos brilhando (um pouco por querer chorar, um pouco pela força que estava fazendo, um pouco de felicidade por ela ser muito mais inteligente que eu), e só consegui responder.

– Obrigado, linda. Seu pai é muito lento e você é uma linda.

Foi único eufemismo leve para o mais correto “seu pai é uma anta!”. Consegui desparafusar a roda, é claro.

Menina esperta.

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Novo Trailer de Man of Steel

A Warner Bros. divulgou nesta terça o novo trailer de “Man of Steel“, o Superman que Zack Snyder (“300” e “Watchmen”) dirige numa produção de Christopher Nolan (Trilogia “O Cavaleiro das Trevas” e “A Origem”).

Depois do teaser lançado em julho à lá “Árvore da Vida”, o novo vídeo agora conta um pouco mais de história, em especial, sua relação com seus pais “terráqueos” (Kevin Costner e Diane Lane), infância de Clark Kent e vemos até um relance do General Zod (Michael Shannon), além de Russell Crowe como Jor-El. Ao que parece, a história mostrará muito do lado humano de Superman.

Trilha sonora feita para arrepiar (funcionou bastante comigo), muitos flares e algumas cenas de ação, trailer lindo. Complicado mesmo é esperar até julho do ano que vem, quando o filme estreia no Brasil.

Na cópia de “O Hobbit”, que estreia nesta sexta-feira aqui no Brasil, haverá um novo trailer. Veja o vídeo abaixo.

 

Uma simples coincidência

 

(O pequeno relato abaixo não tem nada demais, nada de profundo – exceto pra mim)

Mundo engraçado. Saindo do estação da Vergueiro, vindo para o trabalho, encontrei o Sr. Nelson, deficiente visual. Quase sempre que venho de metrô, é possível encontrar alguém guiando-o. E hoje, depois de vê-lo apanhar da infraestrutura horrível do Metrô (o piso “braile” dá numa catraca no sentido contrário), fui eu a tentar ajudá-lo.

Para minha sorte, ele estava indo para o Beneficência Portuguesa, hospital por onde passo todos os dias, então pude acompanhá-lo até a porta do setor onde troca sua roupa para trabalhar. Pelo caminho, perguntou meu nome, onde trabalhava, se preocupou com o nosso horário (ele sabia que tínhamos apenas suficientes 5 minutos para entrar, não sei como), apontava para os locais onde costuma comer, prédio onde trabalha, deu até pra saber que além de trabalhar no BP, é também funcionário público em outro lugar de onde sai apenas às 21h. Detalhe: assim como eu, ele entra às 7h.

Mas a parte curiosa é que quando o encontrei, ainda na saída da estação, eu estava de fone de ouvido, que retirei assim que começamos a andar juntos. Então, tão logo o deixei na porta do Bloco I, coloquei de volta o fone e para minha surpresa, de 5GB de música em modo aleatório, estava tocando justamente a linda “Lover of the Light“, do Mumford and Sons, cujo vídeo-clipe é justamente este abaixo, dirigido pelo ator inglês Idris Elba e Dan Cadan. Com belíssima fotografia, o vídeo tem algumas interpretações possíveis, além de Elba, também à frente das câmeras, emocionando como o cego em busca de luz.

Como disse, não tenho nada profundo para dizer a respeito. Fato é que senti um nó na garganta e olhos marejados tamanha coincidência.

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Check-in (ou Como deixar sua manhã mais divertida)

21h30 – Saindo da casa do cunhado.

22h – Vendo jogo do São Paulo, pela TV.

00h – Indo para cama e colocando o despertador para tocar mais cedo, pois quinta-feira é dia de ir de ônibus.

5h – Acordando – aquela mesma vontade de xingar de sempre.

5h10 – Tomando banho, escovando os dentes e mirando o ralo pra fazer o xixi matinal.

5h20 – Penteando o cabelo.

5h22 – Procurando a carteira pela casa.

5h24 – Procurando a carteira pela casa – os primeiros palavrões passando pela cabeça.

5h26 – Descendo o elevador, para procurar a carteira no carro – falando muitos palavrões.

5h29 – Subindo elevador, para saber se a esposa (ainda dormindo) sabe onde está o que procuro – inventando novos palavrões.

5h32 – Percebendo que esqueci a carteira no cunhado – gritando histericamente outros novos palavrões.

5h33 – Pegando o bilhete único da esposa.

5h38 – Entrando no ônibus, pensando o que vou comer durante o dia – xingando todas as pessoas que conheço.

5h48 – Descobrindo que a chave do carro ficou no meu bolso, lembrando que a esposa iria de carro – xingando todo mundo que não conheço.

5h53 – Entrando no ônibus de volta pra casa – xingando todos aqueles que ainda irão nascer.

5h58 – Mandando mensagem para esposa, no ônibus, dizendo que estou voltando pra casa – lembrando da música do Lulu Santos.

6h – Me esquecendo de dar sinal para o ônibus parar em frente de casa – pensando em suicídio.

6h03 – Descendo um ponto depois de casa, o final, no Terminal Capelinha.

6h06 – Terminando de subir as infindáveis rampas do Terminal, voltando a pé para casa.

6h15 – Chegando em casa.

6h16 – Devolvendo o bilhete único para esposa.

6h21 – Indo de carro para o trabalho, sem carteira, para não atrasar. E deixando a esposa na mão.

6h22 – Tomando a decisão de esfaquear quem me desejar bom dia.

Trailer Internacional de As Aventuras de Pi

As Aventuras de Pi“, dirigido por Ang Lee e roteirizado por David Magee (“Em Busca da Terra do Nunca”), narra a fantástica história do jovem Pi Patel que, numa viagem para o Canadá, fica à deriva em pleno Oceano Pacífico num pequeno barco, onde é obrigado a conviver com um hostil tigre-de-bengala.

Lee, diretor asiático com filmografia invejável, incluindo os mais conhecidos “O Tigre e o Dragão”, “Hulk” (com Eric Bana, que até hoje é a melhor adaptação do gigante verde da Marvel na minha opinião), e vencedor do Oscar de Melhor direção por “O Segredo de Brokeback Mountain”, deve, como de costume, nos presentar com um belíssimo e emocionante filme. O vídeo já mostra que irá conseguir.

Pena que o longa chega aos cinemas americanos dia 21 de novembro e, aqui no Brasil, só no Natal.

Clique no link para assistir ao Trailer Internacional – Life of Pi.

Fonte: http://www.movieline.com

Uma consulta perfeita

– Número 003!

– Opa, nossa vez. Sofia e Artur, venham!

– Olá, eu sou o Dr. Paulo. Prazer!

– Tati, Sofia, Artur. E eu sou o Fagner. Prazer é nosso.

– Wagner?

– Não. Fagner com “F” de faca.

– Hmm. Igual ao cantor? Sabe cantar também?

– Sim. Quer dizer, “sim” para a parte do igual ao cantor. E “não”, não sei cantar.

– Que filhos lindos!

– Muito obrigado.

– Podem se sentar.

– Dr. Paulo, já adianto que é um tanto quanto incomum o que vamos te falar.

– Fique à vontade.

– Ontem à tarde, fomos ao parque Villa-Lobos. Brincamos um pouco e tal, até que começou a chover. Aí, pedimos ao Artur que parasse de jogar bola, para não se machucar. Mas sabe como é criança nessa idade…

– Ele tem quantos anos?

– 7 anos. Então, não deu outra. Foi dar uma arrancada e acabou escorregando. Caiu igual a uma jaca. Aí vem a parte bizarra. Entrei na quadra pra ajudá-lo, ver se estava tudo bem, quando, do nada, me deu uma puta dor no braço.

– Há um bom tempo vocês não vêm ao hospital, né?

– Sim, sim. Aí, com certa dificuldade consegui levantá-lo. Em questão de segundos, ele já estava bem e só não continuou jogando bola, porque a mãe fez uma proposta irrecusável (só um terrorismo psicológico, envolvendo um cavalo decepado, baldes de sangue e louça suja). Só quando voltei para o carro, pude perceber que meu braço, além de muito dolorido, estava suavemente torto. Mas resolvi deixar pra lá, achando que uma hora ou outra iria voltar ao normal. Enfim, não aguentei a dor e hoje pela manhã, vim para hospital.

– Está com o Raio-X?

– Aqui está. O senhor pode aproveitar e me receitar um remédio para febre e dor de cabeça? E um de tosse para minha esposa.

– O senhor está com dor de cabeça e febre?

– É, até pensei que devia ser algum reflexo desse lance do braço, mas me lembro de ter sentido fortes dores de cabeça ontem cedo, mas como é comum eu ter dor de cabeça, nem dei bola. Agora, a febre deve ser por causa do braço, né?

– Talvez. E a tosse da senhora?

– Então, acho que estou resfriada. Começou também essa noite. Mas antes que pergunte, não, eu não tomei chuva. Estava com um guarda-chuva no carro…

– E a sua filha Sofia? Perdoem o trocadilho.

– Ela está bem.

– Não, quero dizer ela tomou chuva?

– Sim, tomou, estava com algumas amigas, brincando de patins, mas ela está bem.

– Ok, muito bem. Comecemos pelo Artur…

– Artur?

– Isso. Infelizmente, seu filho fraturou o braço.

– Desculpa? O senhor quis dizer eu, Fagner, certo? Prossiga.

– Não, o Artur mesmo. Mas não se preocupem, pois não é nada grave. Em uns 30 dias, ele já estará recuperado. Só teremos que colocar o braço do senhor no lugar e engessá-lo.

– Oi?

– Não souberam dos últimos avanços da medicina, suponho. Deve ter sido este tempo longe dos hospitais.

– Sim, claro, acredito que tenha avançado, mas o senhor só está confundindo os nomes. Apesar de meu filho Artur ter caído, ele não quebrou nenhum membro. Veja, é meu braço que está torto.

– Vamos lá. Nós médicos, juntamente com cientistas e em parceria com Jesus Cristo, até porque era necessária sua participação de forma direta…

– Espera. Jesus? Tipo “o” Jesus. Do céu e tal?

– Esse. Nós fizemos uma pequena alteração em questões que envolvem dor, mal estar ou algo parecido nas crianças abaixo de 12 anos. Até porque, depois disso, já adolescentes eles têm mais é que sofrer mesmo.

– Tem alguma câmera aqui? É algum tipo de piada?

– Sr. Wagner, não brinco com coisa séria nem com nada envolvendo qualquer nome celestial. Posso continuar?

– Desculpa, quer que eu finja que estou acreditando ou prefere que eu continue com essa cara de cínico?

– Como quiser. Fato é que as crianças não mais sentem fortes dores, mas apenas uma pequena, suficiente para aprenderem e não repetirem mais.

– A-han. Então, segundo sua ideia mirabolante, esta tosse da minha esposa deve ser da chuva que a Sofia tomou ontem.

– Acredito que sim. Mas o que mais me preocupa é esta febre e dor de cabeça. O senhor tem vomitado?

– Não. Ás vezes, eu vomito por ter comido demais. Fico sentado comendo e, só quando me levanto, percebo que comi mais do que deveria.

– Mas de anteontem pra hoje, alguma vez?

– Não.

– Bom, de todo modo, teremos que retirar líquor do senhor, apenas para eliminar que seus filhos estejam com alguma coisa mais grave. É uma agulha um pouco grossa. Vão enfiar na medula do senhor e recolher este líquido. Vai doer bastante. Tome esta via, leve para a enfermeira na terceira porta do corredor à esquerda e ela te encaminha para o setor responsável por este procedimento.

– COF! COF! COF! COF!

– Seria excelente essa história toda…

– COF! COF! COF! COF!

– Que história?

– …mas, apesar de fazer muito sentido, tenho certeza de que deve ter bebido mais do que deveria, doutor!

– Doutor?

– COF! COF! COF! COF! COF! COF!

– Isso. Conheço bem de hospital. Até os primeiros anos da Sofia, eu costumava ir semp…

– Está ficando doido, Fá?

– Hmm? A voz do senhor costuma ficar fina assim do nada, doutor!

– Fá. Ei! Fá! Fagner!?

– Hmm?

– Acorda! A Sofia continua tossindo. Esse tempo seco maldito. Fá, Fá! ACORDA!

– Oi!

– A Sofia. Temos que fazer alguma coisa. Ela não para de tossir.

– Eu sei, eu sei. Vamos colocar um balde de água lá de novo. O umidificador de ar chega essa semana.

– Estava sonhando?

– Sim.

– Com o quê?

– Deixa pra lá. Volte a dormir. Pode deixar que vou no quarto dela.